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Política é resolver conflito, mas Bolsonaro não quer ou não sabe fazer isso

Leonardo Sakamoto

24/03/2019 10h39

Onyx Lorenzoni e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: DIda Sampaio/Estadão

Dentre todas as habilidades esperadas de um presidente da República, saber fazer política talvez seja a mais importante. Dada à limitada quantidade de recursos disponíveis em uma sociedade e ao seu amplo leque de interesses, legítimos ou não, é sua função encontrar soluções pacíficas para conflitos e buscar formas coletivas de construção, garantindo a divisão racional e solidária desses recursos. Imprimindo sua marca e visão de mundo, claro, mas evitando que o país se exploda no meio do caminho.

Bolsonaro parece não saber como ou não querer fazer isso.

Tendo passado quase três décadas sem propor ou relatar projetos relevantes no Congresso Nacional, com dificuldade em respeitar os direitos de outras pessoas e caracterizando-se por propagar a política da cisão, era claro que ele teria problemas quando assumisse o cargo. O presidente critica a articulação, como se fosse algo asqueroso da "velha política" em detrimento da "nova política", que ele estaria apresentando. Dessa forma, dá às costas para algo central na vida em sociedade, o diálogo, que nunca foi seu forte enquanto deputado federal.

Suar a camisa para tentar convencer aliados e contra-argumentar o discurso da oposição, aceitar concessões às propostas originalmente apresentadas, repartir poder com aliados quando o seu partido possui apenas 54 das 513 cadeiras da Câmara, tudo isso faz parte da política. É diferente de vender cargos, emendas, leis e portarias, enfim o tomaladacá que rege muitas relações no Congresso. Desde a antiga Atenas, é tênue a linha entre as duas coisas em uma democracia, mas cabe a um líder político que se diz honesto tentar dialogar sem sujar as mãos.

Bolsonaro vê a Presidência da República como uma gigantesca tribuna, da qual todos são obrigados a ouvi-lo e levá-lo a sério – possibilidade que nunca teve como parlamentar. Parece enxergar a si mesmo como um farol que ilumina a realidade para a população, um exemplo a ser seguido. Não à toa, uma de suas passagens bíblicas preferidas é João, capítulo 8, versículo 32: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Entende como verdade tudo aquilo com a qual concorda. De tanto ser chamado de "mito" por seus fãs, talvez leve isso a sério demais.

A legitimidade dada pelas urnas no ano passado lhe garante, por enquanto, capital político que deveria gastar na articulação de seu governo. Achar que qualquer mandatário, ao redor do mundo, aprova projetos em seus parlamentos sem gastar muita saliva e sola de sapato na negociação é ver a si mesmo como alguém ungido pelas forças do universo. Alguém cujo governo produziu uma Reforma da Previdência banhada em tão rara sabedoria que, se rejeitada ou alterada, mostrará apenas a ignorância e a mesquinhez do Congresso.

Ao longo dos últimos três meses e, principalmente, na última semana, com as rusgas com o Congresso Nacional, Bolsonaro tem mostrado que não gosta de dialogar. Triste. Apesar de toda lama, a política é uma das mais importantes atividades humanas por evitar, através do diálogo, que nós nos devoremos e garantir que a vontade do mais forte não prevaleça em detrimento da dignidade dos mais fracos.

Ao negá-la, Bolsonaro talvez esteja mostrando que é exatamente isso o que ele deseja.

Em tempo: Vale lembrar que a "velha política" é aquela que defende com unhas e dentes o seu auxílio-moradia, mesmo tendo imóvel próprio em Brasília; que é acusada de recolher e embolsar parte do salário dos funcionários do próprio gabinete; que mantém relações próximas com chefes de milícias, inclusive contratando seus familiares; que tem ministro e membros do próprio partido envolvidos em laranjais; que mantém vendedora de açaí como contratada-fantasma do gabinete; que não consegue separar as relações familiares da sua vida pública.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.