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Bolsonaro não precisa crer em mudança climática. Basta acreditar em boicote

Leonardo Sakamoto

06/12/2018 13h04

Foto: Daniel Beltra/Greenpeace

O Brasil deve perder o protagonismo no combate global às mudanças climáticas com a chegada da gestão Jair Bolsonaro. Pelo menos é o que tudo indica até aqui. O novo ministro das Relações Exteriores acredita que a questão é um "dogma marxista" e aponta para uma espécie de "alarmismo climático". Os filhos de Bolsonaro, todos políticos eleitos, são céticos a respeito do tema, atacando-o nas redes sociais. E o novo presidente tem criticado o Acordo de Paris, que trata das políticas a serem adotadas pelos países a fim de evitar um desastre climático global, defendendo o nosso direito de desmatar como fez a Europa no passado. Enquanto isso, espera-se a indicação da próxima pessoa a comandar o Ministério do Meio Ambiente – que pode ficar informalmente subordinado aos interesses da parte mais arcaica da agropecuária nacional.

No Brasil, dias frios durante o verão causam alvoroço em uma espécie fascinante de mamífero: o negacionista. Ele não acredita que a ação humana pode ser responsável por mudanças no clima e considera isso uma teoria da conspiração para impedir o desenvolvimento econômico por parte de países desenvolvidos.

Donald Trump, que durante sua exitosa campanha à Presidência, disse que o aquecimento global era uma invenção dos chineses para atrapalhar a economia dos Estados Unidos, é um deles. Mas temos muitos por aqui que pipocam nas redes sociais assim que os termômetros caem. É fácil identificá-los. Acham que estão lacrando a internet ao ironizar perguntando onde está o aquecimento global em momentos de frio de bater o queixo. Pois, se ele existe, não poderia estar tão frio, correto?

Errado.

A elevação na temperatura do ar próximo à superfície do planeta e dos oceanos, causada pelo aumento de gases que provocam efeito estufa, não significa transformar o mundo necessariamente em um grande forno. Também desregula o frágil equilíbrio que torna a terceira grande rocha a partir do Sol um lugar agradável para humanos, enlouquecendo o clima. Entre as consequências, está a proliferação no número de eventos extremos – como grandes secas e grandes inundações, nevascas e calor intenso, mais e maiores furacões/tufões e tornados. E se não agirmos agora para alterar nosso modelo de desenvolvimento, a fim de mitigar os já inevitáveis impactos causados pelos gases emitidos, vamos encontrar muita fome, pobreza, dor e morte nas próximas décadas.

Fortes quedas de temperatura pontuais podem ser provocadas por imensas massas de ar polar, por exemplo. E invernos podem ser mais ou menos rigorosos dependendo da interferência de fenômenos como o El Niño (de aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico), que inibe a entrada de frentes frias e massas de ar polar no país. Eventos específicos não são necessariamente consequência direta de mudanças climáticas. Pesquisadores preferem verificar a sua incidência ao longo do tempo e checar o aumento em sua frequência e em sua intensidade. Daí, olhando para uma série histórica, é possível entender a evolução do clima e quais suas manifestações extremas. Por exemplo, o índice pluviométrico (chuvas) no Brasil já sofre os efeitos das mudanças climáticas. O que afetará a geração de energia, a agropecuária e o abastecimento humano.

Falta a muitos que negam as mudanças climáticas a capacidade de enxergar o todo e aceitar que a vida pode ser mais complexa do que seus olhos podem enxergar. Não raro, observam apenas uma amostra visível do mundo e, metonimicamente, constroem a realidade baseado nesse recorte. O alerta sobre mudanças climáticas não são produto de fé, mas entendimento baseado em evidências científicas coletivamente chanceladas. Fé é acreditar que Jesus voltará antes do mundo virar geleia.

Bolsonaro afirmou que pediu para o Brasil retirar sua candidatura para sediar a COP-25, a conferência anual da ONU para discutir a implementação do Acordo de Paris, que trata do que os Estados devem fazer para frear as mudanças climáticas causadas pela ação humana. "Houve participação minha nessa decisão. Ao nosso futuro ministro [das Relações Exteriores], eu recomendei que se evitasse a realização desse evento aqui." O mundo já contava que hospedássemos o evento.

Deixar o Acordo colocará o Brasil em uma lista de párias isolados do sistema multilateral e ainda vai expor o nosso país a retaliações comerciais, sobretudo de países europeus – que já assinalaram a imposição de "tarifas climáticas" a quem não estiver cumprindo o acordo. A soja, matéria-prima de óleos, rações e presente em boa parte dos alimentos industrializados e que é um dos principais itens de nossa pauta de exportação, deve sentir os efeitos disso. Boa parte de sua produção encontra-se na Amazônia Legal e no Cerrado.

Muitos negacionistas usam discursos de que a economia não pode pagar pelo custo das necessárias mudanças no modelo de desenvolvimento pela qual passa a solução. Mas nossa matriz energética já é vista internacionalmente como mais limpa (no que pese os profundos impactos negativos da construção de hidrelétricas). Por isso, nosso esforço de cumprimento do Acordo de Paris, apesar de significativo, é mais baseado no combate ao desmatamento ilegal. O que é, já em si, positivo e não passa por reformular e fechar bilhões de dólares em usinas de carvão – como é o caso de alguns outros países. Além disso, o acordo valoriza o sequestro de carbono, que é um serviço que o Brasil pode suprir, e com isso ganhar muito, seja via reflorestamento, seja via a produção de biocombustíveis e outras fontes renováveis de energia, em que temos grandes vantagens comparativas. Ou seja, além de queimar florestas, vamos queimar dinheiro. Dólares, euros, yuans.

É possível crescer economicamente, mas com responsabilidade. Respeitando o zoneamento econômico da região, que diz o que pode e o que não pode se produzido em uma área; realizando uma regularização fundiária geral e confiscando terras roubadas do Estado; executando uma reforma agrária com a garantia de que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes; preservando os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país; mantendo o exército na caserna e longe da política fundiária e indígena. Ah, e sem usar trabalho escravo.

Para tanto, precisamos saber se o governo estará disposto a combater as ameaças reais que colocam em risco nossa casa comum ou zombará delas enquanto queima dinheiro de exportações, que ficarão bloqueadas em portos pelo mundo.

Em tempo:  Questionado sobre o aquecimento global, Bolsonaro afirmou, no último sábado (1): "eu acredito na ciência e ponto final. Agora o que que a Europa fez para manter as suas florestas, as suas matas ciliares? O que que eles fizeram? Querem dar palpite aqui?".  A declaração remete a outra, proferida pelo então presidente Lula, em março de 2008, quando defendeu a produção sucroalcooleira nacional – que, naquela época, era uma das campeãs em resgates de trabalhadores em situação análoga à de escravo: "Vira e mexe, nós estamos vendo eles [estrangeiros] falarem do trabalho escravo no Brasil, sem lembrar que o desenvolvimento deles, à base do carvão, o trabalho era muito mais penoso do que o trabalho na cana-de-açúcar".

Em ambos os casos, Bolsonaro e Lula compararam a realidade atual no Brasil com outra, do passado – o que é um absurdo, uma vez que a humanidade avançou nos últimos 200 anos. Claro que, em ambos os casos, há interesses econômicos estrangeiros de quem deseja usar a situação para alavancar o seu próprio protecionismo. Mas a verdade é que o Estado brasileiro permitiu que a exploração do meio ambiente e do ser humano acontecesse. Ao invés de reclamar, deveríamos continuar fazendo nossa lição de casa (e há muito a fazer) e mostrar o resultado mundo. O que é, ao mesmo tempo, a melhor vacina contra barreiras sob justificativas ambientais e trabalhistas e uma forma de ganhar dinheiro.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.