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Desmatamento é o vexame internacional. "Aerococa" é só um constrangimento

Leonardo Sakamoto

27/06/2019 08h29

Foto: Daniel Beltra/Greenpeace

Um avião da comitiva presidencial ser usado para transportar 39 quilos de cocaína para a Espanha é um constrangimento internacional. Pois lança uma dúvida no ar: se o governo não controla nem a equipe que garante apoio ao principal mandatário do país, conseguirá executar um plano de voo mais complexo, como, por exemplo, gerar empregos?

Mas o fato representa apenas isso, um constrangimento. Vexame mesmo, daqueles em que o Brasil não é motivo de piada e meme, mas de desprezo ou pena, é o fato de abandonarmos a construção da posição de liderança no combate às mudanças climáticas para adotarmos um comportamento medieval e negacionista. Muitas vezes adotando argumentos como "se eles levaram o mundo ao precipício, nós temos o direito de empurrá-lo para a vala".

Vexame é o Museu de História Natural, de Nova York, que hospedaria um evento que premiaria Bolsonaro como a "Personalidade do Ano" pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, ter voltado atrás, devido às posições do presidente sobre o meio ambiente, o desenvolvimento sustentável e as mudanças climáticas – que vão na contramão daquilo que é defendido pela instituição (e pelo bom senso). Vexame é Bolsonaro ter ameaçado sair do Acordo de Paris, que trata da redução da emissão de gases de efeito estufa, por questões ideológicas.

Bolsonaro vem tentando mudar o Código Florestal para afrouxar ainda mais as regras ambientais; reduziu a participação da sociedade civil em conselhos dessa área; criou uma instância para conciliação de multas, o que reduz a pressão para evitar danos ao meio ambiente; abriu a porteira dos agrotóxicos, autorizando dezenas sem que fossem feitas análises consistentes do impacto das interações entre eles para o meio e as pessoas; criou entraves para o combate ao desmatamento, para a alegria de madeireiros e do naco de produtores rurais que lucram operando à margem da lei.

Transbordam provas de que a ação humana tem levado à alteração irreversível do clima no planeta. O ministro das Relações Exteriores, contudo, prefere não acreditar nisso. Acredita que a questão é um "dogma marxista" e aponta para uma espécie de "alarmismo climático".

O consórcio Climate Action Tracker, formado por cientistas e organizações de pesquisa, para monitorar o progresso na estabilização do clima, trouxe essas críticas ao governo brasileiro em seu último relatório, divulgado no dia 19. "Em pouco mais de 100 dias no governo, o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, levou seu país para mais longe da ação climática e do cumprimento de suas metas no Acordo de Paris", afirma o consórcio.

Muitos negacionistas usam discursos de que a economia não pode pagar pelo custo das necessárias mudanças no modelo de desenvolvimento pela qual passa a solução. Mas nossa matriz energética já é vista internacionalmente como mais limpa (no que pese os profundos impactos negativos da construção de hidrelétricas). Por isso, nosso esforço de cumprimento do Acordo de Paris, apesar de significativo, é mais baseado no combate ao desmatamento ilegal. O que é, já em si, positivo e não passa por reformular e fechar bilhões de dólares em usinas de carvão – como é o caso de alguns outros países.

Além disso, o acordo valoriza o sequestro de carbono, que é um serviço que o Brasil pode suprir, e com isso ganhar muito, seja via reflorestamento, seja via a produção de biocombustíveis e outras fontes renováveis de energia, em que temos grandes vantagens comparativas. Ou seja, além de queimar florestas, vamos queimar dinheiro. Dólares, euros, yuans.

É possível crescer economicamente, mas com responsabilidade. Respeitando o zoneamento econômico, que diz o que pode e o que não pode se produzido em uma área; realizando uma regularização fundiária geral e confiscando terras roubadas do Estado; executando uma reforma agrária com a garantia de que os recursos emprestados pelos governos às pequenas propriedades – responsáveis por garantir o alimento na mesa dos brasileiros – sejam, pelo menos, da mesma monta que os das grandes; preservando os direitos das populações tradicionais, cujas áreas possuem as mais altas taxas de conservação do país; mantendo os grandes proprietários rurais longe da política fundiária e indígena. Ah, e sem usar trabalho escravo, nem infantil.

No dia 8 de maio, sete ex-ministros do Meio Ambiente, dos governos Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma e Temer divulgaram um manifesto criticando o desmonte na governança socioambiental por Bolsonaro e alertando sobre os impactos disso. "Estamos diante de um risco real de aumento descontrolado do desmatamento na Amazônia. Os frequentes sinais contraditórios no combate ao crime ambiental podem transmitir a ideia de que o desmatamento é essencial para o sucesso da agropecuária no Brasil. A ciência e a própria história política recente do país demonstram cabalmente que isso é uma falácia e um erro que custará muito caro a todos nós", afirma o manifesto.

Bolsonaro pode falar grosso com outros mandatários que tem alertado para um retrocesso galopante na política ambiental do Brasil. Está em seu direito. Mas, ao final do dia, a questão que precisa ser respondida é se o governo estará disposto a combater as ameaças reais que colocam em risco nosso planeta ou zombará delas enquanto queima dinheiro de exportações, que ficarão bloqueadas em portos pelo mundo, acusadas de crimes ambientais e sociais. Ou seja, Bolsonaro não precisa acreditar em mudanças climáticas, basta acreditar em boicote.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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