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Audiência de "BolsoWorld" se assusta e roteirista pode ter que mudar série

Leonardo Sakamoto

2009-03-20T19:18:55

09/03/2019 18h55

Após dois meses de muito terror B e pitadas de comédia pastelão, o roteirista da série "BolsoWorld" pode ter percebido que foi longe demais.

O alerta veio com o fato de que apenas os fãs clubes acharam graça em uma cena na qual um dos atores principais ordena a gravação de crianças nas escolas sem autorização dos pais e em outra em que o protagonista viraliza um vídeo com dedada e golden shower. O restante do público achou apelativo. Por muito menos, o papa já teria pedido desculpas.

Devido às péssimas atuações de Ernesto Araújo, coadjuvantes foram escalados para salvar as cenas em que ele participa, como o tarimbado Hamilton Mourão. Estava soando estranho que suas falas não fizessem sentido algum, constrangendo os que com ele compartilhavam o set. Ernesto, que tem sido motivo de piada nos bastidores e camarins por atores estrangeiros, parece atuar o tempo todo sob outro roteiro. Alguns acreditam que ele estaria roubando falas de Sob Domínio do Mal (2004) ou Teoria da Conspiração (1997), enquanto outros apostam em algo mais clássico, como O Incrível Exército de Brancaleone (1966).

A contratação internacional Ricardo Vélez Rodríguez também teria entendido o recado e dispensado de seu entorno figurantes que causaram problemas durante as gravações. Isso deixou chateado o agente de Vélez, que mora nos Estados Unidos. Afinal, ele não apenas havia indicado o ator nascido na Colômbia e naturalizado brasileiro para o papel, o mais importante de sua carreira até então obscura, mas também esses figurantes. Por isso, o agente pediu para todos os outros que participam da série se demitirem. Mas com a situação dramática do mercado de trabalho, não deve ser plenamente atendido. O ator, aberto a rompantes de estrelismo, já havia se envolvido em outras polêmicas. Por exemplo, criticou a audiência brasileira, chamando-a de "canibal" e acusando-a de roubar produtos de hotéis e salva-vidas de aviões em uma entrevista.

Pelo que apuramos junto ao showbusiness, o problema não é o comportamento histriônico de ambos, mas a falta de resultados apresentados. Até agora, nenhum dos núcleos dramatúrgicos do qual fazem parte decolou. Pelo contrário, são alvo de críticos, dentro e fora do país.

O problema maior, contudo, reside no ator principal da série, Jair Bolsonaro. Listar os problemas por ele causados até agora levaria mais tempo que as 3h58 de …E o Vento Levou. Ele é o principal culpado pela produção estar perdendo audiência semana a semana apesar de ainda demonstrar bons índices. Com exceção dos já citados fãs clubes, o restante do público está com dificuldade para entender para onde a história vai.

Há um certo constrangimento quando outros atores como (novamente) Hamilton Mourão, Augusto Heleno, Rodrigo Maia, entre outros, têm que vir a público explicar o que o protagonista quis dizer em sua interpretação sofrível. Em doses calculadas, isso pode funcionar como peça de marketing no estilo Cigano Igor, de Explode Coração. Mas, repetindo-se com frequência, rouba tempo do telespectador e desgasta a imagem de estúdio.

Cartas chegam à direção da emissora, perguntando se a série está sendo transmitida mesmo em português por conta de sua atuação. Assinantes da TV a cabo pedem para que seja introduzido o serviço de tecla SAP, para acesso ao significado real de suas improvisações.

Na tentativa de resolver a questão, o roteirista também aumentou a importância dos coadjuvantes, na torcida para que o protagonista não estrague as cenas. A transmissão de um comercial, via Facebook, nesta quinta (7), contou com o já citado Augusto Heleno e também com Otávio Rêgo Barros, que faz o papel de porta-voz na série, ladeando o protagonista.

Se isso vai funcionar, não se sabe. Mas, seguindo o ritmo original, parte da audiência abandonaria a série antes do final da primeira temporada, zapeando até o canal militar.

Em tempo: Enquanto isso, duas das principais escalações, Paulo Guedes e Sérgio Moro, ainda estão devendo, com participações apagadas até o momento. Críticos estão decepcionados, baseados em trabalhos anteriores de ambos e nas promessas de suas assessorias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.