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In Bolsonaro We Trust: Contra crise, Moro contrai dívida política com chefe

Leonardo Sakamoto

2013-06-20T19:15:33

13/06/2019 15h33

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Para a parcela antipetista e o naco bolsonarista da população, as revelações dos diálogos em que Sérgio Moro orienta a força tarefa da Lava Jato não afetam sua admiração pelo então juiz federal. Primeiro, porque ele já era visto como o "chefe" da Lava Jato, mesmo que a função de um juiz seja a de julgar, não de vingar. Além disso, o fim (Lula preso, PT fora do poder) justificaria os meios (passar por cima da lei) – mesmo que a razão pela qual queiram Lula preso é de que ele teria desrespeitado a lei.

Se há a possibilidade disso bloquear politicamente a indicação de um Moro enfraquecido ao Supremo Tribunal Federal ou mesmo levá-lo a sair do governo, a depender do que for revelado de agora em diante, outro efeito colateral também pode ser empurrá-lo para a disputa presidencial em 2022 ao invés de 2026, caso fique sem alternativas.

Pesquisa da empresa Atlas Político, entre os dias 10 e 12 deste mês, ou seja, após o furdúncio já estar estabelecido, mostra que 50,4% dos entrevistados consideram a imagem de Moro positiva – frente a 60% no mês passado. Segundo o levantamento, ele se manteve como o político mais popular do Brasil, agora tecnicamente empatado com Bolsonaro, com 50,3%. Vale ressaltar que o governo tem 30,4% de bom e ótimo e 37,4% de ruim e péssimo.

Em abril, de acordo com a última pesquisa Datafolha disponível, enquanto 32% consideravam o governo Jair Bolsonaro como ótimo ou bom, Moro alcançava 59% de imagem positiva.

O ex-juiz que condenou Lula aceitou ser avalista e fiador do governo, o que inclui ser usado para "lavagem de marca" e "vacina contra denúncias de corrupção". Ele diz que o objetivo é implementar seu projeto de combate à corrupção e à criminalidade, mas há também uma troca. A cadeira pode ser um trampolim para o Supremo Tribunal Federal ou mesmo ao Palácio do Planalto. O que ele não imaginava é que deixar a magistratura também seria um atalho para o cadafalso.

As revelações arranharam a imagem de Moro junto a uma parte da população, mas está longe de podermos afirmar que o grosso da sociedade lhe deu às costas. Sem contar que muitos não repudiam os métodos ilegais adotados na condução de um processo desde que concordem com a condenação ou absolvição. Em um país que frequentemente passa pano para torturas em interrogatórios e para a execução de pobres nas periferias em nome da "segurança", isso não deveria surpreender.

A condenação de Lula e de outros levados à cadeia pela Lava Jato podem até ser revistas diante de uma suspeição a ser decidida pelo Supremo Tribunal Federal. Mas dificilmente isso será aceito como prova para punir a ele ou aos procuradores.

Não se sabe o que ainda virá – a revelação de áudios e vídeos é sempre mais impactante do que de textos – e, ao que tudo indica, eles devem aparecer. Dependendo do que surja, Moro pode ser levado a deixar o cargo ou permanecer nele com poder reduzido. Hoje, enfrentaria resistência no Senado Federal para a confirmação de seu nome para uma das duas vagas que devem abrir no STF durante o atual governo. Mas amanhã, quem sabe. Os números da segurança pública sobre 2018 devem vir melhores por conta da redução nas mortes na guerra de facções. Não deve chegar nem perto dos 65 mil homicídios do ano anterior, o pior de nossa história recente. Mesmo que não tenham mérito algum nisso, Moro e Bolsonaro vão tentar capitalizar, por exemplo.

O ministro tem popularidade e continua com o endosso de ser um "herói nacional" para uma parcela da população, imagem construída com a ajuda de mídias que foram parceiras da Lava Jato. E, apesar de ocupar um cargo político e das gravações provarem que ele fez politicagem por anos, vende-se como um outsider. Em quase dois meses, reuniu quase um milhão de seguidores no Twitter. Mesmo descontando robôs e contas falsas, ainda assim é muita coisa até porque medições mostram que ele já causava mas impacto dos que Os Bolsonaros, antes dos vazamentos.

A política não é uma arena fácil, a inabilidade com a qual trata o Congresso Nacional mostra que ele tem muito a aprender. Mas como me disse alguém que transitava na alta cúpula brasiliense, Moro agora está no árido frio e descampado da política ao invés da casinha quentinha do Judiciário. Está exposto, sem a proteção de seus ex-pares. E antes das revelações, o ministro já se contorcia para administrar sua pasta sem a interferência de um presidente da República que parece não respeitar sua opinião, querendo-o a seu lado para usá-lo e contê-lo. Imagine agora.

Com a revelação da quinta reportagem do Intercept Brasil, mostrando mais conversas entre Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol, via Telegram, sintetizada na expressão "In Fux We Trust", um profissional que já elegeu governador e atuou em campanha presidencial comentou com o blog sobre o possível efeito eleitoral-colateral: "Moro pode ser o candidato dos escombros bolsonaristas porque é o único do condomínio da extrema direita conservadora a rivalizar com o próprio Bolsonaro em popularidade". Segundo ele, o ex-juiz pode ser empurrado para isso se a ele for negado o STF.

Se o governo Bolsonaro mantiver o Brasil na reta do crescimento econômico pífio e continuar salpicando casos de corrupção, como laranjais e imóveis familiares, e a popularidade de Moro sobreviver às revelações, isso pode abrir caminho para ele em 2022 e não mais em 2026, como muitos especulavam. O efeito colateral pode ser uma queda para cima.

O futuro de Moro depende também de outro fator: seu chefe. Bolsonaro não deve suportar ver um membro de sua equipe maior do que ele próprio, principalmente um que pode tomar seu lugar. Mas precisa mantê-lo por perto. Nesse sentido, os vazamentos ajudaram o monarca a reforçar a seu cavaleiro mais ilustre que este lhe deve vassalagem em troca de proteção e apoio. A cena dos dois com camisetas do Flamengo em um jogo, nesta quarta (12), é lamentável, mas cumpre um papel. E custa caro a Moro. Pois isso está longe de ser solidariedade. É Bolsonaro fazendo política do seu jeito.

Em tempo: Ao ser questionado se considera normal um juiz e um procurador conversarem sobre uma investigação em curso, Bolsonaro adotou a resposta infanto-juvenil do tipo "mas o Luizinho fez coisa pior". Escapando de tratar o mérito, perguntou se o normal é "conversar com doleiros". No registro da Folha de S.Paulo: "Normal é conversa com doleiro, com bandidos, com corruptos, isso é normal? Nós estamos unidos do lado de cá para derrotar isso daí". 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.