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Espero que Queiroz esteja bem, porque o respeito à República vai mal

Leonardo Sakamoto

21/12/2018 19h35

O deputado estadual e senador eleito Flavio Bolsonaro com Fabricio Queiroz, ex-assessor parlamentar

O caso envolvendo Fabrício Queiroz e a inexplicada movimentação de R$ 1,2 milhão tem demonstrado um imenso desprezo por cidadãos e contribuintes que desejam saber a origem desses recursos. Mas também pelo trabalho do Ministério Público, que tem mais o que fazer do que ficar à sua disposição enquanto ele não comparece às convocações.

Queiroz faltou, pela segunda vez, ao depoimento agendado no Ministério Público do Rio de Janeiro, nesta sexta (21). O policial militar, ex-motorista do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro, foi chamado a esclarecer a movimentação atípica em sua conta bancária apontada pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Ele havia faltado à primeira convocação, nesta quarta (19), alegando uma "crise inesperada de saúde".

De acordo com seu advogado, "precisou ser internado na data de hoje, para realização de um procedimento invasivo com anestesia, o que será devidamente comprovado, posteriormente, através dos respectivos laudos médicos". Pode ser verdade. Mas dadas as proporções que o caso tomou, Queiroz deveria ter vindo a público explicar tudo em algum momento desde que o caso veio a público há últimas duas semanas.

Repito: duas semanas.

Por enquanto, o ex-motorista do deputado estadual e senador eleito Flávio Bolsonaro não é formalmente acusado de nada, apenas investigado. Mas o silêncio prolongado vai causando danos à imagem de seu ex-chefe e do pai dele, o presidente eleito.

O caso veio à tona com a reportagem de Fábio Serapião, do jornal O Estado de S. Paulo, no dia 6 de dezembro. Há coincidências entre datas de pagamentos dos salários pela Assembleia Legislativa do Rio, depósitos na conta de Fabrício feitos por outros funcionários do gabinete de Flávio e saques em dinheiro pelo policial. Esse tipo de ação é semelhante à prática ilegal de devolução de parte dos salários dos funcionários aos seus chefes parlamentares.

Se continuar em silêncio, Queiroz acabará fortalecendo os discursos da oposição que afirmam que ele é um laranja da família Bolsonaro e os adiamentos têm o objetivo de garantir a posse do senador, em fevereiro, sem constrangimentos. Seus familiares que recebiam da Alerj e fizeram depósitos em sua conta devem prestar depoimento no dia 8 de janeiro e outros funcionários do gabinete, que também faziam depósitos para ele, serão chamados ainda sem data marcada. O MP quer ouvir também o próprio Flávio no próximo dia 10.

Uma depósito feito por ele teve como beneficiária Michelle Bolsonaro, futura primeira-dama. Jair Bolsonaro afirmou que esses R$ 24 mil se referem a uma dívida pessoal que Fabrício, seu amigo de longa data, tinha com ele. Disse que pediu que a devolução fosse feita para a conta da futura primeira-dama porque ele não tinha tempo de ir ao banco. Flávio Bolsonaro declarou, por sua vez, que o ex-assessor relatou a ele uma "história bastante plausível" sobre o R$ 1,2 milhão, garantindo que as transações não são ilegais. O deputado estadual não deu detalhes sobre qual história é essa, mas disse manter a confiança no ex-funcionário.

O ex-juiz federal e futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública Sérgio Moro, questionado sobre o caso, primeiro se calou. Depois afirmou que "o senhor presidente eleito já esclareceu a parte que lhe cabe no episódio" e completou dizendo que "o ministro da Justiça não é uma pessoa para ficar interferindo em casos concretos".

Já o deputado federal e futuro ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni surtou em uma coletiva de imprensa, quando os repórteres insistiram em saber a origem do dinheiro. Primeiro usou o PT como muleta, depois teceu uma resposta quase filosófica sobre a busca da verdade e terminou atacando os repórteres antes de deixar a coletiva, perguntando quanto eles haviam recebido este mês.

Como já escrevi aqui antes, se políticos e seus auxiliares se dão por satisfeitos com as respostas dadas, tudo bem, direito deles. Mas parte significativa da população não aceita o vácuo de informação e acredita que Fabrício Queiroz deve dar respostas. Caso a origem do dinheiro movimentado pelo ex-assessor e amigo dos Bolsonaros não for devidamente esclarecida ou a se resposta for péssima, o governo vai confirmar que uma coisa é a transparência que prometeu como discurso de campanha. Já a outra, prazer, é a realidade.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.