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Na posse, Bolsonaro elege a ideologia (dos outros) a inimiga de seu governo

Leonardo Sakamoto

01/01/2019 19h28

Bolsonaro abraça Temer na posse. Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress

Tendo como referência seus dois discursos de posse, no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto, nesta terça (1), o presidente Jair Bolsonaro confirmou que vê a "ideologia" como o grande problema e a inimiga do país. Apareceu com mais frequência que o desemprego ou o caos na saúde.

No primeiro, usou ideologia e suas variantes na mesma quantidade de vezes que a palavra "Deus" – com a diferença que, em dois momentos, o divino foi incluído não por mérito próprio, mas como parte do lema de campanha do novo presidente. Bolsonaro convocou os congressistas para libertar a pátria da "submissão ideológica". Disse que vai combater a "ideologia de gênero" e que o Brasil voltará a ser "um país livre de amarras ideológicas". E afirmou que vai desenvolver a economia permitindo abrir mercados para o comércio internacional "sem o viés ideológico".

No segundo discurso, a ideologia não foi menos presente – cinco vezes, contando suas variações. E, por ser voltado ao público que o prestigiava na praça dos Três Poderes, as falas foram mais incisivas. Um exemplo: "não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade. E convido a todos para iniciarmos um movimento nesse sentido".

Também disse que temos o desafio "da ideologização de nossas crianças", que é urgente acabar com "a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais" e que "vamos retirar o viés ideológico de nossas relações internacionais".

Ideologia é a concepção de mundo que se manifesta implicitamente na vida individual e coletiva. Todos, inclusive Bolsonaro, carregam sua ideologia e são guiados por ela. Mas quer fazer crer que não será "ideológico", influenciado pela presença de dogmas, doutrinas e paixões, mas  "pragmático" e, portanto, livre de tudo isso. Ou seja, ideológico é o outro.

O inimigo do novo presidente, portanto, não é a existência de uma ideologia, que ele abraça com gosto. Mas a ideologia que não seja a que ele defenda. Ou seja, um dos principais males do país continuará sendo a ultrapolarização que transforma o ódio e a intolerância em bom senso.

Nesse sentido, ele próprio se contradiz. Bolsonaro prometeu mudar a embaixada do Brasil, em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, clamada por israelenses e palestinos como sua capital. A promessa foi confirmada pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que veio à sua posse.

O ato em si é ideologia interferindo em nosso comércio internacional. Pois há uma boa probabilidade de retaliação dos países árabes às exportações de proteína animal – do total que exportamos, 40% da carne e 45% do frango levam o selo halal, produzido conforme preceitos islâmicos. Além de possibilidade de retaliação via atentados fundamentalistas no Brasil, importando para praias tupiniquins um mal do qual até agora o nosso país esteve livre. Sem falar de escanteamento do Brasil por parte da enorme maioria da comunidade internacional, incluindo países europeus, africanos, asiáticos e da América Latina. E da piora das condições de segurança e funcionamento das nossas embaixadas no Oriente Médio, inclusive a que seria em Jerusalém.

O que levaremos de positivo, em termos de interesses? Nada. Apoio para a dessalinização de água salobra do Semiárido com ajuda de Israel não vale tanto, considerando que já temos tecnologia para tanto. Mas estaremos perfeitamente alinhados à ideologia salvacionista de algumas linhas religiosas cristãs dos Estados Unidos, que foi importada para cá, e crê que o sucesso do projeto sionista de Grande Israel é uma condição prévia à Segunda Chegada de Cristo. Estaremos também alinhados à ideologia ultradireitista de Trump.

Discursos econômicos são craques em se afirmarem neutros quando, na verdade, não são, por exemplo. Em dizer que é lógico afirmar que o trabalhador tem que decidir se quer menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego, que é racional impor limites para o crescimento de gastos públicos em setores básicos como educação e saúde ou que é natural equiparar a idade mínima de aposentadoria de trabalhadores rurais pobres a trabalhadores urbanos.

Os discursos recheados com "ideologia" por Bolsonaro servem para manter acesa a militância, convocando para uma batalha contra um inimigo que não está listado entre as principais preocupações da população. Ideologia é um bom espantalho porque pode carregar a gênese de todas as tragédias e dores do país. "Ideologia de gênero", comunismo, direitos humanos funcionam para tanto por conta das campanhas de difamação nos últimos anos que fizeram com que muitos acreditassem na sandice de que o país estava para se tornar um país socialista.

O bom é que, quando estiver governando, ao ser questionado sobre políticas em áreas como previdência, tributos, segurança pública e saúde, pode acusar o espantalho de alguma coisa passada, presente ou futura. A tática é mais popular que o samba, o brega e o sertanejo universitário juntos e é reproduzida milhões de vezes por hora nas redes sociais de todo o país e, portanto, é facilmente entendida e absorvida.

Por fim, ao final do segundo discurso, ele destilou ideologia ao puxar uma bandeira nacional: "essa é a nossa bandeira, que jamais será vermelha. Só será vermelha se for preciso o nosso sangue para mantê-la verde e amarela". A imagem evocada não é a mais pacífica e apaziguadora. Ainda mais quando os "inimigos" internos foram nominados ao longo da campanha – e incluem de jornalistas a opositores.

Perde, em plena posse, mais uma chance de tentar arrefecer os ânimos do país. E contradiz a parte de seu discurso de que quer "unir o povo".

Após o período eleitoral mais violento desde a redemocratização, era de se esperar que ele sinalizasse ao lado derrotado e seus eleitores com o objetivo de reduzir a tensão e fizesse um pedido a todos os seus apoiadores e simpatizantes para que buscassem o diálogo como saída não apenas para a discordância política como também para qualquer diferença nos próximos quatro anos.

Como ele resgatou essa imagem, vale também lembrar que, em 21 de outubro, prometeu "uma limpeza nunca vista na história desse Brasil" após eleito. "Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil", afirmou. "Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria." Em suma, varrer, banir, prender ou exilar adversários.

Bolsonaro não se tornou presidente apenas dos 55% de votos válidos, mas dos outros 45% que escolheram Fernando Haddad, sem contar os votos brancos e nulos e aqueles que, cansados da política, abstiveram-se de votar. Não adianta se dizer defensor da Constituição e de liberdades. Tampouco afirmar que "não existem brasileiros do Sul ou do Norte", que "somos todos um só país".

Precisa, a partir de hoje, agir como chefe de Estado e não como alguém em guerra com parte do país. Isso sim seria uma atitude pragmática e não ideológica.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.