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Desmatamento: Bolsonaro não combate a doença e culpa termômetro pela febre

Leonardo Sakamoto

21/07/2019 21h35

Foto: Luis Moura/Estadão

Após dizer que tem a "convicção" de que dados de desmatamento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais são "mentirosos"; acusar Ricardo Galvão, chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, de estar "a serviço de alguma ONG"; ouvir resposta do próprio Galvão, afirmando que o presidente da República tomou uma atitude "covarde" e que espera a repetição da acusação olho no olho, Bolsonaro refugou.

Disse que não vai conversar com ele e se justificou dizendo que estava preocupado com dados que podem "prejudicar o país", ser "propaganda negativa" ao Brasil no exterior. E que se Galvão tivesse identificado dados alarmantes, deveria ter procurado seus superiores para avisar por questão de "responsabilidade" e "patriotismo".

Bolsonaro é um motorista que conduz o governo por uma estrada esburacada e, ao invés de usar toda informação possível para uma travessia tranquila, grita que as placas sinalizando "pista escorregadia" são fake news e acelera. Após um esperado acidente, lamenta o acidente dizendo que nunca desconfiou das placas ou as culpa por uma suposta falta de clareza – e critica quem diz que ele não sabe dirigir. Isso seria engraçado se nós não fossemos passageiros desse carro, que não conta com cinto de segurança e, claro, nem cadeirinha de bebê.

"Em ciência, os dados podem ser questionados, porém sempre com argumentos científicos sólidos, e não por motivações de caráter ideológico, político ou de qualquer outra natureza. Desmerecer instituições científicas da qualificação do INPE gera uma imagem negativa do País e da ciência que é aqui realizada", afirma manifesto do conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), divulgado neste domingo (21).

Quem rebaixa o país no exterior é o próprio governo Bolsonaro ao rejeitar a ciência no desenvolvimento e execução de políticas públicas quando ela não confirma com seus dados, estatísticas e pesquisas a "convicção" dos membros do governo.

Como já disse aqui, o presidente da República afirma que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE está errada porque não concorda com ela; o general Augusto Heleno diz que as taxa de desmatamento são infladas; o ministro Osmar Terra não confia em pesquisas da Fiocruz, instituição de renome internacional; o chanceler Ernesto Araújo não acredita em mudanças climáticas e diz que estações de medição de temperatura que estavam no "mato" hoje estariam no "asfalto"; Paulo Guedes menospreza a importância do Censo.

Ser patriota não é esconder números para evitar críticas internacionais, mas garantir que o Estado atue de forma firme na proteção da qualidade de vida desta e das futuras gerações através de um desenvolvimento minimamente sustentável. Porque isso não visa a agradar estrangeiros, mas garantir a viabilidade da existência de por aqui. Se mantiver uma política de terra arrasada, que dificulta a fiscalização ambiental, facilita a poluição de rios, libera agrotóxicos sem suficiente análise e isenta desmatadores, não vai haver tapete grande o suficiente para jogar a realidade suja para baixo dele no Brasil.

No final do dia, o presidente não precisa acreditar em mudanças climáticas. Precisa entender o que significa "dumping social" e "concorrência desleal" praticados com exploração do meio ambiente e de trabalhadores e a "perda de mercado" e "boicote". Ainda mais agora após a assinatura do acordo com a União Europeia e suas condicionantes. Ao invés de atacar os termômetros, melhor faria o governo se atuasse junto às causas das febres. Até porque chamar o desmatamento por outro nome não fará com que eles deixem de existir.

Governos pouco afeitos à democracia, quando colocados contra a parede, tendem a reduzir a transparência de informações às quais a sociedade tem acesso a fim de adaptar a realidade à sua narrativa.

Esperemos que, se a realidade se mantiver cabeça-dura e continuar indicando o aumento no desmatamento, o governo Bolsonaro não adote métodos do açougueiro da ditadura, coronel Brilhante Ustra, e torture os números até que entreguem o que ele deseja ouvir.

Em tempo: Durante a última ditadura militar, muitas das pessoas que se dizem de esquerda e lutavam contra a violência do regime pediram e receberam apoio de organizações internacionais de direitos humanos para denunciar a falta de liberdade, os crimes ambientais, a execuções de lideranças e trabalhadores, a escravização. Sem esse apoio, alguns deles nem estariam aqui hoje. Mas quando alçaram ao poder, a necessária solidariedade internacional (uma vez que a defesa da dignidade humana não deve conhecer fronteiras) foi vista como ameaça contra a soberania brasileira e tratada como tal. Não deixa de ser irônico, portanto, que o governo do PSL aprofunde uma estratégia que foi usada por setores do PT.

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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