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Bolsonaro fala em possível "erro" do filho, mas termo correto seria "crime"

Leonardo Sakamoto

23/01/2019 15h28

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

"Se por acaso ele errou, e isso for provado, eu lamento como pai, mas ele terá que pagar o preço por essas ações que não podemos aceitar."

O jeito com que Jair Bolsonaro falou de Flávio Bolsonaro parece a de um pai reclamando que seu filho mais velho serviu chope sem colarinho, queimou as panquecas do café da manhã, saiu para correr num dia frio sem fazer aquecimento. Ou roubou no Banco Imobiliário.

Mas a declaração dada à agência de notícias Bloomberg, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, foi a de um presidente da República sobre um senador eleito que deveria assumir parte da articulação de seu governo no Congresso Nacional, mas está mergulhado em uma crise de grandes proporções com suspeita de desvio de recursos públicos.

Nesse sentido, a palavra "erro" é muito benevolente e compreensiva para tratar de "movimentações atípicas" no valor de milhões de reais, compras e vendas de imóveis que podem ter sido usadas para encobrir a origem da renda, dezenas de depósitos estranhos em caixas eletrônicos, indícios de recolhimento de parte dos salários dos cargos de confiança na Assembleia Legislativa e no Congresso Nacional usando laranja e até contratação de familiares de um miliciano para trabalharem em seu gabinete – miliciano tão poderoso que pode não ter ordenado, mas deve saber quem planejou e executou Marielle Franco e Anderson Gomes.

Considerando que Flávio envolveu até o Supremo Tribunal Federal para conseguir adiar suas explicações e as convocações de seu ex-assessor e faz-tudo Fabrício Queiroz ao Ministério Público do Rio de Janeiro, definitivamente não é "erro" o termo correto. Advogados com os quais o blog conversou afirmaram que devido à extensão da evidências, apesar da persistência em encobrir a situação, as investigações podem apontar "peculato", "lavagem de dinheiro" e "formação de quadrilha". Ou seja, crimes.

A oposição ao governo acusa Fabrício Queiroz de ser um laranja usado pela família Bolsonaro para repassar parte dos salários recebidos por funcionários de seus mandatos. Há coincidências entre datas de pagamentos pela Assembleia Legislativa do Rio, depósitos na conta de Queiroz feitos por outros funcionários do gabinete de Flávio e saques em dinheiro pelo ex-assessor. Desde o início da polêmica, Queiroz e Flávio preferiram dar entrevistas a TVs ao invés de falar com o MP. O primeiro diz que "faz dinheiro" com a compra e venda de veículos, o segundo se justifica por sua atividade como empresário.

O caso respingou no governo Bolsonaro e segue nas manchetes dos noticiários à espera de uma "explicação plausível" por parte de Queiroz e de Flávio, que tem alegado perseguição por parte do MP e da imprensa.

O "erro" da história, portanto, não foi de Flávio, mas – ironicamente – do presidente da República. Foi ele quem trouxe os filhos para dentro de sua campanha e, agora, de sua administração, como eminências pardas. Portanto, também é responsável pelo que cada um deles fizer.

Sem contar que ainda está mal explicada a história do empréstimo de R$ 40 mil feitos por Jair Bolsonaro a Fabrício Queiroz e a devolução de R$ 24 mil desse total na conta de sua esposa Michele Bolsonaro. Como alguém que movimentou milhões, de acordo com o Coaf, precisa de um empréstimo desse porte?

Como já disse, o ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro conta com larga experiência em investigações, denúncias e julgamentos de "movimentações atípicas". Escreveu livros, deu palestras, formou quadros públicos e ficou conhecido por explicar como certas transações são indícios de corrupção e lavagem. Seria importante que cobrasse que o caso fosse resolvido rapidamente, com depoimentos de Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro ao Ministério Público.

No Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, Moro disse que não caberia a ele comentar sobre isso, "mas as instituições estão funcionando". Esse é nosso receio.

 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.