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Intervenção na Petrobras reforça que Bolsonaro não tem projeto para o país

Leonardo Sakamoto

2013-04-20T19:06:55

13/04/2019 06h55

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Não dá nem para sentir pena da decepção chorosa de certos representantes do mercado com Jair Bolsonaro. Pois apenas uma marmota trancada a vida inteira em um porão escuro poderia ter acreditado na conversão liberal do capitão reformado – que começou sua carreira como representante de interesses de soldados, cabos e sargento do Exército e carregou, na maior parte de seus 28 anos de mandato parlamentar, um discurso nacionalista e estatista.

Duvido muito que o ministro da Economia, Paulo Guedes, nela acreditasse. Tampouco naquela história para boi dormir de que ele seria o seu "Posto Ipiranga". Pelo contrário, imaginava que seria váááárias vezes desautorizado pelo chefe. Essa narrativa foi muito útil no período eleitoral, depois caiu de maduro. Ou nem isso. Já em setembro de 2018, em plena campanha, tomou um chega-pra-lá de Bolsonaro quando vazou uma reunião em que o economista falou sobre a criação de um tipo de CPMF. Mas, ao menos, deve ter colhido a promessa de que quando o presidente tivesse a vontade de demonstrar instintos primitivos, ele seria chamado para que conversassem primeiro.

Nesta sexta (12), Guedes tomou um passa-moleque bonito ao ser ignorado na intervenção do presidente nos preços da Petrobras a fim de suspender o reajuste do preço do diesel e reduzir a pressão por uma nova greve dos caminhoneiros. No melhor estilo "é verdade esse bilete", Bolsonaro afirmou que sua política é de "não intervenção" enquanto, veja só, intervinha.

(O método é semelhante ao de outro passa-moleque, este do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, ao tentar nomear a suplente de um conselho cujo perfil desagradava os seguidores fanáticos do capitão nas redes sociais. Neste caso, os inconformados eram caminhoneiros em grupos de WhatsApp.)

A ressaca do mercado por ter "percebido" que comprou gato por lebre e que tem um presidente conservador em costumes, reacionário em comportamentos e populista na economia custou R$ 32,4 bilhões em valor da Petrobras. É tanto autoengano junto que parece até de propósito. Se fosse personagem de Nelson Rodrigues, o mercado seria Gilberto gritando para Judite: "perdoa-me por me traíres!"

A cúpula política do governo acredita, contudo, que marcou um gol, uma vez que uma bomba teria sido desarmada. Lembram que a paralisação dos caminhoneiros, em maio do ano passado, roubou crescimento do PIB. Pode ser. Mas, na forma e na velocidade como cedeu, sindicatos que reúnem os caminhoneiros perceberam que é só apertar que Jair entrega. Agora, contam com um refém no Palácio do Planalto.

Para fugir do equivocado controle de preços adotado pelo governo Dilma Rousseff, Michel Temer entregou as decisões ao mercado, indo ao outro extremo. A gigante brasileira de energia é uma empresa de capital misto cujo comando é indicado pelo governo federal. Não deve, portanto, apenas produzir ganhos a seus acionistas, mas conta com um papel relevante para influenciar outros setores da economia e executar políticas de desenvolvimento social. Faz-se necessário, portanto, um equilíbrio entre o que desejam seus acionistas minoritários e a qualidade de vida do país. O mercado, através de guerrilha midiática e chantagem descarada, sabe fazer pressão de uma forma bem mais profissional do que os trabalhadores e o grosso da população.

A maioria da sociedade sempre rechaçou a ideia de privatização da Petrobras por conta do discurso de soberania nacional, de patrimônio público e dos ecos das campanhas passadas de que o petróleo é nosso. Contudo, já está caindo a ficha para muita gente de que as políticas da empresa afetam mais o nosso dia a dia do que imaginavam. Com o controle da Petrobras sob mãos do setor privado, provavelmente hoje se discutiria uma saída apenas via redução de impostos, causando um rombo irreparável nas contas públicas.

Aliás, a redução de impostos pura e simplesmente não resolve. Mensagens com argumentos infantis nas redes sociais exigem que todos os impostos de combustíveis sejam imediatamente zerados sob a justificativa de que esses valores arrecadados são usados apenas para bancar corruptos. Esquecem que educação e saúde pública, por exemplo, custam caro. Quem produz e compartilha essas mensagens, não raro, são as mesmas pessoas que rangem os dentes quando seus investimentos perdem rentabilidade. Isso sem contar que impostos, ao menos na gasolina, também devem ter função de dissuadir o uso do transporte individual em detrimento ao coletivo, reduzindo a emissão de gases tóxicos que matam cidadãos de grandes cidades.

Se o Brasil soubesse para onde vai, este seria o momento ideal para discutir o apoio à expansão ferroviária e hidroviária – que, num país de dimensões continentais, é lento e vergonhosamente caro.

Nada disso significa impossibilitar uma gestão profissional na mais importante empresa brasileira. O governo não pode se furtar a criar mecanismos para amortizar ou absorver variações ou mesmo procurar substituir importações de derivados de petróleo que impactam no custo final. Ampliar um colchão de amortecimento, o que ajudaria os caminhoneiros que, não raro, não sabem qual o custo real do frete antes de aceitar o serviço devido a aumentos enquanto estão na estrada, é uma possibilidade.

Nada disso é simples. Mas o debate é necessário.

Agora, o governo informa que Bolsonaro convocou uma reunião com técnicos e ministros na próxima semana para discutir a política de preços da Petrobras. Por que esperou uma ameaça de greve, um reajuste e uma intervenção acontecerem para chamar esse encontro? O objetivo era faturar politicamente em cima da situação, mostrando-se o "presidente amigo dos caminhoneiros"? Porque, se foi isso, ele também reforçou a imagem do "presidente inconsequente, que faz tudo o que lhe dá na telha". Bolsonaro deveria ter assumido antes o desafio de debater essa política. Sua inação, até aqui, mostra incompetência, ignorância ou despreparo. E covardia, por não assumir que interveio junto à estatal.

É importante que os diferentes atores econômicos e sociais envolvidos e a própria sociedade não sejam surpreendidos, mas entendam o que o governo pensa e para qual direção quer ir. Decisões intempestivas como essa apenas confirmam a imagem de um presidente que não tem um projeto para o Brasil para além do controle estatal de golden showers e gira como uma biruta, a depender da direção apontada pelos ventos nas redes sociais e aplicativos de mensagens.

 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.