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Ao chamar Flávio de "garoto", Jair reduz responsabilidade do senador eleito

Leonardo Sakamoto

2024-01-20T19:10:46

24/01/2019 10h46

Flávio e Jair Bolsonaro. Foto : Adriano Machado/Reuters

"Não é justo atingir um garoto, fazer o que estão fazendo com ele, para tentar me atingir." Não é a defesa do filho Flávio, feita em conversa com a TV Record, nesta quarta (24), após cancelar entrevista coletiva, em Davos, na Suíça, que chama a atenção na frase. Mas como Jair Bolsonaro se refere ao deputado estadual e senador eleito pelo Rio de Janeiro.

Durante a campanha eleitoral do ano passado, após a repercussão da declaração do deputado federal Eduardo Bolsonaro (de que para fechar o Supremo Tribunal Federal bastaria um cabo e um soldado), Jair usou o mesmo expediente: "Eu já adverti o garoto, o meu filho, a responsabilidade é dele. Ele já se desculpou".

Não é novidade que chame os três filhos políticos de "garotos" e não há problema algum que faça isso em sua esfera pessoal. Mas quando os qualifica assim diante de comportamentos questionáveis que tiveram por conta de sua atuação na esfera pública, Bolsonaro parece esquecer que são adultos eleitos para funções públicas e que devem agir com o decoro esperado. Ao usar uma tribuna pública para chamar o deputado estadual e senador eleito de "garoto" faz exatamente o oposto daquilo que seu governo tenta fazer, que é deixar os problemas do filho longe do Palácio do Planalto.

Toda família de um presidente da República é politicamente exposta. Os filhos de Fernando Henrique e de Michel Temer e, principalmente, os de Lula estiveram sob intensos holofotes, portanto Bolsonaro não pode reclamar de perseguição. E, sim, a sociedade demanda que a "primeira família" tenha um comportamento exemplar. O que não é novidade e faz parte da liturgia do cargo. Deve, portanto, ter na transparência um princípio.

Transparência que tem faltado no caso. Desde o início, Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz preferiram dar entrevistas a TVs ao invés de falar com o Ministério Público do Rio de Janeiro. O filho de Bolsonaro envolveu até o Supremo Tribunal Federal para conseguir adiar suas explicações e as convocações de seu ex-assessor e faz-tudo.

Politicamente, Flávio não é um garoto. Mas um político experiente. A oposição ao governo acusa Queiroz de ser um laranja usado pela família Bolsonaro para repassar parte dos salários recebidos por funcionários de seus mandatos. Há coincidências entre datas de pagamentos pela Assembleia Legislativa do Rio, depósitos na conta de Queiroz feitos por outros funcionários do gabinete de Flávio e saques em dinheiro pelo ex-assessor. Flávio não conseguiu fornecer uma "explicação plausível" pelas compras e vendas de imóveis e dezenas de depósitos estranhos em caixas eletrônicos. Nesta terça, os eleitores descobriram que a esposa e a mãe de um miliciano poderoso trabalhavam no gabinete do deputado – miliciano que pode não ter ordenado, mas pode saber quem planejou e executou Marielle Franco e Anderson Gomes. Bolsonaro defendeu, há anos, a atividade de milícias.

Antes, no mesmo Fórum Econômico Mundial, Bolsonaro havia dito à agência Bloomberg que "se por acaso ele errou, e isso for provado, eu lamento como pai, mas ele terá que pagar o preço por essas ações que não podemos aceitar". A palavra "erro" foi muito compreensiva para tratar de todo o caso, mas era uma oitava acima do depoimento dado à Record. Nele, o presidente mudou o tom, chamando de "infundadas" as acusações. "Fizeram uma arbitrariedade contra ele."

O fato é que jornalistas estão fazendo o seu papel de investigar, reportar, analisar – papel que foi muito útil a Jair Bolsonaro quando o alvo do escrutínio é Lula e família. Os dados divulgados pelo Coaf e os documentos e depoimentos obtidos durante reportagens não criam um cenário de fantasia, mas ajudam a revelar o comportamento de um parlamentar com capacidade de influenciar diretamente o presidente. Ninguém está "fazendo" nada contra Flávio, tudo o que foi descoberto é resultado das decisões do deputado. E o impacto das descobertas seria muito menor se Jair não tivesse transformado seus "garotos" em um conselho informal no centro de poder da República. Pois se Flávio é um "garoto", quem é o "adulto responsável" pelo o que ele faz?

A diferença entre garotos e garotas e adultos é que o segundo grupo sabe que deve responder pelos próprios erros e crimes sem ninguém passando a mão. Enquanto o primeiro culpa quem for preciso para fugir da responsabilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.