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Da Amazônia ao comunismo, Bolsonaro cria inimigos imaginários para governar

Leonardo Sakamoto

31/08/2019 14h16

Foto: Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo

Bolsonaro parece que não consegue governar se não eleger inimigos a todo instante. Eles são usados para convencer seus seguidores de que o presidente é criticado por "ir contra interesses poderosos", "revelar a verdade que ninguém tem coragem de dizer" e "fazer o que deve ser feito a fim de defender o país". Na verdade, os "inimigos imaginários" servem para maquiar os erros e a incompetência do próprio governo e dourar políticas que não melhoram a vida da população.

Na recente crise da Amazônia, por exemplo, Bolsonaro usou os comentários toscos do presidente francês a respeito de uma hipotética ação internacional para proteger a região no intuito de surfar na onda do nacionalismo e da "defesa da soberania". Pela reação dos colegas europeus de Emmanuel Macron, verifica-se que não há qualquer risco estrangeiro à soberania brasileira sobre a região. Mas isso pouco importou para que o governo estimulasse uma narrativa paranoica junto à população. De lambuja, Bolsonaro conseguiu juntar a ala olavista do governo com o grupo dos militares, que vivem às turras uns com os outros, em torno de um fantasma.

"Apanhei muito a semana passada, mas conseguimos despertar, no coração do povo brasileiro, o seu sentimento de nacionalidade, de soberania e, mais do que tudo, a nossa Amazônia, tão esquecida ao longo de tanto tempo", disse o presidente neste sábado em registro do UOL.

Ironicamente, hoje, a maior ameaça é trazida pelo próprio Bolsonaro. Em mais de uma ocasião, convidou Donald Trump, um líder estrangeiro, para explorar a região e vem defendendo a presença de mineradoras norte-americanas em territórios indígenas. Este último ponto, aliás, tem sido usado para convencer senadores almejais e os lucros da mineração a aprovarem o nome de seu filho para o cargo de embaixador nos Estados Unidos.

As bobagens conspiratórias sobre "risco à soberania" têm a profundidade de um pires, mas são absorvidas facilmente por quem procura respostas rápidas e fáceis para problemas complexos, como o desenvolvimento sustentável da Amazônia. E o uso de patriotadas em geral é perfeito para terceirizar um problema. A origem do caos é sempre o outro, nunca nós mesmos. Ao invés de admitir que sua forma de conduzir a política ambiental para a Amazônia é desastrosa e implementar mudanças, Bolsonaro culpa ONGs, afirmando que trabalham para nações estrangeiras.

O governo parece gastar mais tempo em narrativas conspiratórias contra indígenas (e a mentira de que eles desejam criar países independentes) ao invés de responder sobre as causas do desmatamento e do fogo. Porque as chamas que consomem a floresta são consequências de um governo que não deu apoio à fiscalização e atacou as instituições de monitoramento. E, principalmente, cuja retórica presidencial desautorizou a punição a quem degrada a floresta dando a certeza de impunidade a garimpeiros, madeireiros, grileiros e pecuaristas.

Por trás da cortina de fumaça de soberania, esconde-se a responsabilidade de Bolsonaro pelo que está aí. Todos os governos, da ditadura até agora, são culpados por degradar o bioma. A culpa do atual mandatário foi permitir um salto no ritmo da destruição.

Isso se repete em uma série de outros temas, com Bolsonaro criando falsas polêmicas, unindo seus seguidores em torno de pautas de costumes e comportamentos, desviando o foco de atenção dos verdadeiros problemas nacionais.

Por exemplo, até agora o governo não apresentou um plano nacional para a geração de empregos formais. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada nesta sexta (30), mostra que a redução no número de desempregados (hoje, em 12,6 milhões) vem ocorrendo via crescimento de empregos sem carteira assinada (aumento de 441 mil pessoas, frente ao trimestre anterior) e o crescimento de pessoas que trabalham por conta própria (mais 343 mil). Ou seja, empregados informais em lojas, vendedores de comida nas ruas, motoristas de aplicativos – todos sem direitos mínimos como 13o salário, férias, descanso semanal remunerado, limite de jornada.

O trabalho precário e o desemprego são inimigos reais a serem combatidos, mas eles não contam com a mesma quantidade de atenção do presidente, que prefere dizer que quem gera empregos é a iniciativa privada e sua função é não atrapalhar. Dessa forma, demonstra que não faz ideia de como agir.

Em março deste ano, durante discurso oficial, ao lado de Donald Trump, nos jardins da Casa Branca, como parte de sua visita ao presidente norte-americano, Bolsonaro conclamou uma série desses "inimigos imaginários". Afirmou que o Foro de São Paulo "esteve próximo de conquistar o poder em toda América Latina", reforçando as teorias da conspiração sobre esse fórum inexpressivo de partidos de esquerda latino-americanos. E disse que ambos os países estão irmanados contra a "ideologia de gênero", o "politicamente correto" e as "fake news".

Melhor se fosse contra o desemprego, a pobreza, a corrupção, a guerra, a violência urbana. Mas aí seria trabalhar de verdade, articulando, dialogando, compondo, correndo atrás de recursos. Combater fantasmas de um comunismo que nunca existiu de fato por aqui e considerar a golden shower ou a mamadeira de piroca fake problemas nacionais gera mais polêmica, agrega mais seguidores, é mais fácil do que enfrentar problemas reais.

Combater fantasmas serve para transformar algo insignificante em um inimigo terrível. Anima, dessa forma, a batalha da extrema direita ruidosa, aliada de primeira hora, cujo engajamento é peça-chave para um governo que pretende manter a campanha eleitoral acesa até o seu último dia, fomentando um estado de apreensão constante para a coesão de sua guerra política visando à sua "revolução popular".

É papel de Bolsonaro e assessores convencerem a opinião pública que a população brasileira lhes deu mandato para liberá-la do socialismo, do marxismo, do "globalismo", do "gayzismo", do "coitadismo", do "abortismo", do "mimimismo" e qualquer outra fantasia que viralize nas redes sociais a partir de sua ilimitada criatividade – por mais que isso não seja a realidade. Enquanto isso, é papel da imprensa livre e da sociedade civil fiscalizá-lo, pressioná-lo e denunciá-lo quando ele extrapolar seu mandato constitucionalmente atribuído. Talvez por isso, ele deteste a imprensa e as organizações da sociedade civil.

Liberar o Brasil de algo que não existe, como um risco de invasão da Amazônia ou a chegada do comunismo, é igual a tentar aterrorizar uma população para os riscos do Homem do Saco ou da Mulher de Branco. O problema é que uma parcela da população parece gostar de acreditar em contos de fada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.