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Bolsonaro deveria parar de ouvir maus conselhos, diz Olavo. Autocrítica?

Leonardo Sakamoto

2017-03-20T19:17:32

17/03/2019 17h32

O escritor Olavo de Carvalho, um dos mentores intelectuais do governo Jair Bolsonaro, afirmou que o presidente "deveria parar de ouvir maus conselhos". O registro, feito por Patrícia Campos Mello e Marina Dias, para a Folha de S.Paulo, em Washington, onde ele participava de um evento organizado por Steve Bannon, liderança da extrema direita norte-americana, que precede a visita oficial de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos – que começa neste domingo.

Olavo tem razão.

Bolsonaro ouve muitos maus conselhos. Contudo, os que causam mais danos ao seu governo não são os oriundos da ala militar da cúpula federal, que Olavo considera má influência para o presidente, mas aqueles postados nas redes sociais pelo próprio escritor ou transmitidos por seus pupilos – alguns dos quais pertencentes ao núcleo do poder.

A indicação do nome dos ministros das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e da Educação, Ricardo Vélez Rodrígues, que têm criado constrangimentos para o governo federal com discursos e ações carregados de pirotecnia ideológica (como os que criam riscos à venda de soja para a China e os que pedem a gravação de crianças sem consentimento dos pais nas escolas), mas com pouco resultado prático, são dois exemplos.

Após mais de dois meses sem nenhum projeto de vulto na Educação, Vélez foi convencido a reduzir as insanidades ideológicas para fazer o ministério andar. Isso passou pela demissão de ex-alunos de Olavo de Carvalho – que partiu para o ataque. A reação do escritor também provocou baixas, incluindo o secretário executivo, com a benção de Bolsonaro. Como consequência de ter ganho a antipatia do antigo padrinho, Vélez perdeu a pouca autonomia que tinha e seu próprio emprego subiu no telhado. Essa foi a polêmica mais recente em que se envolveu, mas não será a última.

Enquanto isso, generais da reserva na cúpula do governo agem discretamente para reduzir o impacto das repercussões negativas causadas pelas declarações de Bolsonaro guiadas exatamente por más influências, além de corrigir e evitar não apenas as barbeiragens presidenciais (como a declaração de que a democracia era um concessão das Forças Armadas ao país), como também riscos que podem ser causados por alguns auxiliares de posições radicais. Como o próprio chanceler, cria de Olavo, na questão venezuelana.

O vice-presidente, Hamilton Mourão (detestado pelo escritor), e os ministros-chefes do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, e da Secretaria de Governo, Carlos Alberto Santos Cruz, entre outros, têm desempenhado esse papel e sido criticados por isso.

O governo herdou 64 mil mortes violentas por ano e 12,7 milhões de desempregados, mas ainda não apresentou nenhum projeto para garantir segurança pública e gerar empregos formais que esteja à altura desse desafio. Além disso, tem uma polêmica Reforma da Previdência para discutir com o Congresso Nacional, mas principalmente, com a população – que é a razão do sistema de aposentadorias e de seguridade social. Também tem uma Reforma Tributária pela frente, para reduzir as desigualdades e injustiças fiscais e facilitar a vida das empresas, entre outros tantos projetos de interesse dos brasileiros – tanto os que votaram nele quanto os que não.

Um presidente deve ouvir conselhos de todas as partes, mas – ao final – agir pensando no bem comum e não em sua popularidade nas redes sociais. Bolsonaro escolheu visitar Donald Trump para agradar sua base ideológica, mas precisa tomar cuidado. Porque alegrá-la não vai resolver os problemas do país, mas apenas retardar o seu desgaste se o país continuar girando em falso, em uma guerra contra Moinhos de Vento comunistas.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.