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Criticar censura do STF é mais fácil que lutar contra censuras do cotidiano

Leonardo Sakamoto

2019-04-20T19:14:51

19/04/2019 14h51

A onda de críticas contra a censura imposta pelo Supremo Tribunal Federal à reportagem da revista Crusoé e do site O Antagonista, vindas da direita à esquerda, ajudaram a lembrar a importância de zelar pela liberdade de expressão. Que não é um direito absoluto, porque não existem direitos absolutos, mas não admite esse tipo de ataque arbitrário – ainda mais da corte responsável por resguardar os direitos fundamentais.

Para aproveitar que está todo mundo no pique do tema, gostaria de lembrar que garantir liberdade de expressão também é…

Não cometer assédio contra jornalistas nas redes sociais, jogando seus seguidores contra eles só porque discorda das reportagens.

Não proibir um preso de conceder entrevistas só porque discorda ideologicamente do que ele vai dizer.

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Não passar pano para milícias quando elas expulsam jornalistas que faziam seu serviço.

Não furar com bala de borracha olho de fotógrafo que cobre manifestação e, depois, tentar responsabilizá-lo na Justiça pelo ocorrido.

Não descontar em repórteres e cinegrafistas que estão cobrindo manifestações e protestos a insatisfação contra a linha editorial do veículo para o qual eles trabalham.

Não permitir que um repórter participe de uma coletiva porque não gosta de seu veículo de comunicação.

Não ligar para redação xingando jornalista por reportagens que trazem denúncias, pedindo cabeças para o dono do veículo.

Não ter dúvida de que a denúncia contra aquele amigo político ou empresário do dono do veículo de comunicação vai sair mesmo.

Não sofrer preconceito dos próprios colegas por trabalhar em um veículo alinhado a uma linha progressista ou conservadora ou pertencente à mídia tradicional ou independente.

Não ver seu texto tão alterado no conteúdo a ponto de ter que pedir para tirar seu nome por vergonha.

Não ser obrigado a defender igreja e chamar religiões de matriz africana de coisa do capeta.

Não ter que fazer matéria por encomenda.

Não impedir que se realize uma exposição artística porque não se compartilha da mesma visão de mundo.

Não linchar virtualmente uma pessoa por discordar do que escreveu até que desista de participar do debate público.

Não defender uma escola sem reflexão.

Não ameaçar de morte a diferença.

Não apoiar a ditadura militar.

Às vezes, a impressão é que "liberdade de expressão" é um conceito self-service: poucos de nós colocam tudo no prato, mas apenas a parte que nos convém.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.