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Pilhagem da Amazônia mostra falso patriotismo de Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

26/08/2019 19h29

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O governo Bolsonaro não é o primeiro a facilitar a dilapidação do bioma amazônico, um dos maiores patrimônios do país, mas certamente tem se mostrado um dos mais competentes. Em oito meses, desautorizou e enfraqueceu a ação da fiscalização ambiental, deu as costas a projetos de desenvolvimento sustentável, atacou instituições e organizações que atuam no monitoramento da devastação, desprezou o conhecimento científico sobre a região, relativizou os direitos dos povos indígenas e demais populações tradicionais, excitou madeireiros, pecuaristas e garimpeiros, dando a eles a certeza da impunidade.

Tudo isso acelerou a curva de desmatamento e degradação da Amazônia, o que chamou a atenção do mundo. Hoje, devido aos protestos em vários países, o governo reclama de um complô internacional contra a soberania brasileira sobre a floresta. Apela ao patriotismo para encobrir a sua própria falta de patriotismo, pois é cúmplice em uma pilhagem que vem sendo realizada das riquezas da região.

O patrimônio da Amazônia – que pertence a toda população brasileira e deveria ser explorado de forma racional em benefício da atual e das futuras gerações – vem sendo saqueado por madeireiros, pecuaristas, garimpeiros e grileiros e seus compradores brasileiros e estrangeiros. O governo não conta, mas a região já está integrada ao capitalismo global. Ou seja, já foi "internacionalizada". 

Não a hipótese tosca levantada por Emmanuel Macron, nesta segunda (26), de um santuário do planeta. Mas por estar conectada à economia global desde a ditadura militar. De acordo com demandas de outras regiões do país ou do exterior, recursos naturais e energia fluem para fora da Amazônia nos porões de navios, através de caminhões e aviões, em linhas de transmissão – o que não significou, necessariamente, melhora na qualidade de vida de populações tradicionais, camponeses e trabalhadores rurais. Pelo contrário, tem deixado um rastro de desmatamento, assassinato de indígenas, poluição de rios e igarapés, expulsões de ribeirinhos e muito trabalho escravo.

Apenas cabeças tacanhas olham para a Amazônia e veem um monte de madeira, minério e terra. Essas cabeças limitadas podem fazer muito dinheiro agindo como nuvem de gafanhotos, mas ainda assim o montante é menor do que poderíamos ganhar coletivamente se explorássemos a região de forma sustentável. O que inclui pesquisar uma biodiversidade que pode esconder medicamentos e produtos ainda desconhecidos da humanidade. Intensificar a produtividade nas áreas já abertas e apoiar projetos desenvolvidos pelas próprias comunidades. E ganhar com serviços ambientais, uma vez que a floresta de pé imobiliza bilhões de toneladas de carbono que, se forem para a atmosfera, tornarão nossa vida um inferno. E é responsável por ajudar a regular a temperatura do planeta e as chuvas no Brasil.

Qual a melhor demonstração de respeito pelo país? Vestir-se de verde e amarelo e se enrolar em uma bandeira enquanto canta o Hino Nacional em prantos? Exigir que não se fale em desmatamento em nome de um suposto "interesse nacional" que, na verdade, é "interesse dos amigos", e cobrar que jornalistas escondam o que está acontecendo aqui dentro para "parecer bonito" lá fora? Ou apontar o dedo na ferida quando necessário e exigir que o governo pare de beneficiar um pequeno grupo de brasileiros e estrangeiros, passando a agir, enfim,  como se administrasse uma República?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.