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Há 12,2 milhões de razões para rejeição a Temer continuar alta

Leonardo Sakamoto

2028-12-20T18:11:35

28/12/2018 11h35

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O governo Michel Temer termina seu mandato com 62% dos entrevistados considerando seu governo ruim ou péssimo frente a 7% dos que o avaliam como ótimo ou bom, de acordo com pesquisa Datafolha. O número é menor que os 82% registrados em junho deste ano, um recorde negativo para a Nova República, que só foi alcançado graças ao impacto da greve dos caminhoneiros.

Para muita gente, isso é uma injustiça, uma vez que ele teria colocado o país nos trilhos do crescimento econômico, que havia sido posto para fora pelo governo Dilma Rousseff. O problema é que muitos trabalhadores perceberam que, por enquanto, esses trilhos têm bitola (largura) mais estreita que o vagão de carga em que estão, obrigando-os a empurrá-lo dia após dia.

De acordo com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, divulgados pelo IBGE nesta sexta (28), a taxa de desocupação chegou a 11,6% no trimestre encerrado em novembro, o que representa um recuo de 0,5% em relação ao trimestre anterior (junho a agosto) e 0,4% em comparação com o ano passado. A população desocupada chegou a 12,2 milhões. A queda, contudo, deve-se ao crescimento do trabalho informal e por conta própria, uma vez que postos com carteira de trabalho assinada ficaram estáveis.

Trabalhar na informalidade por opções, como sabemos, é ser um trapezista sem rede de segurança.

O setor empresarial infelizmente continua não gerando postos de trabalho com garantias de direitos em quantidade suficiente para reduzir o desemprego no país. Ao mesmo tempo, o trabalho por conta própria, como vendedor ambulante de comida ou motorista de aplicativos, vai crescendo. O que não é um indicador de economia em retomada, mas de que a população continua se virando para sobreviver.

O contingente de empregados no setor privado com carteira assinada (excluindo trabalhadoras domésticas) manteve estabilidade em relação ao trimestre anterior, com 33 milhões de pessoas. Os empregados no setor privado sem carteira assinada (11,7 milhões) atingiram, segundo o IBGE, o maior número desde o início da série histórica em 2012. Subiram 4,5% na comparação com o trimestre anterior (498 mil pessoas) e 4,7% (522 mil pessoas) em relação ao mesmo período de 2017.

O mesmo ocorreu com a categoria de trabalhadores por conta própria, que totaliza 23,8 milhões: aumentou 2,3% em relação ao trimestre anterior, acréscimo de 528 mil pessoas, e 3,3% (mais 771 mil) quanto ao mesmo período no ano passado.

Dados do IBGE, publicados pelo jornal Valor Econômico, em agosto, já mostravam que áreas como alimentação e transporte foram destino de muitos que perderam o emprego. Com isso, contam com mais trabalhadores do que no início da crise. Na comparação entre o segundo trimestre deste ano e o de 2014, o setor de "alimentação e alojamento" teve aumento de 1,1 milhão de pessoas (alta de 26%) e o de "transporte, armazenagem e correio", 409 mil (+9,6%). Some-se a isso outros também conhecidos pela informalidade, como o "serviço doméstico": aumento de 234 mil (+4%) e "outros serviços" (que inclui manicure, cabeleireiro, manutenção, entre outros), com uma alta de 607 mil (15%).

A explicação é que, com a crise, aumentou a procura por comida mais barata do que a servida em lanchonetes e restaurantes. A população desocupada tratou de se arrumar e correu para garantir oferta de alimentos mais baratos aonde havia demanda para tanto.

Enquanto a economia não der sinais resistentes de melhora e os empresários tiverem confiança para investir de fato, a geração de empregos com carteira assinada (postos de trabalho de melhor qualidade, maior renda e direitos garantidos) também vai continuar derrapando, principalmente na indústria e na construção civil.

Essa situação, ironicamente, tem sido usada como justificativa para avançar ainda no corte da proteção à saúde e segurança dos trabalhadores. Defende-se que uma nova redução da CLT iria agilizar contratações de mão de obra. Mas o que gera emprego é crescimento da economia e não a simples retirada de cláusulas que garantem qualidade de vida à força de trabalho sem uma ampla discussão entre empregadores, trabalhadores e governo.

Afinal, não é que o emprego formal não será viável se a crise persistir. O país como um todo é que não será viável.

Como já disse aqui, trabalhar para si mesmo pode ser uma benção quando é o resultado de um movimento empreendedor voluntário e não como uma forma de buscar sobrevivência diante da falta de oportunidades. Ou seja, quando a corda aperta no pescoço e o desespero aparece. É natural que o processo de retomada de empregos venha com a informalidade, até que os empresários possam contratar novamente. O problema é que isso tem persistido por um longo período de tempo, levando à precarização da força de trabalho.

Desde a campanha, o presidente eleito Jair Bolsonaro dirige-se a empresários e seus representantes no Congresso Nacional prometendo aprofundar a Reforma Trabalhista de Michel Temer. Afirmou, em reunião com a bancada do DEM no Congresso Nacional, no dia 12 de dezembro, que a lei trabalhista deve se aproximar da informalidade. O que é uma forma rápida de resolver a diferença da medição entre postos formais e informais…

Outro dado preocupante da pesquisa é que o número de pessoas que desistiram de procurar emprego por desalento continua estável em 4,7 milhões, em comparação ao trimestre passado. Esse contingente está fora da força de trabalho por não acreditar que exista oportunidade ou espaço para no mercado, não contar com experiência ou qualificação, ser considerado muito jovem ou muito idoso, não encontrar serviço no local de residência ou não ter conseguido trabalho adequado.

Com relação ao mesmo período de 2017, houve alta de 9,9% quanto ao número de desalentados. Já a taxa de desalento permaneceu a mesma (4,3%), em comparação ao semestre anterior, e aumentou em relação a 2017, quando era de 3,9%. 

"É horrível ser patrão no Brasil", afirmou Jair Bolsonaro em outra reunião, esta com a bancada do MDB, no dia 4 de dezembro. Ele reclamava da legislação, defendendo o aprofundamento da Reforma Trabalhista, que mudou mais de 120 itens da CLT no ano passado. Depois,em coletiva à imprensa, afirmou que "continua sendo muito difícil ser patrão no Brasil". E a culpa, segundo ele, é desse colchão mínimo de proteção à saúde e segurança da mão de obra.

Os números da PNAD Contínua, contudo, mostram que também tem sido horrível e muito difícil ser trabalhador ou pequeno empresário rural e urbano no Brasil. A comemoração pela melhora nos indicadores da economia é tão estridente na primeira classe que não se ouve os pedidos de ajuda que continuam chegando do tal vagão de carga. Pelo contrário, analisa-se retirar tudo o que não for essencial de lá para que o trem vá mais rápido.

Seria ótimo que as pessoas mais pobres aprendessem a comer indicadores. Talvez reclamassem menos.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.