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Bolsonaro deveria sair do armário e assumir orgulho por desmatar a Amazônia

Leonardo Sakamoto

19/08/2019 12h30

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

A área mais "competente" da atual gestão federal, sem sombra de dúvida, é a que trata de políticas para o Meio Ambiente. Em um curto espaço de tempo, conseguiu alcançar seus objetivos (enfraquecendo os órgãos e sistemas de fiscalização e monitoramento) e trazer grande visibilidade internacional ao Brasil (que corre o risco de se tornar um pária global por ir na contramão deste momento da História).

O naco anacrônico do agronegócio celebra a sensação de liberdade para derrubar e queimar vegetação nativa, expulsar e aterrorizar indígenas e outras populações tradicionais, manter o ciclo da grilagem de terras e da zorra fundiária e cometer concorrência desleal e dumping socioambiental, dando uma rasteira nos empresários que agem dentro da lei.

Diante disso, Bolsonaro deveria ter orgulho de sua criatura e assumi-la publicamente. Ao invés de chamar dados de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de mentirosos e acusar cientistas de manipularem informações, seria mais bonito ver o presidente reconhecendo para o Brasil e o mundo que o país operou um milagre, retrocedendo 50 anos em alguns meses, ao adotar políticas ambientais da época da ditadura militar.

Até os ataques aos críticos dessa política de terra arrasada é a mesma ladainha rasa, conspiracionista e paranóica: antipatrióticos, que não amam o país, agentes de interesses externos. E enquanto denuncia uma suposta trama internacional, o próprio presidente sugere "abrir para Donald Trump explorar a região amazônica em parceria".

Bolsonaro deveria sair do armário e gritar a plenos pulmões "sim, nós desmatamos mesmo". Não creio que ele tivesse pudores em dizer isso uma vez que não corou ao afirmar "Pretendo beneficiar filho meu, sim", ao tratar da indicação do deputado federal Eduardo Bolsonaro ao cargo de embaixador em Washington DC. E não piscou ao dizer "Eu vou negar o helicóptero a ir para lá e mandar ir de carro?", ao justificar que uma aeronave das Forças Aéreas serviu como bonde para o casamento de seu filho. 

O governo sabe que, se não criar uma narrativa para esconder a política da destruição, vai expor o nosso país a retaliações comerciais de países que já assinalaram a imposição de "tarifas climáticas" a quem não estiver cumprindo o Acordo de Paris. A soja, matéria-prima de óleos, rações e presente em boa parte dos alimentos industrializados e que é um dos principais itens de nossa pauta de exportação, pode sentir os efeitos disso. Boa parte de sua produção encontra-se na Amazônia Legal e no Cerrado. Isso sem falar da produção de carne bovina.

Nossa matriz energética já é vista internacionalmente como mais limpa (no que pese os profundos impactos negativos da construção de hidrelétricas). Por isso, nosso esforço de cumprimento do acordo, apesar de significativo, é mais baseado no combate ao desmatamento ilegal. O que é, já em si, positivo e não passa por reformular e fechar bilhões de dólares em usinas de carvão – como é o caso de alguns outros países. Além disso, o acordo valoriza o sequestro de carbono, que é um serviço que o Brasil pode suprir, e com isso ganhar muito, seja via reflorestamento, seja via a produção de biocombustíveis e outras fontes renováveis de energia, em que temos grandes vantagens comparativas. Ou seja, além de queimar florestas, vamos queimar dinheiro. Dólares, euros, yuans.

Claro que há interesses econômicos estrangeiros de quem deseja usar a situação para alavancar o seu próprio protecionismo. Mas a verdade é que o Estado brasileiro permitiu que a exploração do meio ambiente e do ser humano, como o trabalho escravo, acontecesse. Ao invés de criar narrativas para fantasiar a realidade, deveríamos continuar fazendo nossa lição de casa (e há muito a fazer) e mostrar o resultado ao mundo. O que é, ao mesmo tempo, a melhor vacina contra barreiras sob justificativas ambientais e trabalhistas e uma forma de ganhar dinheiro.

O medo de perder mercados diante do comportamento predatório produz uma retórica covarde – que nega a maior conquista de Bolsonaro até agora, e diz que o país continua protegendo o meio ambiente e caminhando na direção de um desenvolvimento sustentável. É como se, alguém coberto de estrume (para aplicar um termo amplamente usado na retórica presidencial) chamasse de produtor de fake news quem relatasse a cena e atestassem que o cheiro, na verdade, é de lavanda.

O governo pensa que, com isso, age de forma estratégica. Na verdade, diante de um mundo que vê a Amazônia arder em chamas em tempo real, está sendo apenas ridículo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.