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Bolsonaro quer, ao lado de Trump, antecipar o Apocalipse

Leonardo Sakamoto

29/11/2018 14h25

Queima de pastagem em área desmatada na Amazônia. Foto: Rodrigo Baleia/ Greenpeace

É tocante a dedicação com a qual o governo eleito de Jair Bolsonaro tem se esforçado para garantir a redução do preço de produtos de origem agropecuária ao consumidor brasileiro. Porque, caso se confirme a saída do país do Acordo do Paris e a mudança de nossa embaixada em Israel de Tel Aviv para uma Jerusalém disputada entre judeus e palestinos, iremos sofrer retaliações comerciais nos próximos anos. Consequentemente, vai sobrar mercadoria não-exportada, derrubando preços.

Quem pode não gostar é parte dos produtores rurais. E dos industriais. E da economia. Mas isso é apenas um detalhe.

Bolsonaro afirmou que pediu para o Brasil retirar sua candidatura para sediar a COP-25, a conferência anual da ONU para discutir a implementação do Acordo de Paris, que trata do que os Estados devem fazer para frear as mudanças climáticas causadas pela ação humana. "Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro [das Relações Exteriores], eu recomendei que se evitasse a realização desse evento aqui." O mundo já contava que hospedássemos o evento.

Deixar o Acordo colocará o Brasil em uma lista de párias isolados do sistema multilateral e ainda vai expor o nosso país a barreiras, sobretudo de países europeus – que já assinalaram a imposição de "tarifas climáticas" a quem não estiver cumprindo o acordo. A soja, matéria-prima de óleos, rações e presente em boa parte dos alimentos industrializados e que é um dos principais itens de nossa pauta de exportação, deve sentir os efeitos disso. Boa parte de sua produção encontra-se na Amazônia Legal e no Cerrado.

Ao mesmo tempo, países islâmicos são grandes compradores de proteína animal do país. Do total exportado, 40% da carne e 45% do frango são halal, ou seja, abatidos conforme preceitos islâmicos. As declarações sobre a mudança da embaixada já deixaram esses parceiros comerciais incomodados. E como amostra grátis, levaram ao cancelamento pelo governo egípcio de uma visita oficial que o chanceler brasileiro faria ao país. A relação comercial Brasil-Egito é largamente favorável a nós.

Em contrapartida, estaremos perfeitamente alinhados à ideologia salvacionista de algumas linhas religiosas cristãs dos Estados Unidos, que foi importada para cá, e crê que o sucesso do projeto sionista de Grande Israel é uma condição prévia à Segunda Chegada de Cristo.

Estaremos também buscando alinhamento à ideologia ultranacionalista de Trump. Ele tem advogado a revisão de acordos, em uma postura de negociação dura, querendo que seu país exporte mais e importe menos. Corre o risco de, em troca de um cafuné qualquer em Bolsonaro, nossa balança comercial que já é altamente deficitária com os norte-americanos (eles tiveram superávit de US$ 90 bilhões nos últimos dez anos), acabe ficando ainda pior. Afinal, "America First".

Uma eventual negociação bilateral Brasil-EUA teria tudo para ser um massacre, não uma negociação. Como mesmo diz o boné que o deputado federal Eduardo Bolsonaro usou em viagem aos Estados Unidos, nesta semana: "Make America Great Again".

Nossa matriz energética já é vista internacionalmente como mais limpa (no que pese os profundos impactos negativos da construção de hidrelétricas), como já disse aqui. Por isso, nosso esforço de cumprimento do Acordo de Paris, apesar de significativo, é mais baseado no combate ao desmatamento. O que é, já em si, positivo e não passa por reformular e fechar bilhões de dólares em usinas de carvão – como é o caso de alguns outros países. Além disso, o acordo valoriza o sequestro de carbono, que é um serviço que o Brasil pode suprir, e com isso ganhar muito, seja via reflorestamento, seja via a produção de biocombustíveis e outras fontes renováveis de energia, em que temos grandes vantagens comparativas.

Ou seja, além de queimar florestas, vamos queimar dinheiro. Dólares, euros, yuans.

Donald Trump anunciou, no ano passado, que iria desfazer políticas de combate às mudanças climáticas implementadas por seu antecessor, Barack Obama, e divulgou medidas para impulsionar a indústria do carvão, sob a justificativa de que isso iria gerar empregos – por mais que outras fontes energéticas já tenham se mostrado mais vantajosas economicamente. Também cortou diretrizes para combater o aquecimento global e tirou os Estados Unidos do o Acordo de Paris, que previa a redução de emissões de gases causadores do efeito estufa.

Bolsonaro quer ir pelo mesmo caminho, alegando perda de soberania. Para tanto, resgata teorias paranóicas de alguns círculos militares. O que, esperemos, seja resultado apenas de falta de informação e maus assessores.

Bolsonaro presta continência a assessor de Donald Trump ao recebê-lo para café da manhã em sua casa nesta quinta (29)

É possível crescer economicamente, mas com responsabilidade. Respeitando o zoneamento econômico da região, que diz o que pode e o que não pode se produzido em uma área; realizando uma regularização fundiária geral e confiscando terras roubadas do Estado; executando uma reforma agrária com a garantia de que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes; preservando os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país; mantendo o exército na caserna e longe da política fundiária e indígena. Ah, e sem usar trabalho escravo.

O "Relógio do Juízo Final", um medidor simbólico mantido pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, nos Estados Unidos, mostra o quão perto estamos de destruir nossa civilização por tecnologias que criamos. Inicialmente, ele retratava o risco de armas nucleares, mas, recentemente, passou também a considerar mudanças climáticas, biotecnologia e nanotecnologia, entre outras, que podem, mesmo sem intenção, passar a régua na humanidade. Na pior situação do relógio, chegamos a 2 minutos da meia-noite (em 1953, com sucessivos testes nucleares do EUA e da União Soviética) e, na melhor, a 17 minutos (com a redução do arsenal nuclear ao fim da Guerra Fria).

Desde então, o reloginho foi se aproximando do fim dos tempos e, em 2018, foi novamente ajustado para 2 minutos para a meia-noite. Entre os motivos principais, ameaças nucleares, mudanças climáticas e Donald Trump. Dependendo do que o Brasil faça, no ano que vem podemos aparecer no relatório como responsáveis por colocar em risco as próximas gerações.

A situação agora não diz respeito apenas ao futuro, mas à situação econômica do país. Por isso, a dúvida é se os produtores rurais, industriais e comerciantes responsáveis vão deixar o governo eleito jogar fora décadas de implementação de políticas que significam uma vantagem comparativa para o agronegócio brasileiro. Ou irão se manifestar antes que seja tarde.

"As ações de Trump [de abandonar o Acordo Climático de Paris e de negação das mudanças climáticas] podem levar a Terra à beira do abismo e transformá-la em Vênus, com uma temperatura de 250ºC e chuva de ácido sulfúrico." Quando o físico Stephen Hawking fez essa analogia, no ano passado, os comentários das notícias estavam cheios de declarações como "quem ele pensa que é para espalhar notícia falsa" e "mentira, porque Jesus vai voltar antes". Ele faleceu neste 2018, aos 76 anos.

Se estivesse vivo, ironicamente acrescentaria o nome de Bolsonaro.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.