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Desemprego: Bolsonaro briga com o termômetro e não atua nas causas da febre

Leonardo Sakamoto

2002-04-20T19:18:48

02/04/2019 18h48

O presidente da República criticou, novamente, a metodologia usada pelo IBGE para medir o desemprego no país, em entrevista à TV Record, nesta segunda (1), direto de Israel, onde está em visita oficial.

Ao invés de atacar o termômetro, melhor faria se atuasse junto às causas da febre. Até porque chamar o desemprego por outro nome não fará com que ele deixe de ser sentido pela população. Não há remédio que resolva o problema de uma vez e, portanto, Bolsonaro mostra-se imprudente ao apostar todas as fichas no ajuste fiscal da Reforma da Previdência, deixando de implementar políticas para fomentar postos de trabalho formais e promover a capacitação e a reciclagem da mão de obra.

"Como é feita hoje em dia a taxa? Leva-se em conta quem está procurando emprego, só quem está procurando emprego. Quem não procura emprego, não é tido como desempregado. Então, quando há uma pequena melhora na questão do emprego no Brasil, essas pessoas que não estavam procurando emprego, procuram, e, quando procuram e não acham, aumenta a taxa de desemprego. É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população", reclamou.

A descrição dele está correta. Mas a conclusão que tira é de alguém que não entendeu o que acaba de descrever.

A taxa de desocupação depende de uma série de variáveis. Por exemplo, a quantidade de pessoas que já estavam procurando emprego sem sucesso. Mas também o montante que estava fora da força de trabalho e volta a procurar emprego ou inicia agora a busca pelo primeiro emprego.

Quem não está procurando emprego não é considerado desempregado pela metodologia do IBGE, que segue padrão internacional. Desempregado é quem está tentando encontrar emprego e não consegue. Ou seja, 13,1 milhões de pessoas. Quando a economia dá sinais de melhora ou o governo promete que, agora, sob nova administração, esse é um país que vai pra frente, as pessoas voltam a se mexer, procurando empregos. E, portanto, retornam à fila do desemprego.

Essas diferenças são fundamentais para o desenvolvimento de políticas diferentes para cada grupo social.

Bolsonaro não gosta da diferença entre os dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) Contínua, divulgada, na manhã do dia 29, pelo IBGE, e os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados, no dia 25, pelo Ministério da Economia. O primeiro mostra que o país aumentou o desemprego para 13,1 milhões no trimestre compreendido entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019. O segundo, que foram criados 173.139 empregos com carteira assinada em fevereiro. A PNAD e o Caged são indicadores complementares e não excludentes ou contraditórios.

Quando o dado do Caged foi divulgado, Bolsonaro se empolgou e tentou capitalizar nas redes sociais. "Queremos muito mais e não descansaremos! Vamos em frente!" Foi ecoado pela equipe econômica que disse ser isso o efeito do ambiente liberal e confiável para que contratações voltem a ocorrer que estaria sendo criado pelo governo.

Outros dados divulgados pelo IBGE: a população fora da força de trabalho (65,691 milhões), recorde da série histórica, teve aumento de 595 mil pessoas (0,9%), em comparação ao trimestre anterior, e de 754 mil (1,2%), com relação ao mesmo trimestre há 12 meses. E o desalento – contingente que está fora da força de trabalho por não acreditar que exista oportunidade ou espaço no mercado, não contar com experiência ou qualificação, ser considerado muito jovem ou muito idoso, não encontrar serviço no local de residência ou não ter conseguido trabalho adequado – foi de 4,855 milhões (4,4% do total), mantendo o auge da série histórica.

Como disse aqui quando saíram os dados da PNAD Contínua: a responsabilidade por essa situação não é do governo Bolsonaro, mas ele precisa parar de brigar com números e passar a trabalhar para ajudar a reduzi-los. Não há um complô contra ele ou contra a população, apenas ignorância por parte dele quanto à estatística.

Em novembro do ano passado, Bolsonaro já havia chamado de "farsa" a metodologia para cálculo do desemprego do IBGE e disse que iria alterá-la.

Governos pouco afeitos à democracia, quando colocados contra a parede, tendem a reduzir a transparência de informações às quais a sociedade tem acesso a fim de adaptar a realidade à sua narrativa. Esperemos que, se a realidade se mantiver cabeça-dura e não atestar a redução do desemprego no ritmo que Bolsonaro espera, seu governo não torture os números até que entreguem o que ele deseja ouvir.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.