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Mais quatro crianças mortas: o país sucumbe com descaso em forma de lama

Leonardo Sakamoto

2017-02-20T19:17:00

17/02/2019 17h00

Imagem: Divulgação/Corpo de Bombeiros de São Paulo

"Todo ano desliza. Moro aqui há 16 anos e sempre foi assim." A frase é de Antonio Paulo de Souza, que perdeu a casa e a maior parte dos pertences em um deslizamento ocorrido no morro do Macuco, em Mauá, Grande São Paulo, e foi registrada pelo UOL. As duas netas sobreviveram porque um guarda-roupa escorou a parede do quarto onde estavam. Mesmo sorte não teve uma mulher de 34 anos e seu filho de 11, que morreram soterrados com o deslizamento.

O relato acima é de janeiro de 2011.

Quatro crianças morreram com o deslizamento de terra e o desabamento dos imóveis em que estavam após chuvas que atingiram Mauá. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros, um menino de oito anos e um bebê de 12 meses foram encontrados mortos no Jardim Zaíra. Sua mãe, Talita dos Santos Silva, foi socorrida pelos vizinhos. No mesmo bairro, uma menina de 11 anos e um menino de quatro também morreram pelo mesmo motivo. A mãe foi resgatada pelo Samu, com ferimentos.

Já este segundo é deste final de semana.

Oito anos separam os dois. E, como bem disse Antônio, deslizamentos e desabamentos já fazem parte da rotina dos moradores de Mauá há um bom tempo. Sob nenhuma circunstância é possível defender que o poder público não tinha conhecimento do que acontece.

Como já disse aqui várias vezes, não há desastres naturais. As mortes causadas por tempestades e inundações são, na maioria das vezes, possíveis de serem previstas, prevenidas ou reduzidas. Providências que não incluem apenas sistemas de alerta decentes, mas também a execução de políticas de habitação, saneamento, contenção de encostas, dragagem de rios, limpeza de vias. Ou seja, presença do poder público municipal, estadual e federal.

Há incompetência ou a falta de vontade sobre eventos que ficarão mais extremos com o passar do tempo, considerando que ajudamos enlouquecer o clima do planeta. Isso tem o mesmo DNA das sete mortes causadas pela incompetência e o descaso das diferentes esferas do poder público diante das fortes chuvas que caíram, na noite no dia 6, no Rio de Janeiro.

Crianças vão continuar morrendo com as chuvas em Mauá, e outros locais da Grande São Paulo e do país. Mas a culpa não é das chuvas. Da mesma forma que as mortes de crianças em grandes períodos de seca no Semiárido nordestino não é culpa da seca. Porque já temos os meios necessários para evitar que mortes estúpidas como essas aconteçam.

Sofrimento poderia ser evitado com a execução de políticas públicas de habitação e saneamento. Não adianta apontar que residências estão precárias ou tentar desocupar áreas de risco sem oferecer alternativas de moradia, pois só quem já ficou sem teto sabe o quanto isso dói. Ao invés disso, realizamos pesados investimentos na tática do "expulsar para resolver", a velha e boa limpeza social, já adotada em larga escala seja em regiões de interesse da especulação imobiliária, como a comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), seja em ações violentas sob justificativa de combater o uso de drogas, como no bairro da Luz, na capital paulista.

Para onde vai o povo "saído"? Beira de represas, morros, ou várzeas, afogando-se em lama em locais sem estrutura. Quando há uma necessidade de espaço em regiões urbanizadas, os mais pobres são empurrados para perto da esquina entre o "não me encha o saco" com o "não me importa aonde". Enquanto isso, os movimentos por moradia são criminalizados por exigir políticas para construção e financiamento de imóveis a públicos de baixa renda. Ou de adaptação de unidades existentes, mas largadas vazias em locais com infraestrutura.

Dado que as tragédias urbanas seguem se repetindo, em cidades precárias que se desfazem com a água, com o poder público lamentando da mesma maneira, qual a quantidade de crianças que serão mortas em deslizamentos, como estes, daqui a oito anos, no verão de 2027?  

Não temos grandes terremotos, constantes furacões ou vulcões ativos. O país sucumbe com descaso em forma de lama mesmo. Do rompimento de barragens da mineração aos soterramentos em precárias cidades.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.