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Massacre de Suzano: O submundo da internet celebra a criação de "monstros"

Leonardo Sakamoto

2014-03-20T19:15:49

14/03/2019 15h49

Velório dos corpos de seis das vítimas do Massacre de Suzano. Foto: Felipe Rau/Estadão Conteúdo

Há fóruns e canais de discussão na rede, operando abaixo do radar da maioria das pessoas, que congregam racismo, misoginia, homofobia, pedofilia e ódio em estado puro. Nesses chans (espaços que funcionam sem necessidade de login ou conta e, geralmente, anônimos), narrativas são construídas e buriladas e estratégias de ataques a grupos minoritários organizadas, normalmente usando a internet.

É assustador saber que alguém visto como "normal" e "comum" pode ser capaz, nos contextos histórico, político e social apropriados, tornar-se o que convencionamos chamar de "monstro". Ou seja, os monstros podem ser nossos vizinhos, nossos colegas de sala ou até nós mesmos. Em casos extremos, basta que tenham o conjunto de estímulos (ou a falta deles) e os contextos certos de frustração, solidão, ansiedade, insegurança. A partir daí, ficam mais suscetíveis a aprender a odiar determinados grupos que culparam por seu sofrimento e a transformar esse ódio em violência. Ninguém nasce um "monstro", torna-se.

A dificuldade de colocar-se no lugar do outro e entender que ele merece a mesma dignidade que sonhamos para nós mesmos não é novo. Mas não estava distribuída pela internet, conectada pelas plataformas de redes sociais, amplificada pela popularização de smartphones. A tecnologia não é a responsável por criar "monstros". Mas ela catalisa processos que, de outra forma, levariam muito mais tempo.

Jovens que se reúnem nesses fóruns celebraram as oito mortes do Massacre de Suzano e chamaram os dois rapazes, um de 17 e outro de 25, de heróis. Ao final, um matou o amigo e suicidou-se. Entraram imediatamente para um bizarro Hall da Fama.

Outros que também aplaudiram os homicídios foram alguns fóruns de discussão que reúnem "Incels" (sigla em inglês para "celibatários involuntários"), rapazes frustrados, solitários e inseguros por não conseguirem ter relações afetivas e sexuais, culpando as mulheres e outros homens por isso. Sentem-se perdedores e parte deles atribui isso a si mesmo e outros à sociedade.

Uma parte dos Incel não é violenta, outra sim. E esse segundo grupo somou os dois ao seu panteão junto com o jovem que tinha raiva de garotas e assassinou 12 crianças e adolescentes, entre 12 e 14 anos, em uma escola em Realengo, no Rio de Janeiro, em 2011. E o canadense que atropelou e matou dez pessoas, em Toronto, com uma van em abril do ano passado.

Como comentei no texto desta quarta sobre o massacre, sentindo-se rejeitados do mundo e refugiando-se em um universo à parte, o limite entre fantasia e realidade torna-se tênue. Alguns chegam a viver inspirados em universos ficcionais. Tal qual uma religião, com deuses e versões distorcidas de moral e de recompensa pós-morte. E, nessa fantasia, cabem "nobres" missões.

Entre as conversas nos grupos mais radicais nas redes, promessas de fazer um "espetáculo" ainda maior que Realengo, Goiânia, Suzano e Columbine e declarações de inveja pela falta de coragem de fazer a mesma coisa. A notoriedade trazida pelo massacre alimenta esse tipo de comportamento. Sabem que haverá uma legião de pessoas que incensará o nome deles.

No caso dos Incel, a culpa pelo fracasso é das mulheres, de "machos-alfa", do feminismo, da aparência que eles têm, de sua incapacidade de interagir socialmente, dos pais, das escolas, da cultura contemporânea. Em suma, da vida.

A trajetória pregressa dos dois jovens precisa ser analisada com calma. Isso não exime o que fizeram, mas saber o nível de distúrbio de ambos contribui para entender melhor o contexto e os gatilhos que os levaram a provocar dor e sofrimento a outras famílias e às suas próprias. Por exemplo, para quem sente que sempre foi ignorado pelos que estão à sua volta, a violência pode ser o caminho escolhido por eles para deixar a invisibilidade.

Cabe lembrar, ainda, que o suicídio costuma evidenciar o sofrimento intenso de quem o comete. De alguma forma, nossa cultura não conseguiu, para essas pessoas, apresentar motivos suficientes para se manter vivo. Em vez disso, esses jovens encontraram na morte massacrante o sentido da vida. É desesperador pensar que foi na lógica de uma "missão suicida" que ambos encontraram alguma resposta para o desencaixe que viviam.

O bullying sozinho não leva alguém a assassinar outra pessoa. Mas esse não é o único elemento envolvido, principalmente se considerar que muita gente nesses fóruns atua o tempo todo para transformar jovens com problemas de socialização em armas para os seus objetivos.

Precisamos aprimorar métodos a fim de alcançá-los. E, agindo com empatia, tentar buscar criar canais para conectá-los com a complexidade e a pluralidade do mundo. Antes que seja tarde.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.