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Bolsonaro deveria anunciar, em Davos, que mudança de embaixada era zoeira

Leonardo Sakamoto

21/01/2019 23h38

Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Ernesto Araújo e Sérgio Moro no Aerolula. Reprodução/Twitter

O presidente Jair Bolsonaro tem uma fixação pela palavra "ideologia" e suas variações quando o assunto são relações internacionais. Nem bem tocou o solo suíço, para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, e disse aos jornalistas que "o Brasil está tomando medidas para que mundo restabeleça confiança em nós e os negócios voltem a florescer entre o Brasil e o mundo sem o viés ideológico".

(O liberalismo que escorre pelos corredores e auditórios de Davos é ideológico também. Só não percebe quem está nela imerso.)

Mas a fixação talvez seja uma manifestação inconsciente de culpa, uma vez que seu governo tem sido reconhecido por discursos e medidas permeados de arroubos ideológicos extremados nessa área – o que, na prática, coloca em risco os interesses do país.

É fato que todo novo governo que assume no Brasil já chega dizendo que o anterior fazia política de governo, e que o atual, sim, fará política de Estado. E que todos os governos têm alguma orientação ideológica. E que essa orientação acaba determinando, em boa medida, o que esses governos percebem como sendo os interesses do país. Mas tentemos imaginar que o que o Bolsonaro quer dizer quando repete incessantemente que quer um país "livre das amarras ideológicas" é que buscará implementar uma política externa mais pragmática, reforçando relações na base de interesses econômicos e comerciais, não importando a orientação política ou ideológica dos governos em questão.

Seria ótimo, então, que ele aproveitasse sua presença em Davos e declarasse aos líderes políticos e econômicos globais que desistiu da ideia de mudar a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, clamada por israelenses e palestinos como sua capital. Pois, se isso acontecer, como foi prometido ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, há probabilidade de retaliação dos países árabes às nossas exportações de proteína animal. Do total que vendemos para fora, 40% da carne e 45% do frango levam o selo halal, produzido conforme preceitos islâmicos. Isso sem contar uma grande chance de retaliação via atentados fundamentalistas contra alvos do Brasil, um mal do qual até agora o nosso país esteve livre.

A mudança mostrará, como já disse aqui, que ele está perfeitamente alinhado à ideologia salvacionista de algumas linhas religiosas cristãs dos Estados Unidos, importada para nosso território, e crê que o sucesso do projeto sionista de Grande Israel é uma condição prévia à Segunda Chegada de Cristo. Estaremos também alinhados à ideologia ultradireitista de Trump.

E por falar nele, seria também um bom momento para Bolsonaro afirmar que não interessa um alinhamento com o governo Donald Trump. Qualquer um que não tenha se isolado em Marte nos últimos anos sabe que o lema "America First" não inclui concessões a líderes amigos. E que ele tem advogado a revisão de acordos, em postura de negociação dura e mercantilista, querendo que os EUA exportem mais e importem menos. E ele, sim, vê acordos como uma questão de interesses imediatos norte-americanos, não de alianças. Qualquer um pode ver também que nossa balança comercial já é altamente deficitária com os EUA (eles tiveram superávit de US$ 90 bilhões nos últimos dez anos), e que Trump, buscando reduzir seu déficit comercial global, espertamente arregalou o olho para a oportunidade.

Pode-se imaginar que uma eventual negociação bilateral Brasil-EUA teria tudo para ser um massacre, não uma negociação, com condições completamente desfavoráveis, e uma tentativa de empurrar algo prejudicial em prol de uma suposta amizade e alinhamento ideológico Trump-Bolsonaro-Steve Bannon (estrategista de comunicação do norte-americano, que fez parte de seu governo). Perderíamos indústria, produção e empregos, e não ganharíamos mercados para compensar.

Bannon, que jantou, na última sexta (18), Olavo de Carvalho, considerado uma das influências do presidente brasileiro. O estrategista, que tem atuado pelo crescimento da extrema direita pelo mundo, demonstrou desconforto na ocasião com as posições de nosso ministro da Economia. Para ele, Paulo Guedes poderia atrapalhar o avanço de uma agenda nacionalista, de acordo com registro de Beatriz Bulla, para o jornal O Estado de S.Paulo.

Outro elemento recheado de ideologia é o chanceler Ernesto Araújo, que recentemente retirou o país do Pacto Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regular, alegando ofensa à soberania. O pacto, como bem disse o ex-chanceler Aloysio Nunes, é um mero acordo-quadro (jargão técnico para um acordo sem extenso conteúdo concreto, que estabelece uma estrutura para acordos futuros). Não cria, portanto, nenhuma nova obrigação aos países de receber migrantes que não queiram, e não fere a soberania de ninguém.

O Brasil não tem uma questão migratória relevante, nem recebe contingentes capazes de provocar um debate sobre a mudança na identidade da nação, como está ocorrendo na Europa. Pelo contrário: temos muito mais brasileiros morando fora do que estrangeiros no país. Não teria nada a perder, já que o acordo – repito – não cria novas obrigações de receber migrantes. Perde ao sair do pacto o respeito de seus pares, o que pode influenciar, inclusive, no relacionamento diplomático e comercial. Ernesto falou na "vontade soberana do povo brasileiro", mas o que fez ao sair do Pacto foi associar-se a uma pauta da extrema direita europeia.

Será ótimo se o presidente, apesar de ser um político ideológico, defender os interesses econômicos dos brasileiros e não rifar nosso comércio exterior em prol de uma agenda irrelevante para a nossa qualidade de vida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.