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Para presidente do PSL, política "não é muito da mulher", mas é da laranja

Leonardo Sakamoto

11/02/2019 05h25

Jair Bolsonaro e Luciano Bivar, presidente do PSL. Foto: Divulgação

"Você tem que ir pela vocação, tá certo? Tem que ir pela vocação. Se os homens preferem mais política do que a mulher, tá certo, paciência, é a vocação. Se você fizer uma eleição para bailarinos e colocar uma cota de 50% para homens, você ia perder belíssimas bailarinas, porque a vocação da mulher para bailarina é muito maior do que a de homem. Tem que ser aberto."

"Eu não sei na sua casa, se sua mãe gosta tanto de política quanto seu pai. Você tem que gostar porque é jornalista política. Mas se alguém fosse candidato na sua casa, estou aqui fazendo uma ilação, certamente seu pai seria candidato e sua mãe não seria. Ela tem outras preferências. Ela prefere ver o Jornal Nacional e criticar, do que entrar na vida partidária. Não é muito da mulher."

As declarações acima, que parecem saídas de uma caricatura machista em uma esquete do Porta dos Fundos ou do Zorra, são de Luciano Bivar, presidente do PSL, partido de Jair Bolsonaro.

O deputado federal exibiu uma misoginia tradicional, daquelas curtidas no barril de chorume, ao ser entrevistado por Camila Mattoso, da Folha de S.Paulo, sobre uma candidatura laranja do partido. Maria de Loudes Paixão, secretária no PSL, recebeu R$ 400 mil de dinheiro público da direção nacional, poucos dias antes do pleito. Teve 274 votos e teria gasto R$ 380 mil em uma única gráfica, que se enrolou para demonstrar a execução do serviço. Só duas pessoas tiveram mais recursos do PSL Nacional do que Maria. A investigação principal também é assinada por Ranier Bragon e por Joana Suarez, neste domingo (10).

Das acusações contra as "movimentações atípicas" de Fabrício Queiroz e sua relação com o ex-patrão, o senador Flávio Bolsonaro, passando pela revelação sobre o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que teria usado laranjas para desviar recursos na campanha, até o caso que envolve o grupo de Bivar e os R$ 400 mil, o PSL parece gostar de cultivar laranjas. Se tudo der errado, pode exportar suco.  

Partidos políticos são clubinhos de homens

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, dos 513 deputados federais eleitos em outubro de 2018, 77 eram mulheres. Esses 15% não chegam nem perto dos 51,7% de mulheres na sociedade brasileira – de acordo com a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua de 2017.

Bivar afirmou que é contrário à regra que obriga partidos a destinarem 30% dos recursos do fundo eleitoral – além da mesma proporção em tempo de rádio e TV – à candidaturas de mulheres. 

O Supremo Tribunal Federal derterminou, no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 5617, que serve de referência para a questão, que 30% era piso e não teto. Depois, o TSE reafirmou isso, explicando que, caso o número de mulheres ultrapasse esse piso, os recursos devem aumentar na mesma proporção. A Lei das Eleições (9.504/1997) obriga a cota mínima de gênero.

Pode parecer bobagem de tão lógico, mas o sistema partidário brasileiro funciona como um "Clube do Bolinha". E não é por desinteresse ou falta de vocação e de aptidão da parte delas, mas devido a um machismo estrutural criado e mantido por nós, homens, que garante que as coisas não mudem ou mudem muito lentamente.

Aumentar a participação de mulheres no Congresso Nacional significa diminuir a de homens. E isso tem gerado obstáculos a candidatas, principalmente na política local. Líderes partidários, na sua maioria, homens, chegam ao ponto de atuar para que mulheres conhecidas participem do pleito, para angariar votos a outras candidaturas, mas não tenham tanta exposição para não prejudicá-los.

O número de mulheres, mas também de negros, indígenas, população LGBT e trabalhadores no Congresso Nacional é muito inferior do que sua representação na sociedade. E isso tem impacto direto na formulação de políticas públicas e na defesa de determinados direitos.

É impossível que uma Câmara composta de homens, brancos, héteros, empresários, por mais boa vontade que tenha (e boa parte não tem) possa entender a realidade de outros grupos historicamente excluídos de sua cidadania e falar por eles. Um homem pode representar determinados interesses de uma mulher no Congresso Nacional ou nas Assembleias? Ele consegue, quiçá, entender todos eles? Há aspectos que dizem respeito à saúde e à dignidade delas que, nós homens, não temos legitimidade para discutir e decidir.

As estruturas partidárias são autoritárias e pouco democráticas, com regras internas que mudam ao sabor do vento, favorecendo quem está em seu controle. Isso faz com que se pareçam mais com feudos do que com instâncias de debate e construção coletiva. Claramente, se o controle externo cair, o número de candidaturas mulheres será ainda menor.

Homens, vida pública, mulheres, vida privada?

De acordo com o IBGE, somando-se as horas dedicadas às atividades no domicílio e à ocupação remunerada, as mulheres trabalhavam mais tempo do que os homens, com uma carga horária média que ultrapassou 54 horas semanais em 2016. Os homens trabalharam, em média, 51,5 horas semanais.

Trabalho doméstico ainda não é considerado trabalho para muita gente, mas sim obrigação, muitas vezes relacionada a um gênero (e, não raro, também a uma cor de pele) que tem o dever de cuidar da casa. Dever este que não está no código genético da humanidade, mas foi construído e imposto. E, transformado em tradição e cultura, é abraçado e dificilmente discutido. Da mesma forma, não há nada escrito em nosso DNA que o espaço público deve ser preenchido por homens e o espaço privado, por mulheres.

O fato de termos tido uma mulher na Presidência da República e outras duas na Presidência do Supremo Tribunal Federal pode ser simbolicamente relevante, mas é social e politicamente insuficiente, não servindo para justificar a ocorrência de nenhuma mudança estrutural. São poucas as governadoras, prefeitas, senadoras, deputadas, vereadoras. Mas também CEOs, executivas, gerentes, síndicas de condomínios. Segundo o IBGE, as mulheres continuam com menos acesso a cargos gerenciais do que os homens. No Brasil, em 2016, 62,2% dos cargos gerenciais, tanto no poder público quanto na iniciativa privada, eram ocupados por homens e 37,8% por mulheres.

Falta criar condições não apenas para que elas cheguem lá mas, chegando, sejam tratadas com o mesmo respeito que nós, homens. O que inclui a previsão dos direitos reprodutivos. Mas também uma mudança de mentalidade dentro de nossas próprias casas e de nossas vidas. Não se "ajuda" as mulheres em trabalhos domésticos, mas "compartilham-se" responsabilidades iguais a fim de que todos tenham tempo para participar da vida pública.

"Ajuda" é o que nós, homens, deveríamos estar prestando para que outros homens refletissem sobre o nosso papel na manutenção dessa desigualdade, que dificulta o equilíbrio de gênero na representatividade política, e mudem de comportamento.

A política "não é muito da mulher. Eu não sou psicólogo, não. Mas eu sei isso", disse Bivar.

Se bem que alguns casos já estão perdidos.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.