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Ao se mostrar refém das redes, Bolsonaro ameaça sua Reforma da Previdência

Leonardo Sakamoto

2028-02-20T19:22:26

28/02/2019 22h26

Foto: Adriano Machado/Reuters

Um governo que nasceu pelas redes sociais não ia passar batido quando elas começassem a gritar. O problema é que elas não gritam, necessariamente, em timbre e altura agradável aos seus ouvidos.

Primeiro, o presidente Jair Bolsonaro falou em um café da manhã com jornalistas, nesta quinta (28), que o governo pode ceder na proposta de Reforma da Previdência que enviou ao Congresso Nacional. Por exemplo, voltar atrás em aumentar de 65 para 70 anos a idade em que idosos em condição de miserabilidade podem obter o auxílio mensal de um salário mínimo. Ou propor a idade mínima para mulheres em 60 e não 62 anos – tal qual é hoje nas aposentadorias por idade. Ou ainda reduzir o corte nas pensões de viúvas e órfãos. A Bolsa de Valores, claro, surtou.

Quem acompanha o comportamento das redes sociais percebeu a quantidade de comentários negativos sobre a Reforma da Previdência desde que a proposta foi apresentada. Para Bolsonaro, a fonte mais preocupante de reclamações não é a oposição, mas seus apoiadores nas redes sociais, inclusive membros de categorias que, historicamente, deram suporte a ele – como policiais, bombeiros e militares.

Desde o princípio, o presidente divergia de seu ministro da Economia quanto à idade mínima. Quando a proposta foi divulgada, defensores do texto disseram que os 62 anos para mulheres era um "ponto de equilíbrio", uma vez que ambos teriam cedido. Paulo Guedes, ignorando a dupla jornada feminina, queria 65 anos para homens e mulheres. Já o presidente havia defendido, em entrevista ao SBT, em 03 de janeiro, 62 anos para homens e 57 para mulheres.

O Palácio do Planalto sentiu o impacto digital da insatisfação e está sinalizando concessões antes mesmo que o Congresso Nacional comece a discutir a Proposta de Emenda Constitucional nas comissões – o que enlouquece, por sua vez, a (pequena) parte de sua base que defende o projeto na integralidade.

Mesmo o exército de perfis falsos, robôs e apoiadores reais, que já estão mobilizados para xingar e atacar qualquer crítica à PEC, não têm sido páreo à insatisfação espontânea. O governo diz que a população ainda não foi devidamente informada. Mas deve-se lembrar que muita informação vai chegar em forma de "esclarecimento", pelo governo e aliados, e de "denúncia", por contrários ao texto.

Por fim, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, cedeu à campanha digital realizada por apoiadores do governo Bolsonaro favoráveis à flexibilização da posse e do porte das armas de fogo, e revogou a nomeação de Ilona Szabó para a vaga de suplente no Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, também nesta quinta. De acordo com ela, teria havido intervenção do presidente.

"Senti uma certa decepção ao ver que a opinião de grupos extremos tem um impacto tão grande na opinião do presidente da República, que é o presidente de toda a população", disse ela ao jornal O Globo.

Co-fundadora do Instituto Igarapé, especialista em segurança e desenvolvimento, com mestrado em Estudos de Conflito e Paz pela Universidade de Uppsala, na Suécia, Szabó – que havia sido nomeada ontem – é defensora do controle de armas e crítica às promessas de Bolsonaro nessa área.

O ministério de Moro não escondeu a razão do desligamento: "Diante da repercussão negativa em alguns segmentos, optou-se por revogar a nomeação, o que foi previamente comunicado à nomeada e a quem o Ministério respeitosamente apresenta escusas".

"Lamento profundamente que grupos minoritários mais extremados consigam impedir que que pessoas comprometidas com o bem público, mesmo com divergências, possam sentar na mesa para a construção de um bem maior", afirmou Ilona Szabó à Folha de S.Paulo.

O governo Bolsonaro deu duas sinalizações, no mesmo dia, de que atende as redes sociais – ao declarar que pode ceder na idade mínima para aposentadoria das mulheres e na revogação da nomeação de Ilona Szabó. Há quem diga que isso é a prova de um governo em sintonia com sua base social, independente de quem ou o que ela seja. Outros, que isso é sintoma de um governo demagógico e fraco, refém daqueles que acreditava comandar. Para saber quem está com a razão teremos que observar o processo de análise e votação das mudanças nas aposentadorias e na assistência social.

Em tempo: termina hoje fevereiro, o mês que teve cara de ano inteiro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.