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Ao divulgar mentira, Bolsonaro vira corresponsável por ataques a jornalista

Leonardo Sakamoto

2010-03-20T19:23:44

10/03/2019 23h44

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

A partir do momento em que Jair Bolsonaro usou sua conta no Twitter para compartilhar informação falsa sobre uma repórter do jornal O Estado de S.Paulo, tornou-se corresponsável por qualquer ataque, ameaça e agressão contra ela. Isso já seria inaceitável vindo de um hater anônimo nas redes sociais, mas partindo do principal funcionário público do país é um caso que deveria ser analisado pela Procuradoria-Geral da República e pela Justiça.

Um site bolsonarista (Terça Livre) trouxe, neste domingo (10), postagem que atribuiu falsamente à jornalista Constança Rezende a declaração "a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo". Não é possível encontrar essa frase, que está no título da publicação, no áudio de uma entrevista que havia sido dada por ela, em inglês, a um suposto estudante. O conteúdo teria sido divulgado por um blogueiro francês, citado pelo Terça Livre. "A gravação do diálogo, mostra que Constança em nenhum momento fala em 'intenção' de arruinar o governo ou o presidente", segundo O Estado de S.Paulo. "Só trechos selecionados foram divulgados. Em um deles, a repórter avalia que 'o caso pode comprometer' e 'está arruinando Bolsonaro', mas não relaciona seu trabalho a nenhuma intenção nesse sentido."

Tampouco procede a informação trazida pelo mesmo texto de que seria ela a responsável pela reportagem que revelou as "movimentações atípicas" de R$ 1,2 milhão de Fabrício Queiroz, ex-assessor do, hoje, senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), primogênito do presidente. O furo foi de Fábio Serapião, também repórter do jornal.

Quando o conteúdo distorcido já circulava, via redes sociais, Bolsonaro bombou a informação, promovendo, na prática, um linchamento virtual presidencial da jornalista a seus milhões de seguidores no Twitter. De lambuja, aproveitou para difamar a imprensa.

"Constança Rezende, do 'O Estado de SP' diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o Impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otavio, profissional do 'O Globo'. Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos."

A inserção do nome do jornalista de O Globo, que tem coberto a relação entre milícias e o antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, tenta vender a tese de que existiria um complô contra o governo envolvendo diversos veículos da mídia. O complô, contudo, é do próprio governo, que se sabota através de erros, barbeiragens, gafes e medidas que desrespeitam direitos frequentemente.

O presidente da República não pode usar a posição privilegiada em que está para ir contra a integridade física e psicológica de qualquer cidadão, fazendo com que seus seguidores transformem em um inferno a vida das pessoas que o desagradam.

Por mais que diga que não ordena ataques a ninguém, a sobreposição de suas postagens à sua legião de seguidores serve como justificativa aos ataques. Ou, melhor dizendo, eles se tornam "necessários" para tirar o país do caos e levá-lo à ordem. Suas declarações alimentam a intolerância, que depois é consumida por fãs malucos ou inconsequentes que fazem o serviço sujo.

Ações irresponsáveis como essa têm o objetivo de fomentar um estado de apreensão constante, fundamental para que a base do bolsonarismo mantenha-se coesa e orientada a ficar firme nas guerras cultural e política. Bolsonaro precisa criar  inimigos monstruosos para manter de pé o apoio a ele.

O efeito colateral disso é a democracia desmoronando diante de nossos olhos. Pelas mãos daquele que jurou defendê-la.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.