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Irritação de Onyx mostra que tática de atacar o PT e a imprensa tem limites

Leonardo Sakamoto

07/12/2018 18h29

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

O PT fez muita lambança no poder. E está pagando por isso – não sei se vocês sabem, mas Lula está na cadeia. Dito o óbvio, o governo Bolsonaro vai ter problemas se continuar fugindo de questionamentos de jornalistas usando o PT como distração. Uma coisa é distribuir antipetismo à militância em listas de WhatsApp, outra é usar isso para não responder a indagações de profissionais de imprensa. A impressão que fica diante da falta de transparência de agentes públicos é que há algo a esconder ou que o novo governo não consegue se comunicar se não for via microtextos lacradores em redes sociais.

O futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, abandonou uma coletiva de imprensa, nesta sexta (7), em um evento empresarial em São Paulo, depois de ter se irritado com perguntas de repórteres sobre um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que apontou uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão de um ex-assessor do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito.

Segundo a investigação, parte de um desdobramento da Lava Jato que prendeu deputados estaduais cariocas, R$ 24 mil desse montante foram destinados à atual esposa do presidente eleito, Michelle Bolsonaro. O caso foi revelado pelo repórter Fábio Serapião, do jornal O Estado de S. Paulo.

Jair Bolsonaro afirmou, nesta sexta, que o valor se refere a uma dívida pessoal que o ex-assessor e policial, Fabrício José de Queiroz, tinha com ele. Disse que o total, na verdade, era de R$ 40 mil e que ele pediu que a devolução fosse feita para a conta da futura primeira-dama. Flávio Bolsonaro declarou, por sua vez, que o ex-assessor relatou a ele uma "história bastante plausível" sobre o R$ 1,2 milhão, garantindo que as transações não são ilegais. O deputado estadual não deu detalhes sobre qual história é essa, mas disse manter a confiança no ex-funcionário.

Na coletiva, os repórteres queriam saber qual a origem do dinheiro. A pergunta era simples e demandaria uma resposta direta. Mas não foi isso o que aconteceu. O futuro ministro primeiro usou o PT como muleta, depois teceu uma resposta quase filosófica sobre a busca da verdade e terminou atacando os repórteres antes de deixar a coletiva.

Onyx – A aliança ideológica que foi construída no Brasil fazem vocês quererem misturar um governo decente, um governo honesto, que está apenas no seu alvorecer, com a lambança que o PT fez por 14 anos. Setores defendem que a candidatura do Lula tinha que acontecer, o Haddad com 31 processos e ninguém fala.

Jornalista – O que o Coaf tem a ver com isso?

Onyx – Olha aqui ó, o que tem a ver é o seguinte: estou respondendo ao senhor. O presidente é um homem que não teme a verdade, assim como eu não temo a verdade. E nós vamos trabalhar com a verdade. Até que a verdade se esclareça, nós vamos ver. Agora, não é só uma notificação. A pergunta é aonde é que tava o Coaf no Mensalão, aonde é que tava o Coaf no Petrolão, esse é o ponto.

Jornalista – A pergunta é qual a origem do dinheiro.

Onyx – Meu amigo, eu sou o investigador? Não. Como é que eu vou saber? Qual é o dinheiro que foi pra tua conta? Quanto o senhor recebeu este mês? Quanto o senhor recebeu este mês?

Jornalista – Eu? Isso não tem a menor relevância.

Onix – E não tem a menor relevância essa sua pergunta – abandonando a entrevista.

O caso veio a público nesta quinta pela manhã, portanto já havia passado tempo suficiente para o governo eleito dar informações sobre ele. Tanto Flávio quanto Jair Bolsonaro podem alegar que não sabem a origem dos R$ 1,2 milhão movimentados pelo assessor, mas será que sua esposa não poderia contribuir com a solução do caso, uma vez que é citada como beneficiária de parte do recurso? Vale lembrar que os filhos do presidente eleito têm participado ativamente da transição de governo e, além de serem figuras públicas por seus mandatos, exercem assessoria direta ao pai. Ou seja, a informação tem seu interesse público e não é fofoca familiar.

Em uma democracia transparente, uma coletiva à imprensa seria chamada para explicar isso no mesmo dia em que as denúncias vieram à público. No limite, o futuro ministro-chefe da Casa Civil poderia ter dito algo como "não tenho informações, vamos averiguar e comunicamos a vocês o quanto antes". Com a cena de hoje, apenas demonstrou nervosismo e produziu uma cortina de fumaça.

Vale lembrar que o próprio Jair Bolsonaro, antes e depois de eleito, abandonou coletivas à imprensa quando as perguntas não lhe agradavam, bateu boca com jornalistas, não raro de forma rude, e ignorou questionamentos de veículos de comunicação que não lhe agradam.

Se Onyx sabe que o Coaf guarda segredos do Mensalão e do Petrolão, o futuro ministro da Justiça, Sérgio Moro, que comandará o órgão, vai poder dizer – ou mesmo solucionar este caso dos R$ 1,2 milhão se não tiver uma resposta até lá. Já sobre o caso em questão, ele – como um dos principais assessores políticos do chefe – poderia ter explicado ao público.

Com o vazio nas respostas de Onyx desta sexta, a dúvida não é apenas se o novo governo acredita que não deve satisfações ao público. Mas também se ele pensa que somos uma sociedade de idiotizados que não percebe quando seus políticos fogem, com ar de indignação, de uma pergunta direta e objetiva.

Post atualizado às 19h40 do dia 07/12/2018 para inclusão de declarações de Jair e Flávio Bolsonaro sobre o caso.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.