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Vaidade de Moro encara críticas à Lava Jato como defesa da corrupção

Leonardo Sakamoto

16/07/2019 16h51

Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil

"Sou grande defensor da liberdade de imprensa, mas essa campanha contra a Lava Jato e a favor da corrupção está beirando o ridículo", tuitou o ministro da Justiça Sérgio Moro nesta terça (16). "Continuem, mas convém um pouco de reflexão para não se desmoralizarem. Se houver algo sério e autêntico, publiquem por gentileza."

Denúncias e críticas ao comportamento de procuradores da operação Lava Jato e do então juiz federal Sérgio Moro significam defesa da corrupção apenas para pessoas que pensam de forma binária, que reduz tudo a um Brasil do ame-o ou deixe-o. Ou para o discurso personalista, que confunde a si mesmo com um princípio e avalia todos seus atos como ações infalíveis voltadas à efetivação desse princípio.

Isso está em consonância com o "Eu vejo, eu ouço", que Moro tuitou no dia 30 de junho, durante os  protestos em apoio a ele e à força tarefa. A declaração faz referência à passagem do livro de Êxodo, em que diz que Deus estava acompanhando o sofrimento dos judeus no Egito. Que, por um acaso, era seu povo escolhido entre todos na Terra.

Moro e a Lava Jato não detém o monopólio do discurso anticorrupção e não são os únicos caminhos para o combate a esse crime, haja visto o trabalho que vem sendo realizado por outros procuradores, juízes, policiais, gestores públicos e pela sociedade civil. Mas como já dizia o livro de Eclesiastes, no capítulo 1, versículo 2, em um trecho que deveria ser ensinado desde a pré-escola: "vaidade de vaidades, tudo é vaidade".

Nutro certa curiosidade por pessoas que demonstram um pensamento binário. Para elas, o mundo se divide em dois. Se você não apoia as políticas violentas de vários governos contra as drogas, é um usuário de crack que rouba a mãe pelo vício. Se defende prioridade para políticas voltadas aos mais pobres, não pode ter um smartphone. Acha que um partido político representa toda a maldade no mundo ou acredita que da boca de seus líderes fluam rios de leite e mel.

A verdade é que podemos afirmar que houve excesso, injustiça, partidarismo, parcialidade e ilegalidade na Lava Jato e, ao mesmo tempo, considerar que a corrupção deve ser combatida e que políticos, de esquerda ou direita, e empresários, grandes e pequenos, que cometeram crimes devem ser punidos.

Podemos criticar a atuação da polícia militar em operações realizadas em comunidades pobres, denunciar o envolvimento de policiais em chacinas e milícias e afirmar que sua formação precisa ser alterada e sua estrutura desmilitarizada. E isso não significa a defesa do assassinato de trabalhadores da segurança pública, nem a defesa de que uma polícia não deva existir, nem que queira bandidos impunes.

Podemos achar um absurdo a pornográfica concentração de riqueza no Brasil e dizer que a desigualdade social é um problema tão grave quanto a pobreza porque constrói a percepção de que há cidadãos de primeira classe, com direitos, e de segunda, com deveres, e ao – mesmo tempo – não lutar pela instalação imediata de uma regime comunista.

Podemos afirmar que houve avanços em áreas como educação em Cuba e, ao mesmo tempo, reconhecer a violência bizarra com a qual o regime trata seus opositores ou a falta de liberdade de expressão na ilha. Da mesma forma, podemos ser críticos a parte da elite venezuelana e seu comportamento golpista e, ao mesmo tempo, afirmar que o governo de Maduro é autoritário, antidemocrático e ditatorial. Você pode adorar muita coisa nos Estados Unidos, da música à produção intelectual, passando pelas pessoas e cidades, e repudiar políticas de seu governo, seu presidente e a ideologia de parte de sua elite econômica.

Podemos. Mas nem sempre fazemos isso.

Porque achamos que todo adversário é um inimigo. Porque acreditamos que mais importante que construir um país é executar vinganças. Porque chamamos de "verdade" apenas aquilo com o qual já concordamos e de "mentira" tudo do qual discordamos. E, com base nisso, criamos sua noção de "bem" e de "mal", excluindo-nos sempre deste último, e elegendo "herói" os "nossos" e, ao dos outros, "vilão". E vamos à guerra, que consideramos santa em nome daquilo que vemos no espelho.

A melhor forma de contestar algo não é distorcer o conteúdo do discurso, como fez Moro, mas apresentar argumentos razoáveis para contrapô-lo. E é isso que está faltando ao ministro da Justiça neste momento: argumentos razoáveis.

O problema é que a população alimentada pelo pensamento binário de seus líderes vai criando casulos para si mesma – afinal, a ignorância é um lugar quentinho. Sem perceber que, mais dia, menos dia, dele brotará não um ser que pode voar livre carregado pelas asas da razão, mas um monstro que rastejará pesado por ter se empanturrado de preconceito.

É triste, mas quando algumas pessoas acordarem para tudo isso, será noite.

Em tempo: Não sei se foi a intenção de Moro, mas o ridículo tem morado sempre no uso do "mas" no discurso usado para justificar o injustificável.

Pois não sou racista, "mas tenho medo desses escurinhos mal encarados que pedem dinheiro no semáforo"; não sou homofóbico, "mas os gays podiam não se beijar em público"; não sou machista, "mas se a mulher estava vestida daquele jeito é porque estava pedindo"; não sou elitista, "mas mendigos deveriam ir para a periferia onde não incomodariam ninguém"; não sou preconceituoso, "mas índio tem mais terra do que precisa, pois não trabalha"; não sou injusto, "mas trabalhador honesto não faz greve"; não sou violento, "mas esse pessoal que fala de direitos humanos deveria levar uma surra para aprender". O "mas" é, não raro, o lugar onde o diabo mais gosta de se esconder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.