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Boicote do PT à posse presidencial é um presentão para Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

29/12/2018 11h36

Foto: Adriano Machado/Reuters

A decisão do PT, PSOL e PC do B de não irem à posse de Jair Bolsonaro como presidente da República, é, ao meu ver, uma bobagem.

Há muitas histórias que corroboram a importância do boicote como instrumento de pressão política e econômica visando forçar governos e empresas a respeitarem a democracia e os diretos humanos no Brasil e no mundo. Mas para funcionar, ele deve causar desconforto simbólico ou financeiro – o que não será o caso.

Pelo contrário, Jair Bolsonaro só ficaria mais feliz se essas decisões viessem embrulhadas em papel de presente. Pois ajudarão a manter vivo seu discurso de campanha, que tentou vender a esquerda e o PT como a origem de todo o mal.

Bolsonaro deve aproveitar a situação para devolver as acusações de que agia como "criança mimada" ao afirmar que não aceitaria resultado diferente de sua eleição, como na entrevista ao programa Brasil Urgente, da TV Bandeirantes, no dia 28 de setembro. Com o alardeado boicote, acusará esses partidos de negarem o resultado das eleições, por mais que o PT tenha ressaltado que reconhece a decisão das urnas.

Em sua nota, o PT reclamou da "lisura do processo eleitoral" citando o impeachment de Dilma, a proibição de Lula e a campanha de desinformação contra Haddad. E denunciou "as ameaças do futuro governo de destruir por completo a ordem democrática e o Estado de Direito". Contudo, a melhor forma para partidos políticos criticarem quem passa por cima de instituições são protestos e manifestações nas mesmas instituições. Caso contrário, corre-se o risco de uma parte da esquerda continuar cometendo o erro de falar com sua própria bolha, pensando que está alcançando o mundo.

Um boicote como esse funciona para animar as militâncias nas redes sociais e manter acesa a disputa eleitoral com o novo governo. Afinal, é uma via de mão dupla: se Bolsonaro continuar apontando o dedo para o PT como seu demônio de estimação, a ultrapolarização entre ambos pode se aprofundar – o que poderia ser útil para ambos, mas não para o povo. Ou o grosso da população pode se cansar dos dois, ainda mais se a economia continuar produzindo postos de trabalho precários ao invés de empregos com carteira assinada, como apontou o IBGE nesta sexta (28). No primeiro caso, não sobra espaço para Ciro e Cid Gomes se mexerem. Já no segundo, sim.

A presença desses partidos na posse não ajudaria a validar o discurso de Bolsonaro – o que já foi feito por 55% dos votos válidos. Por outro lado, suas ausências ajudam a reforçar o quadro de descrença nas instituições (e suas regras) como palcos das disputas da vida cotidiana – regras que foram sistematicamente desprezadas, sem sombra de dúvida, pelo próprio Bolsonaro, que já anunciou que baniria e fuzilaria adversários.

Mas alguém deveria agir como a pessoa madura da relação. Normalmente, isso seria esperado de quem lutou pela consolidação democrática e já governou o país.

Bobagens como essa não constroem bases para o diálogo democrático e para o enfrentamento nas arenas institucionais – coisa que precisaremos exercitar com afinco a partir de 2019. Pelo contrário, as esvaziam. Boicotar a posse não é o fim do mundo, mas uma bobagem desnecessária, considerando o tamanho das buchas de verdade que se enfileiram à frente na defesa da dignidade humana.

Em tempo: Passei os últimos anos recebendo ameaças por conta do meu trabalho como jornalista que cobre a área de direitos humanos e militando contra o trabalho escravo, chegando ao ponto de ser agredido fisicamente na rua mais de uma vez. Durante a campanha, fui abordado e recebi mais ameaças de morte, situação relatada à Procuradoria-Geral da República e às Nações Unidas. Tenho a certeza de que quem comete crime deve ser denunciado, processado e punido. Mas continuo acreditando que não há soluções contra o ódio e a intolerância difundidos na sociedade que não passem por muito diálogo e enfrentamento pela via do debate e da pressão via instituições. Achei que valia o comentário para o caso de alguém acusar que "é fácil defender o diálogo a partir do meu lugar de conforto".

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.