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Racismo estrutural: Desemprego entre negros é maior que a média nacional

Leonardo Sakamoto

16/05/2019 13h53

Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

A taxa de desemprego entre os que se declararam brancos (10,2%) ficou abaixo da média nacional (12,7%) no primeiro trimestre deste ano. Enquanto isso, entre as taxas entre pretos (16%) e pardos (14,5%) – categorias usadas pelo IBGE que dizem respeito à população negra – ficaram acima. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, divulgados nesta quinta (16).

Isso lembra o óbvio, mas que deve ser recuperado sempre que possível: a crise econômica é especialmente dura contra a população negra por esse grupo ser o mais vulnerável, fruto de uma inclusão socioeconômica que nunca se concretizou desde a abolição. Por conta disso, negros contam com uma grande participação de trabalhadores em atividades com baixa qualificação profissional e sentiram especialmente o fechamento de vagas para operários da construção civil e em indústrias.

De acordo com outra PNAD, de dezembro do ano passado, 13,6% dos negros estavam entre os 10% da população com os menores rendimentos. E apenas 4,7% deles estavam entre os 10% com os maiores. Entre os brancos, 5,5% faziam parte dos 10% com menores rendimentos e 16,4% entre os 10% com maiores.

Nós, indivíduos, mas também a sociedade e o Estado reproduzimos as condições para que a desigualdade racial e étnica continue se perpetuando, em um processo não pontual, mas estrutural. Há mais números para demonstra as consequências disso: dados da PNAD/IBGE divulgados em dezembro do ano passado, mostram que um trabalhador branco recebeu, em média, 72,5% a mais do que um profissional preto ou pardo em 2017. O rendimento médio dos brancos ficou em R$ 2615,00, enquanto o dos negros foi de R$ 1516,00

O salário por hora dos brancos superava o dos negros em todos os níveis de escolaridade. A maior diferença estava em quem tem formação com nível superior: R$ 31,90 por hora para os brancos contra R$ 22,30 por hora para os negros. E os trabalhadores negros estavam mais inseridos entre as categorias com menores rendimentos médios: agropecuárias (60,8%), construção (63,0%) e serviços domésticos (65,9%).

O Brasil nunca conseguiu inserir socialmente a população negra. Os descendentes daqueles trabalhadores escravizados do final do século 19 continuaram a ser tratados como cidadãos de segunda categoria, sofrendo todo tipo de discriminação, recebendo bem menos que os brancos pela mesma função, enfrentando as piores condições de trabalho – isso quando não são mortos por balas de traficantes ou milicianos ou executados por policiais ou militares nas periferias das grandes cidades simplesmente por ter a "cor errada".

Para além de ajudar a abrir postos de trabalho para 13,4 milhões de desempregados e atuar para garantir que outros 28,3 milhões, cuja força de trabalho está subutilizada, consigam mais serviço, o governo federal tem que aprofundar as políticas a fim de melhorar as condições para a população negra.

O que inclui não apenas educação profissional e acesso ao mercado de trabalho, mas garantir saúde e segurança a fim de limar a vergonhosa diferença de oportunidades relacionada à cor de pele temos por aqui.

O problema é que o presidente da República acha que a injustiça não são esses dados do IBGE, mas as ações afirmativas na forma de cotas raciais. E defende a meritocracia, como se fosse possível falar sobre ela em uma sociedade na qual as pessoas contam com condições totalmente diferentes no ponto de partida de sua jornada pessoal – o que, não raro, ajuda a definir o que acontecerá em toda sua existência inteira.

Em entrevista enquanto candidato, no ano passado, questionado sobre a dívida que a sociedade tem com negros e negras por conta dessa abolição mal feita e, consequentemente, pela perpetuação das desigualdades e injustiças sociais, Bolsonaro respondeu: "Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.