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Mais racional que Bolsonaro, 68% quer multa para quem não usa cadeirinha

Leonardo Sakamoto

15/07/2019 04h48

Criança que estava em cadeirinha no acidente que destruiu o carro não se feriu — Foto: Reprodução/TV TEM

Pesquisa Datafolha aponta que 68% dos brasileiros são contra o fim da multa para quem transporta crianças sem cadeirinhas em veículos, uma das propostas de Jair Bolsonaro para melhorar a vida no trânsito. Outros 30% se colocam a favor.

Para a parcela racional da sociedade, que acredita em pesquisas de opinião e outros estudos com embasamento científico, o número não é surpreendente. Até porque há farta quantidade de registros mostrando que o uso do equipamento protege crianças pequenas e reduz o número de fatalidades em acidentes – dados das Nações Unidas, por exemplo, apontam diminuição de 60% nas mortes.

Tanto quanto a percepção de que obrigatoriedade do cinto de segurança foi um ganho civilizacional, mas também aos cofres públicos – por conta da redução dos gastos com feridos e inválidos. De acordo com dados da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), R$ 52 bilhões são perdidos com acidentes de trânsito todos os anos, com cerca de 40 mil mortos e 160 mil pessoas incapacitadas temporariamente ou em definitivo.

Para a parcela que não acredita na ciência, contudo, esses 68% são uma mentira deslavada criada por um instituto comunolulopetista com o objetivo de manipular a população.

Não admira, portanto, que estejam alinhados a um governo em que membros veem erro na metodologia do cálculo de desemprego do IBGE, como afirmou o próprio Bolsonaro. Ou que ache que as taxas de desmatamento da Amazônia são artificialmente infladas, como opinou o general Augusto Heleno. Ou que não confie em pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz, um das mais importantes do mundo, por elas não confirmarem sua visão das coisas, como o ministro Osmar Terra. Ou afirmar que a temperatura global aumentou porque estações de medição ficavam no "mato" e hoje ficam no "asfalto", como explicou o chanceler Ernesto Araújo. Ou menosprezar a importância do Censo, como fez o ministro Paulo Guedes.

Quando Bolsonaro apresentou projeto para o trânsito, este blog conversou com um profissional do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) que afirmou que a mudança vai piorar, e muito, a qualidade do atendimento de emergência: "Já atendi criança arremessada de um carro em um acidente porque estava sem cadeirinha. Ela voou, literalmente. Em um capotamento, não tem a menor chance de sobrevivência. Em outro caso, uma mãe que levava o filho no banco de trás, também sem cadeirinha, bateu em um caminhão e ele teve rompimento do pâncreas. Acabei de atender um caso de uma menina de 16 anos que pegou carona voltando de uma balada e morreu no local do acidente. Havia seis pessoas no carro e, portanto, ela estava sem cinto. Como seria o caso de uma cadeirinha, com uma criança solta no banco de trás", relata o profissional do Samu.

A pesquisa também apontou que 67% dos brasileiros são contra a retirada de radares de velocidades nas rodovias, outro ponto defendido por Bolsonaro. A Folha de S.Paulo havia feito um levantamento, mostrando que houve redução média de 21,7% no número de mortes nos quilômetros de rodovias federais com radares. Claro que para quem acha que estatísticas são a palavra do demônio, isso nada significa nada.

A obrigatoriedade da cadeirinha para crianças pequenas não é derivada de uma suposta "indústria da multa" que quer "tirar o prazer em dirigir", como afirma Bolsonaro. Tampouco é fruto do "politicamente correto". Mas diz respeito à preservação da vida e à redução de gastos com saúde pública, assistência social e Previdência Social, comprovado por estatísticas. Se o governo não se importa nem com a vida, nem com os cofres públicos, nem com os fatos, que o Congresso Nacional – que votará o projeto – lembre-se que a maioria da população é contra a mudança. E talvez considerando o cálculo eleitoral, garanta que a proposta vá para o arquivo morto de ideias sem sentido defendidas pelo presidente da República.

Arquivo que, se vivermos em uma democracia, aumentará a cada dia.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.