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"Não houve ditadura", frase de Bolsonaro, é prima de "a Terra é plana"

Leonardo Sakamoto

2027-03-20T19:19:56

27/03/2019 19h56

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A frase "Não houve ditadura" – afirmação feita pelo presidente da República em entrevista a José Luiz Datena, no programa Brasil Urgente, na TV Bandeirantes, nesta quarta (27) – é prima de "a Terra é plana". Pois, em ambos os casos, há muito já se abandonou o campo da razão. É uma crença que não se abre a questionamentos, daquelas que ignoram dados, fatos, depoimentos, desaparecimentos, corpos, ossadas, valas comuns. Tão desconexa da civilidade que mitifica carniceiros, como o coronel-torturador Brilhante Ustra, proclamado herói de Bolsonaro.

Na entrevista, ele disse que houve "probleminhas" nesse período. Podemos listar alguns desses "probleminhas" que ele não citou. Um deles foi a política de execuções sumárias de cidadãos brasileiros considerados adversários políticos, realizada pelo próprio governo.

Um documento secreto liberado pelo Departamento de Estado norte-americano e descoberto pelo professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Matias Spektor, mostrou que o general Ernesto Geisel teria concordado com a continuidade dessa política em 1974, por exemplo. O ditador brasileiro, que governou entre aquele ano e 1979, teria orientado João Baptista Figueiredo – então chefe do Serviço Nacional de Informações e que seria seu sucessor – a seguir com os assassinatos que começaram no governo do general Médici. O memorando é assinado pelo diretor da CIA na época, William Colby, e relata uma reunião com Geisel. É citada a execução sumária de, pelo menos, 104 pessoas.

Talvez como fardo de uma história condenada a se repetir, primeiro como tragédia, depois como piada, o presidente Bolsonaro, em sua visita oficial a Washington neste mês, teve uma reunião com a diretora da agência de inteligência norte-americana, Gina Haspel, responsável por prisões secretas da CIA em que a tortura era usada como método de interrogatório, de acordo com registro de Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. Os agentes adotavam técnicas como simulação de afogamento, injeção retal e privação de sono para extrair confissões de supostos terroristas.

Durante as sessões de tortura realizadas no 36o Distrito Policial (local que abrigou o DOI-Codi, órgão de repressão política da ditadura, na capital paulista), os vizinhos do bairro residencial do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. Tente dormir tendo, ao lado, um ser humano sendo moído em paus-de-arara, eletrochoques, "cadeiras do dragão" e tantos outros métodos criativos aplicados por militares e policiais. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar. Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria.

"O ódio. Eu não consigo, até agora, entender de onde vinha tanto, tanto ódio." Maria Aparecida Costa ficou presa naquele edifício durante a ditadura. Ela acha que talvez a resposta esteja na sensação de poder. Afinal, a tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário "quebrar" a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era, pelo que representava e pelo que defendia. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também uma visão de mundo, uma ideia.

Outro "probleminha" foi que essa metodologia de enfrentamento e a certeza do "tudo pode" continuam provocando vítimas. Diariamente, os mais pobres sofrem nas mãos de uma banda podre da polícia que adota táticas refinadas na ditadura a fim de garantir a ordem (nas periferias das grandes cidades) e o progresso (no campo). Sejam eles agentes em serviço ou fora dele, na forma de milícias urbanas e rurais. Milícias – que foram elogiadas e defendidas pelo presidente quando deputado federal e que possuem relações ainda inexplicadas com sua família.

Por fim, um último "probleminha". Nas redes socais, seguidores de Bolsonaro tentam provar que se regimes que se afirmavam à esquerda também mataram, então a ditadura não pode ser criticada – em uma argumentação indigente. Essa falta de maturidade é típica de um país que ainda engatinha quanto à pluralidade do debate público e vive em meio à herança não-resolvida do seu próprio período autoritário. Pois há espaço para criticar todas as ditaduras violentas, como já fiz várias vezes neste espaço.

Repetindo: alguns governos que se autointitulavam socialistas ou comunistas também mataram milhões. Do Khmer Vermelho, no Camboja, aos expurgos, na União Soviética, passando pelos fuzilamentos na China ou em Cuba, a História é farta em registrar o que esses grupos fizeram em nome de suas revoluções ou da perpetuação de poder. Da mesma forma, a História é rica ao demonstrar as montanhas de mortos em decorrência da ação colonialista escravagista de países europeus na América Latina, África e Ásia. Sem falar dos milhões que morreram em decorrência das políticas de expansão do capitalismo ao redor do mundo, via das grandes corporações. Quem realmente entende a dimensão dos direitos humanos, à esquerda e à direita, não compactua com nenhum desses processos.

As Forças Armadas de hoje não são as mesmas do período da última ditadura, da mesma forma que os contextos nacional e internacional são outros. Seus líderes têm confirmado que o comando é e será civil. E, quase sempre, afirmado que o respeito às liberdades individuais e às instituições continuará, sem intervenções ou golpes. A ala militar do governo Bolsonaro é, aliás, muito mais moderada do que o próprio presidente, entendendo o momento histórico em que vivemos.

Como já disse aqui antes, espero que neste 31 de março, a História do silêncio e do sofrimento durante os 21 anos de ditadura, que moldou a forma como nos relacionamos com o mundo e com as outras pessoas, seja conhecida e contada nas escolas, na mídia, nas ruas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes. Talvez assim nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam, hoje, não veio de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.