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Ao atacar mais uma repórter, Bolsonaro reitera sua incapacidade de diálogo

Leonardo Sakamoto

2016-05-20T19:19:58

16/05/2019 19h58

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O presidente da República atacou a repórter Marina Dias, da Folha de S.Paulo, que lhe perguntou sobre os cortes no orçamento da educação em Dallas, nos Estados Unidos. Há pouco mais de dois meses, Bolsonaro havia atacado também outra repórter, do jornal O Estado de S.Paulo, jogando seus seguidores em redes sociais contra ambas.

Visivelmente irritado por conta das manifestações de estudantes e professores realizadas em todo o país, nesta quarta (15), ele criticou o uso de "corte" ao invés de "contingenciamento" – termo através do qual seu governo vem tentando justificar os bloqueios por prazo indeterminado de recursos que impedem instituições federais de ensino funcionarem conforme o planejado. Ou seja, cortes.

"Primeiro, você, da Folha de S.Paulo, tem que entrar de novo numa faculdade que presta e fazer um bom jornalismo. É isso que a Folha tem que fazer e não contratar qualquer uma ou qualquer um para ser jornalista, para ficar semeando a discórdia e perguntando besteira por aí e publicando coisas nojentas. É isso que vocês da Folha têm que fazer", afirmou. Ao fundo, uma claque batia palmas enquanto ele atacava a jornalista.

Depois, subiu um vídeo com a cena em suas redes sociais, o que incitou seus seguidores a assediarem a repórter.

O presidente não precisa gostar da cobertura de determinados jornais, revistas, sites, canais de rádio e de TV, do posicionamento de colunistas e blogueiros e discordar profundamente da pauta conduzida por um repórter. Mas precisa aprender a respeitá-los. Ou pelo menos fingir respeito o suficiente para garantir que a cobertura de seus atos públicos como presidente ocorra sem sobressaltos. O respeito aos jornalistas, sejam eles de veículos tradicionais ou alternativos, mídia grande ou pequena, liberal ou conservadora, segue sendo um dos pilares da democracia. Sem uma imprensa livre, os poderes político e econômico estariam bem à vontade para fazer o que desejassem.

Além disso, e não menos importante: jornalistas são trabalhadores e não devem ser vítimas de assédio ou violência no exercício de sua profissão.

A Associação Brasileiro de Jornalismo Investigativo (Abraji) divulgou uma nota repudiando o ocorrido. "Ao estimular um ambiente de confronto e intimidação contra jornalistas e veículos de mídia, Bolsonaro se afasta do compromisso democrático que assumiu ao tomar posse, e fica mais próximo dos governantes autoritários, de diversos matizes ideológicos, que buscam demonizar a imprensa por ver nela um obstáculo a seus projetos de poder."

Outros presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados, vereadores, da esquerda ou da direita, já atacaram jornalistas, exigiram suas demissões ou deportações e disseram o que um repórter devia ou não fazer. No caso de Bolsonaro, o que impressiona é que, em um pequeno espaço de tempo, foram dois ataques ferozes contra duas mulheres. Essa "coincidência" se encaixa no histórico de declarações misóginas e machistas do presidente, que chegou a dizer que não estupraria uma deputada federal "porque ela não merece".

Linchamento virtual

No dia 10 de março, Bolsonaro usou sua conta no Twitter para compartilhar informação falsa sobre uma repórter do jornal O Estado de S.Paulo.

Um site bolsonarista trouxe, naquele dia, uma postagem que atribuiu falsamente à jornalista Constança Rezende a declaração "a intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo". Não é possível encontrar essa frase, que está no título da publicação, no áudio de uma entrevista que havia sido dada por ela, em inglês, a um suposto estudante. O conteúdo teria sido, posteriormente, divulgado por um blogueiro francês, citado pelo site. Quando o conteúdo distorcido já circulava, via redes sociais, Bolsonaro bombou a informação, promovendo, na prática, um linchamento virtual presidencial da jornalista a seus milhões de seguidores no Twitter.

"Constança Rezende, do 'O Estado de SP' diz querer arruinar a vida de Flávio Bolsonaro e buscar o Impeachment do Presidente Jair Bolsonaro. Ela é filha de Chico Otavio, profissional do 'O Globo'. Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos." A inserção do nome do jornalista de O Globo, que tem coberto a relação entre milícias e o antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, tenta vender a tese de que existiria um complô contra o governo. O complô, contudo, é do próprio governo, que se sabota através de erros, barbeiragens, gafes e medidas que desrespeitam direitos frequentemente.

Um presidente da República não pode agir como uma criança birrenta ou um hater da internet que, insatisfeito com alguém, ataca o indivíduo de seu descontentamento. Não pode usar a posição privilegiada em que está para ir contra a integridade física e psicológica de qualquer cidadão, fazendo com que seus seguidores transformem em um inferno a vida de quem o desagrade.

Ações irresponsáveis como essas têm o objetivo de fomentar um estado de apreensão constante, fundamental para que a base do bolsonarismo mantenha-se coesa e orientada a permanecer nas guerras cultural e política. Bolsonaro precisa estar constantemente criando inimigos para manter de pé esse apoio. Ataques a jornalistas não se resumem a enxurradas de ameaças e agressões on-line, mas invadem a vida privada dos profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando filhos e pais. E a perseguição é sempre mais violenta quando o alvo são mulheres, quando o ataque também ganha cunho sexual.

Todo esse processo de ataque a profissionais de imprensa se assemelha à tortura – instrumento de trabalho pelo finado coronel Brilhante Ustra, assassino da ditadura militar, apontado como herói por Bolsonaro. Não para que o jornalista em questão seja punido pelo que fez, mas para que, traumatizado, nunca mais tenha coragem de tratar do candidato novamente. Com isso, o presidente vai torturando a democracia, reduzindo-a cotidianamente.

Em tempo: diante de um ataque contra uma colega ou um colega de profissão, é nosso dever como jornalistas expor indignação. Isso não é corporativismo, mas respeito à democracia. Todo silêncio, nesses casos, passa a impressão de um ruidoso consentimento.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.