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Bolsonaro pune o “mensageiro” e reforça que transparência não é seu forte

Leonardo Sakamoto

04/09/2019 14h06

Bolsonaro com o ex-ministro Gustavo Bebiano. Foto: Fátima Meira/Futura Press

Bolsonaro exonerou o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Luiz Augusto de Souza Ferreira. Ele havia acusado o secretário de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, Carlos da Costa, de fazer "pedidos não republicanos".

Creio que você, como eu, ficou bem curioso em saber o que eram os tais "pedidos não republicanos". Em um primeiro momento, Bolsonaro também parecia dividir conosco tal sentimento. Tanto que, na segunda (2), disse que ordenou ao ministro da Economia, Paulo Guedes, investigar o caso.

"Não pode ter uma acusação dessas. Vão dizer que ele ficou lá porque tem uma bomba debaixo do braço. Não é esse o meu governo. Já determinei para apurar e um dos dois, ou os dois, perderão a cabeça", atestou.

"Vai lá, mito!!! Mostra mesmo a safadeza desses caras!", "Se fosse os petistas imundos, ia tudo pra baixo do tapete", "Capitão botandu (sic) ordem na casa!" e outras mensagens similares circularam pelas redes. Pelos perfis, provavelmente eram robôs ou ciborgues. Mas o que importa era o sentido da construção da narrativa.

Parecia até aquele Bolsonaro da campanha, que prometeu jogar água sanitária na administração pública e dar transparência a tudo com o objetivo de acabar com a corrupção.

Pena que durou menos que um "talkey".

Questionado sobre a situação após a demissão de Ferreira ser publicada, nesta quarta (4), ele afirmou que o caso "está decidido" e que "o prejudicado vai ao MP [Ministério Público], onde ele quiser e diz o que ele viu de errado no governo e pronto. Instaura um processo" – no registro do jornal O Globo.

Ou seja, não deu satisfação à sociedade, não disse se Ferreira mentiu, não negou os tais "pedidos não republicanos" e terceirizou ao Ministério Público o trabalho de verificar se um de seus subordinados estava fazendo ou não sacanagem com dinheiro público.

O ex-presidente da ABDI havia revelado à revista Veja os tais pedidos não republicanos sem dizer quais seriam. Depois disse ao jornal O Estado de S.Paulo que sofreu pressão para usar recursos a fim de alugar salas comerciais para escritórios da secretaria. Costa retrucou dizendo que o desempenho de Ferreira era insuficiente e que tudo isso não passava de calúnia.

Não é possível dizer quem estava certo ou errado porque, até agora, o governo se calou sobre isso.

O episódio deveria deixar um gosto agridoce na boca dos seguidores mais fiéis do presidente que acreditam que ele é um baluarte na luta contra a corrupção e um herói da transparência.

Mas se, até agora, mesmo com funcionária fantasma vendendo açaí, auxilio-moradia tendo imóvel próprio, carona para familiares em helicóptero das Forças Armadas, nepotismo ao indicar o próprio filho para embaixador nos Estados Unidos, laranjal do ministro do Turismo, negócios obscuros envolvendo o filho senador e tendo um Queiroz para chamar de parça, eles não viram nada de errado, não é com uma denúncia mal explicada envolvendo funcionários de uma agência que poucos ouviram falar que eles vão começar a se preocupar.

Bolsonaro usou padrão semelhante àquele que adota com reportagens que o desagradam: ataca o mensageiro e não se preocupa com o conteúdo da mensagem. Vai provando, com isso, que a questão  não é a existência de problemas, mas ser importunado por eles.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.