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Bolsonaro governará ou ficará preso a ilusões como o "nazismo de esquerda"?

Leonardo Sakamoto

2003-04-20T19:02:51

03/04/2019 02h51

Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araujo. Foto: Sérgio Lima/AFP

Não satisfeito em tentar reescrever a história recente do Brasil, ao afirmar que não houve ditadura militar, nem golpe de Estado em 1964, Bolsonaro tentou mudar também a história mundial ao negar a natureza de extrema direita do regime nazista. E fez isso, vergonha das vergonhas, logo após visitar o Memorial do Holocausto, em Israel. Ambas questões não remetem apenas ao passado, mas dizem respeito ao presente, uma vez que agentes treinados pelo Estado continuam adotando métodos de dor e morte refinados pela ditadura nas periferias do Brasil. E grupos de extrema direita tentam ressuscitar o nazismo, dando continuidade à sua saga racista, antissemita e homofóbica, ao redor do mundo.

Nos últimos dias, o governo Bolsonaro tem demostrado dificuldade, acima do normal, de entender suas responsabilidades.

A crítica que o presidente fez ao IBGE, reclamando da metodologia para cálculo do índice de desemprego por desejar números melhores, não teve a devida a atenção, mas preocupa. E muito. Pois mostra sua predisposição em mudar a natureza dos indicadores quando estes o decepcionarem. E eles vão decepcioná-lo, ainda mais por conta do deserto de propostas que tem marcado sua gestão até agora.

Sem indicadores que permaneçam confiáveis ao longo do tempo, não temos como mensurar o sucesso ou o fracasso de políticas públicas. E isso vale da criação de postos de trabalho, passando pelo crescimento da economia ao monitoramento da alfabetização.

O Ministério da Educação voltou atrás, na semana passada, na decisão de deixar de avaliar crianças de sete anos em fase de letramento – o que seria um absurdo. Na mesma linha de menosprezar indicadores, o ministro da Economia, Paulo Guedes, sugeriu, em fevereiro, a redução drástica do questionário do Censo para economizar. O levantamento nacional, realizado de forma periódica desde 1872, é fundamental para entendermos de onde viemos e para onde estamos indo.

Para temperar ainda mais a situação, na viagem a Israel, o governo anunciou a criação de um escritório de negócios brasileiro em Jerusalém como primeiro passo para a mudança da embaixada de Tel Aviv para lá. Isso irritou países árabes e de religião islâmica, que são parceiros comerciais importantes, uma vez que a cidade está em disputa entre israelenses e palestinos.

Como no fundo do poço tem um alçapão, o filho mais velho do presidente e amigo do laranjeiro Fabrício Queiroz, senador Flávio Bolsonaro, mandou o Hamas se explodir após o movimento radical islâmicoter  pedido que o Brasil se retratasse. Depois, apagou a postagem, mas o estrago estava feito. A questão principal não é colocar o país na rota de ataques terroristas, mas o fato de ações desnecessárias como essa distanciar ainda mais o Brasil de uma boa relação com as nações islâmicas. A atuação desastrosa enfureceu deputados.

Enquanto isso, a equipe de articulação do governo federal tenta amenizar a relação com o Congresso Nacional, desgastada depois que o presidente resolveu bater boca com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Aliados do presidente tentam vender a imagem de um Bolsonaro que vai fazer bobagens, mas bobagens contornáveis. Ou, como já disse aqui, um presidente café com leite.

Bolsonaro reclamou da imprensa, em Israel, dizendo que os repórteres não querem saber de pautas positivas, apenas de conteúdo que dê manchete. É função da imprensa fiscalizar o seu mandato, mas não lhe servir como assessora de imprensa. O que ele não percebeu é que quem dá as manchetes, ao final, é ele. Se parasse de produzir polêmicas, resolvesse governar de forma racional e não atiçasse seus seguidores digitais para a guerra, teria mais condições para discutir o que chama de pautas positivas. A responsabilidade é dele e apenas dele.

E esse é o problema.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.