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Falta ao governo Bolsonaro um projeto de país, mas sobra reality show

Leonardo Sakamoto

08/01/2019 12h41

Os ministros Paulo Guedes e Onyx Lorenzoni tentam convencer que tá tudo bem. Foto: Divulgação/Casa Civil

Bolsonaro foi eleito empunhando várias bandeiras, mas sem um projeto claro de país. Esse vazio se reflete na bateção de cabeça de membros de seu governo, que tentam planejar o que fazer agora que chegaram ao poder. Não é apenas confusão comum de início de mandato ou incompetência comunicacional. O que estamos vendo é uma gravidez ectópica, que acontece fora do útero, gestando alguma coisa – que, para o bem dos brasileiros, espero que não nos devore ao final.

Sua campanha eleitoral apresentou uma antiproposta, prometendo que ia mudar tudo que está aí, tá ok? O candidato que se vendeu como antissistema preferiu apresentar-se como a pedra sobre a qual seria refundado o Brasil, pondo um fim ao ciclo da Nova República (R.I.P. 1985-2018), do que mostrar como faria isso. Questionado sobre o que defendia para a Reforma da Previdência ou para a Reforma Tributária, pedia para Paulo Guedes falar ou mandava ele se calar, de acordo com a conveniência.

Em outubro, afirmou que o objetivo de seu governo seria fazer "o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás". Dizer que vai construir um Brasil conservador em costumes e liberal na economia é vago.O que isso significa e qual o mapa que ele usará para chegar até lá? O discurso de que o sistema deve passar por um reset e recomeçar do zero não demonstra apenas deficiência de aprendizagem de História combinada com o uso acrítico de WhatsApp, mas é uma auto-sabotagem.

Na prática, isso significa exonerar servidores públicos de funções essenciais ou criar crises artificiais em atividades fundamentais só para depois perceber a besteira e pedir para que esses funcionários voltem (como foi no caso da pretensa "despetização" da Casa Civil) ou ir atrás dos médicos cubanos que ficaram pelo país a fim de se candidatarem às vagas que – veja que surpresa – não foram preenchidas por brasileiros no programa Mais Médicos, criticado pelo presidente.

Qual a visão do governo para a Reforma da Previdência? Enquanto a Casa de Guedes é a favor de uma proposta mais dura, mas que alivie as contas do governo, a Casa de Onyx quer uma proposta mais suave – mais factível de ser aprovada no Congresso Nacional. A esquizofrenia declaratória do presidente e de sua equipe quanto à idade mínima para aposentadoria é exemplo desse embate.

Qual a visão para a política externa brasileira? Os fanáticos da Fé dos Sete – desculpem, estou na expectativa da última temporada de Game os Thrones – defendem uma aliança cega com Donald Trump (incluindo convites para a instalação de bases militares), a mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém (colocando o Brasil no mapa do terrorismo para atender a uma visão messiânica) e veem comunistas brotando do chão. Já a Casa de Guedes e a Casa de Heleno evitam o fundamentalismo religioso, sabendo que a vida real não é um tabuleiro de War em que destrói-se os Exércitos Vermelhos. Pelo contrário, comercializa-se com eles.

Montar um governo não é apenas chamar jogadores e dizer que o objetivo deles é ganhar o campeonato. Imaginou-se que Bolsonaro gastaria os últimos dois meses de transição organizando como seu time jogaria, com a posição e a responsabilidade de cada um, alertando para sobreposições, falhas de marcação e buracos no campo. E que ele chamaria para si as broncas e a estratégia e garantiria que houvesse uma boa comunicação interna da equipe e que o time falasse aos telespectadores quando tivessem consenso sobre algo.

"O desconhecimento meu [de economia], como o dos senhores em muitas áreas, e a aceitação disso é um sinal de humildade. Tenho certeza, sem qualquer demérito, que eu conheço um pouco mais de política que Paulo Guedes, e ele conhece muito mais de economia do que eu", afirmou o presidente nesta segunda (7).

Seria bom que ele entendesse de administração econômica, mas não é disso que está sendo cobrado, mas de ser capaz de organizar os diferentes grupos que fazem parte de sua gestão visando o cumprimento de um programa – seja ele qual for. Se ele não garantir isso e o governo virar um saco de gatos, não me admiraria que começassem a vazar para a imprensa histórias comprometedoras envolvendo seus líderes por parte daqueles que, à luz do sol, chamam de aliados.

Ao mesmo tempo, entender sua visão de país para 2022 para além do banimento do Kit Gay, da Mamadeira de Piroca, da Mulher de Branco, do Saci Pererê e do Boto seria útil para o trabalho de sua própria equipe.

Parte dos eleitores só votaram nele por desilusão. Foi uma aposta. E esse tipo de eleitor pode perder a paciência logo, especialmente a nova classe C, a periferia urbana, se o emprego não aparecer. Afinal, se for para assistir a um reality show, eles podem ligar a TV, não precisam de governo.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e o desrespeito aos direitos humanos no Brasil. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil e conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão.