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Muitos não irão enterrar seus mortos porque a barragem da Vale já fez isso

Leonardo Sakamoto

29/01/2019 20h10

Foto: Giazi Cavalcante/Código 19/Estadão Conteúdo

Parte das vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho pode nunca ser encontrada, soterrada sob milhares de toneladas de rejeitos. Entre bombeiros e socorristas, já é consenso que a chance de localizar desaparecidos com vida é quase nula quatro dias após o desastre. E apesar das buscas ainda poderem durar semanas, nem todos os corpos serão recuperados.

"Algumas pessoas, triste e lamentavelmente, não serão recuperadas. Tem uma questão de respeito e solidariedade a todas as famílias que viverão um luto sem necessariamente o seu ente querido", reconheceu o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Para as famílias das vítimas, aquela sexta, 25 de janeiro, não irá terminar – especialmente para aquelas que manterão um fio de esperança pelo resto da vida diante da ausência de um corpo para velar. Para o restante da sociedade, Brumadinho se tornará apenas uma lembrança, mais ou menos doída, substituída como prioridade por outro problema nacional, pelas dificuldades do dia a dia, pelo Carnaval.

As experiências não só do desastre de Mariana como de todos os outros mostram que, enquanto o assunto permanece nas manchetes da mídia, o poder público e as empresas demonstram interesse em exibir serviço, fazendo todas as promessas do mundo. Longe das câmeras e gravadores dos repórteres, a boa vontade começa a dar lugar aos "veja bem" nos corredores palacianos – onde a palavra empenhada tem pouco valor diante dos interesses econômicos envolvidos.

Foi assim em todos os governos desde a redemocratização. Na ditadura militar, não. Porque, naquela época, suicidava-se o jornalista curioso, a sindicalista intrometida, o padre que se metia a besta, o ativista na hora e no lugar errados.

Ao mesmo tempo, a preocupação corporativa dá lugar a intermináveis disputas judiciais pelas quais a empresa empurra com a barriga sua responsabilidade em mitigar o impacto ambiental e social e ressarcir, minimamente, a tragédia humana. Ainda mais com a ajudinha da Reforma Trabalhista, como já disse aqui, que limitou em 50 salários contratuais o teto da indenização por danos morais aos trabalhadores envolvidos em "acidentes" como esse e a suas famílias, como afirma o procurador-geral do Ministério Público do Trabalho, Ronaldo Fleury. Quem ganha menos, vale menos. Literalmente.

A tragédia de Brumadinho, indiretamente, pode até dificultar o desmonte na fiscalização ambiental. Afinal, o presidente da República provou, ao longo da campanha eleitoral, que via apenas um talonário de multa "com viés ideológico" quando olhava para fiscais ambientais e do trabalho – e não servidores sem os quais, barragens matam. O governo promete, agora, que vai reforçar licenciamento e fiscalização – sem dizer direito quando, como, nem onde.

Já cobri desastres demais para sair do estado de ceticismo. Pouco mudou após Mariana, a maior catástrofe ambiental mundial envolvendo barragens. E não temos elementos suficientes para acreditar que algo diferente irá acontecer diante do maior "acidente" de trabalho da história do país, em Brumadinho, apesar das medidas anunciadas. Só quando as barragens forem completamente descomissionadas e reforçadas e quando as mineradoras mudarem seu método de extração de minério de ferro, a seco.

Independentemente das inspeções e medidas emergenciais anunciadas pelos governo federal e estadual e das novas promessas da Vale, que devem gerar algum vídeo de campanha emocionante na internet muito em breve, sabemos que o cronômetro já está em contagem regressiva para o próximo desastre. Pois até que alguma ação seja colocada em prática e as bombas-relógio, desativadas, há trabalhadores e moradores esperando para morrer em diversos pontos do país. Eles apenas não sabem disso.

No período de chuvas nas periferias de grandes cidades, quando deslizamentos de terra atingem comunidades, soterrando casas e biografias, ouvimos as mesmas desculpas dos administradores públicos responsáveis: de que as evitáveis mortes eram inevitáveis. Sobre a execução de políticas decentes de habitação, saneamento, contenção de encostas, dragagem de rios, limpeza de vias e fiscalização, promessas e mais promessas. Que vão desidratando nos meses secos.

Mariana e Brumadinho não são uma doença, mas uma febre, ou seja, um sintoma de que algo está errado. A doença passa por nosso modelo de desenvolvimento – que atropela tudo em nome de um crescimento econômico que beneficia alguns em detrimento ao sofrimentos de outros tantos. Um desenvolvimento concentrador e excludente, que privilegia apenas uma camada da população. Lucros advindos da implantação de grandes empreendimentos extrativistas, agropecuários e industriais são privatizados. O prejuízo social e ambiental, por outro lado, é socializado.

Muita coisa mudou do momento em que os militares deixaram o poder até eles voltarem ao poder. Mas mantivemos modelos de desenvolvimento que dariam orgulho aos maiores planejadores do período pré-1985, que acreditavam que, para crescer rapidamente e atingir um ideal de nação, valia qualquer coisa. Para produzir e, assim, exportar, gerar divisas, cobrar impostos, pagar juros de empréstimos, e assim poder contrair mais empréstimos e investir na produção a fim de exportar. Não sem antes destruir outro lugar e outra comunidade. Que pode ser indígena, mas também ribeirinha, quilombola, caiçara ou de moradores pobres.

E já que estamos falando de barragens, vamos lembrar das hidrelétricas. As usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio, que foram as meninas dos olhos de Dilma Rousseff, encobrem uma tragédia social, ambiental, trabalhista que não aconteceu de uma hora para outra, mas desenrolou-se, lentamente, diante dos nossos olhos. Nós, que alertamos dos problemas, éramos xingados por parte dos progressistas e de conservadores, sem distinção, de entreguistas. Também são tragédias, mas quando acontecem aos poucos parecem se tornar aceitáveis pelo país.

Não sou maluco de defender o fechamento de setores importantes da economia. Sei que essa é a estrutura que temos e vamos ter que trabalhar com ela, quer gostemos ou não, para evitar mais desemprego e problemas sociais. Mas já passou da hora de nosso capitalismo seguir as regras para a proteção da saúde e da segurança de trabalhadores, do meio ambiente, de comunidades tradicionais. E, o mais importante, que respeite a vida das pessoas. Responsabilidade social empresarial não é patrocinar parques ou doar cestas básicas, mas é impedir que o seu negócio foda a vida das pessoas.

O que começaria por fazer planejamentos emergenciais, evitando colocar um refeitório e uma sede administrativa no caminho de uma possível tragédia.

Dessa forma, talvez não teríamos famílias que nunca poderão enterrar seu pai ou mãe, filho ou filha, marido ou esposa porque a onda de lama da barragem da Vale já fez isso por elas.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.