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Sanduíche Bolsonaro: Muito Exército entre o czar, o xerife e os radicais

Leonardo Sakamoto

28/11/2018 16h12

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Jair Bolsonaro, até aqui, montou um governo entregando a alguns ministros liberdade para aplicarem sua própria ideologia econômica ou jurídica e escolhendo alguns que representam o lado mais radical da linha bolsonarista. No meio, ministérios com nomes ligados a bancadas temáticas, ao seu partido, entre outros com menor peso político. E, garantindo proteção ao governo, muito Exército. A questão não é apenas se essa receita é saudável ou palatável, mas se ela não ganhará vida própria e se voltará contra o próprio cozinheiro. Há um monte de filmes de terror B com roteiro assim.

Bolsonaro colocou Paulo Guedes (Economia) e Sérgio Moro (Justiça) como carros-chefe e lhes deu relativa autonomia. É difícil imaginar que aceitem que o chefe decida por eles em questões fundamentais e engulam sapos sem se rebelar, por mais que saibam que o presidente eleito é e será imprevisível. No limite, podem voltar à iniciativa privada, no caso do primeiro, ou pedir uma "remoção" ao STF, no caso do segundo. Nessa situação, quem perderia é Bolsonaro, que indicou pessoas que não podem ser demitidas.

Por outro lado, ele também colocou Ernesto Araújo (Relações Internacionais) e Ricardo Vélez Rodrigues (Educação) para a tarefa de serem representantes não de correntes de pensamento econômico ou jurídico, mas de uma facção medieval e fundamentalista do já conservador bolsonarismo – o pacote cultural e comportamental de ideias que fazem a alegria de uma minoria ultraconservadora de seus eleitores. Ainda é cedo para entender se o novo chanceler acredita em tudo o que diz ou apenas anteviu uma oportunidade. Mas ambos entram saudando a "mão firme e confiante" de Bolsonaro, dizendo que ela "nos guiará". Ou fazendo concessões pouco republicanas, como dar acesso prévio à prova do Enem para que o comandante possa verificar se tudo está ao seu agrado.

Logicamente, ambos são descartáveis. Há uma lista de pessoas que poderiam substituir o primeiro no próprio Itamaraty, com a mesma dedicação em seguir a "mão firme" para onde quer que ela vá.  Talvez sem o mesmo histrionismo, mas a possibilidade de poder tem uma capacidade transformadora na vida das pessoas.

O mesmo vale para Vélez, escolhido mais por decisão de lideranças político-religiosas, do que por apontamento do suposto guru presidencial. Afinal, Bolsonaro teve que encontrar alguém de última hora para atender às reclamações daqueles que ajudaram a elegê-lo, insatisfeitos com o nome de Mozart Ramos, cotado antes. Quem chancela é que escolhe. A Bancada do Fundamentalismo Religioso é responsável pela construção simbólica da maior fatia do bolsonarismo que foi vendido à população, no que pese a influência de Olavo de Carvalho em parte do eleitorado-raiz do capitão.

No meio desse grupo, estão os militares.

Um general-guru no Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno. Um general como vice-presidente, Hamilton Mourão. Outro na defesa, Fernando Azevedo e Silva. Mais um na Secretaria de Governo, Carlos Alberto dos Santos Cruz. Um tenente-coronel da Aeronáutica no Ministério da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes. E Tarcísio Gomes de Freitas, que não é militar, mas se formou como engenheiro civil pelo Instituto Militar de Engenharia e atuou na Missão de Paz no Haiti, coordenada por Augusto Heleno,  Azevedo e Silva e Santos Cruz. Além de Wagner Rosário, na Controladoria Geral da União, formado em ciências militares pela Academia Militar das Agulhas Negras. Tudo isso, por enquanto.

Com exceção dos dois primeiros, os demais poderiam ser substituídos, mas dificilmente serão. A proximidade com os militares, principalmente o Exército, na reserva e na ativa, garante proteção a Bolsonaro. Isso está bem resumido na declaração, ainda nas eleições, do deputado federal Eduardo Bolsonaro sobre um dos principais critérios para a escolha do vice-presidente na chapa de seu pai: "Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira pra ser vice", disse ao jornal Folha de S.Paulo. "Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment."

Mas também cria balizas para o seu governo. Pois dificilmente, uma parcela nacionalista do comando militar vá aceitar calada uma política econômica que permita a possibilidade de privatização de áreas e atividades que eles considerem estratégicas, como a produção de energia, para fundos estrangeiros. Ou aceitar uma política internacional que não inclua a participação brasileira em missões de paz das Nações Unidas ou interfira de forma atabalhoada em outros países da América do Sul. Ou ainda que nivele as demandas para aposentadoria dos militares ao restante dos trabalhadores do regime geral.

Ou seja, militares podem atuar como colchão de segurança, mas também como seu limitador. Isso funciona, é claro, se ele resolver não desandar a maionese cometendo uma série de erros crassos em sequência. Ou, devido à precária interface político-econômica que criou até agora, ser incapaz de promover as reformas que promete e manter o crescimento do emprego em patamares temeristas, ou seja, pífios.

Aliás, diante de um governo em risco de queda, Michel Temer também trouxe as Forças Armadas para perto de si. Antes de entregar o comando da intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro a um general, ele já havia colocado militares em outros postos-chave.

Um general no Ministério da Defesa; um general comandando a Funai; outro, a Secretaria Nacional de Segurança Pública; mais um na chefia de gabinete da Casa Civil. Sem contar que ele já havia entregue o Gabinete de Segurança Institucional a um general, devolvendo ao órgão o controle sobre a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). E que sancionou a lei que transfere o julgamento de crimes cometidos por militares durante operações urbanas para a Justiça Militar.

Ninguém questiona a importância das Forças Armadas e o papel que elas cumprem em uma democracia. Mas os governos civis pós-1988 distanciaram os militares da gestão do país não apenas por traumas do passado, mas também por uma visão de democracia próxima do voto e distante dos quartéis. Ao buscar neles fiadores, Temer e Bolsonaro correram o risco de jogar esse esforço no lixo.

Como já disse aqui, o problema é que gente armada até os dentes pode significar uma fortaleza. Mas também uma masmorra.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.