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Leonardo Sakamoto

Problema do Semiárido não é falta de água, mas de gestão, diz pesquisador

Leonardo Sakamoto

28/12/2018 18h01

Cisterna instalada no Ceará. Foto: Marcelo Curia/Editora Globo

"Não dá para copiar iniciativas que deram certo em outros países. O Semiárido nordestino é muito diferente do território israelense ou do deserto de Nevada. O que precisamos copiar deles é o investimento que fazem em pesquisa. Eles encontraram boas soluções para seus próprios problemas porque investigaram. Temos que fazer o mesmo."

João Suassuna, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, é um dos maiores especialistas na questão hídrica nordestina. Crítico ao projeto da transposição do rio São Francisco por seu alto custo-benefício e alcance limitado, ele tem defendido que a solução passa por gerir de forma mais racional e planejada a água existente na própria região. Em entrevistas anteriores que me concedeu, defendeu que a prioridade deveria ter sido revitalizar o Velho Chico para garantir a saúde do rio, que garante água para milhões de pessoas, mas não anda bem.

Suassuna lembra que chove no Semiárido, o problema é o que o país faz ou deixa de fazer para armazenar e distribuir essa água, considerando que ela cai sem regularidade. Segundo ele, as 70 mil represas podem acumular 37 bilhões de metros cúbicos.

Mas também falta integração entre diferentes ações. O pesquisador vê o processo de dessalinização como complementar a outras formas mais baratas de obtenção de água. "Se as propriedade rurais têm condições naturais para a construção de açudes ou cisternas, que eles sejam prioritários", aponta. As cisternas, que captam e armazenam a água da chuva, já fazem parte da paisagem do Semiárido. A baixo custo, feitas com mão de obra local e apoio do poder público, têm garantido o abastecimento de água potável, mas também para criações, nos locais onde é instalada.

"Em propriedades que só dispõem de poços com águas salobras, por exemplo, são sugestivas o uso de dessalinizadores. Nesse sentido, a indicação da tecnologia a ser utilizada estará na dependência das características geoambientais de cada estabelecimento rural." Suassuna diz que não existe apenas um Semiárido, mas semiáridos dentro do Semiárido. E para cada um, há uma resposta diferente.

O Brasil já conta com programas de dessalinização desde 2004, como o Água Doce. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, são 484 obras concluídas, 48 em andamento e 700 contratadas. O pesquisador lembra que há programas que se mostraram economicamente inviáveis devido aos altos custos do material importado usado para filtrar. "Para o sucesso dos contatos do governo eleito com Israel visando à implantação de novos projetos, seria necessário o estabelecimento de critérios mais sensatos, voltados para a gestão e manutenção dos dessalinizadores, priorizando-se, sempre que possível, a aquisição de membranas fabricadas no Brasil, que são infinitamente mais baratas do que as importadas."

Para João Suassuna, "o Semiárido nordestino deve ser encarado pelos brasileiros como um desafio e nunca como um problema". Defende maneiras de contornar as dificuldades climáticas, priorizando culturas que se adaptam ao meio. Não brigando com o regime hídrico, mas sabendo lidar com ele. E buscando formas de fazer com que a água chegue a quem precise. Ou seja, distribuir – verbo que muita gente se nega a conjugar por aqui.

"Temos o maior volume de água represada em regiões semiáridas do mundo. Se tivermos uma política consistente de desenvolvimento, o Nordeste Semiárido não dependerá da ajuda do poder público a cada seca. O problema é que nunca tivemos uma política assim", completa.

Leia a entrevista dada a este blog:

Você defende que o problema do Nordeste não é a falta de água, mas sua má distribuição e armazenamento. Há dados que comprovem isso?

Os problemas hídricos do Nordeste seco estão restritos à falta de gestão do uso de suas águas – tanto as das represas, como as dos rios e as do subsolo. O Semiárido brasileiro possui cerca de 70 mil represas, que acumulam um potencial de cerca de 37 bilhões de metros cúbicos de água. Uma represa quando é construída gera um volume de regularização no rio que foi represado por sua barragem. Mas os usos das águas das represas não podem exceder os volumes por elas regularizados, sob pena de acabarem. A falta de obediência a esses critérios resultou em um verdadeiro desastre nas principais represas nordestinas no ano de 2017, cujas capacidades atingiram seus volumes mortos. Deixaram de garantir o abastecimento seguro das populações.

Pode citar um exemplo?

A represa de Boqueirão de Cabaceiras, que abastece Campina Grande e 18 municípios de seu entorno na Paraíba. Campina, com 450 mil habitantes, teve que se submeter a um longo racionamento de água. Outra questão preocupante é o uso das águas de subsolo dos principais aquíferos da bacia do rio São Francisco. O aquífero Urucuia é uma das mais importantes fontes hídricas dessa bacia. Contudo, as práticas do agronegócio na região do Matopiba [localizada nas fronteiras dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia], sobre o aquífero, com o uso de pivôs centrais na irrigação da soja, tem ocasionado a interrupção dos fluxos de base dos aquíferos em direção à calha do São Francisco, reduzindo, drasticamente sua vazão, e desorganizando, de forma significativa, o regime volumétrico do rio. No ano de 2017, por exemplo, a vazão afluente do rio na represa de Sobradinho foi reduzida a míseros 290 metros cúbicos por segundo.

O uso desordenado da água contribui com a escassez?

Seria importante para o novo governo se preocupar com a gestão das águas nordestinas, principalmente através do uso correto dos volumes das represas. Além disso, precisa observar os limites de usos das vazões regularizadas, bem como o uso coerente das águas de subsolo dos aquíferos, no sentido de não haver prejuízos aos fluxos de base – que são determinantes dos regimes volumétricos dos rios.

Alguns países, como Israel e Estados Unidos, conseguiram transformar regiões desérticas em grandes polos de agricultura, tecnologia e entretenimento? Não podemos reproduzir as boas ideias?

Não dá para comparar ou copiar iniciativas que deram certo em outros países. O Semiárido nordestino é muito diferente do território israelense ou do deserto de Nevada. Jerusalém tem uma latitude de 32° Norte. Neva lá e não existe o escudo cristalino. Setenta por cento da superfície do Semiárido nordestino são constituídos por geologia cristalina, cujas águas de subsolo são salobras, condição devida, em grande parte, ao contato das águas das chuvas com esse tipo de substrato. O que precisamos copiar deles é o investimento que fazem em pesquisa. Eles encontraram boas soluções para seus próprios problemas porque investigaram. Temos que fazer o mesmo.

Como avalia os projetos de dessalinização implementados no país desde 2004?

Após implantados, programas de dessalinização, além de apresentarem gestão deficiente, se mostraram economicamente inviáveis, devido à importação, com elevados custos do material filtrante (membranas), no processo de osmose reversa da referida tecnologia. Esses problemas resultaram em um número expressivo de equipamentos paralisados, em todo Nordeste. Nesse sentido, para o sucesso dos contatos do governo eleito com Israel visando à implantação de novos projetos de dessalinização, seria necessário o estabelecimento de critérios mais sensatos, voltados para a gestão e manutenção dos dessalinizadores, priorizando-se, sempre que possível, a aquisição de membranas fabricadas no Brasil, que são infinitamente mais baratas do que as importadas.

Dessalinizadores são uma solução definitiva? Eles substituem a construção de cisternas e açudes?

Existem Semiáridos dentro do Semiárido. A Embrapa fez uma pesquisa e identificou mais de meia centena de paisagens diferentes na região seca do Brasil. Portanto, diante dessa rica diversificação geoambiental existente no Nordeste, as soluções demandam diversificação. A indicação da tecnologia a ser utilizada depende das características geoambientais dos estabelecimentos rurais. Cisternas, açudes ou dessalinizadores são importantes e devem ser apoiados, em sua plenitude, para serem usados. Se as propriedade rurais têm condições naturais para a construção de açudes ou cisternas, que eles sejam prioritários. Em propriedades que só dispõem de poços com águas salobras, por exemplo, são sugestivas o uso de dessalinizadores, para tornar essas águas potáveis. Nesse sentido, a indicação da tecnologia a ser utilizada estará na dependência das características geoambientais de cada estabelecimento rural.É importante ressaltar, novamente, a necessidade de um programa de gestão adequado para o uso de cada uma dessas tecnologias. Afinal, é a falta de gestão hídrica o grande gargalo para alcançarmos o nosso tão almejado desenvolvimento no Semiárido.

É possível transformar o Semiárido?

O Semiárido nordestino deve ser encarado pelos brasileiros como um desafio e nunca como um problema. Há sempre uma maneira de contornar as dificuldades climáticas. Há muitas pesquisas e projetos que comprovam isso. Por exemplo, é possível desenvolver raças bovinas ou caprinas adaptadas à seca e que garantam a produção de carne e leite. A irrigação, embora só possa ser feita em cerca de 2% da região, é capaz de produzir grandes mudanças sociais, como na produção de frutas no vale do São Francisco. O abastecimento à população pode ser garantido por meio de represas, poços escavados e cisternas rurais. Nós utilizamos muito mal as águas dos nossos açudes. Temos o maior volume de água represada em regiões semiáridas do mundo, o problema é que 70% dessa água evapora antes de poder ser usada. Se tivermos uma política consistente de desenvolvimento, o Nordeste Semiárido não dependerá da ajuda do poder público a cada seca. O problema é que nunca tivemos uma política assim.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.