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Crivella e Doria censuram publicações em busca de seguidores de Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

06/09/2019 20h02

Desesperado por exposição na mídia diante de uma gestão que só não é irrelevante porque permite que pessoas morram soterradas toda vez que chove forte, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, transformou um quadrinho com um mísero beijo entre dois rapazes, parte da graphic novel "Vingadores – A Cruzada das Crianças", numa cruzada medieval contra a Bienal do Livro.

Diante de sua incompetência em implementar políticas para a melhoria na qualidade de vida de jovens negros dos bairros pobres da cidade, que continuam morrendo pelas mãos de traficantes, das milícias e da polícia, Crivella tornou-se fiscal de gibi, determinando "que os organizadores recolhessem os livros com conteúdos impróprios para menores". A Bienal, de uma forma educada, mandou ele pastar, pois isto (ainda) é uma democracia. Fiscais foram enviados, mas não recolheram nada.

Eloisa Machado de Almeida, professora da FGV Direito SP e coordenadora do núcleo de pesquisa Supremo em Pauta, resumiu todo o debate jurídico em torno da questão ao blog: "Censura. Não há mais nada o que dizer, ele simplesmente não pode fazer isso".

Por não conseguir encontrar respostas efetivas a problemas na saúde, na educação, na moradia, nos transportes, na assistência social, ou seja, reais problemas da capital fluminense, ele elege inimigos imaginários, fantasmas.

Ele diz que fez isso em "defesa da família". Mas a maioria das famílias que moram no Rio estão em risco de passar fome, não encontrar creche, morrer na fila do hospital, ser soterrada ao voltar do trabalho de camelô na rua. Não de sofrer uma metamorfose ao ler um gibi.

Crivella, dessa forma, além reforçar conexão com a parte mais conservadora de seu eleitorado, procura também o grupo da população que representa o bolsonarismo-raiz, cru, visceral. Aquele eleitor que digita em um smartphone do século 21 mensagens da Inquisição Espanhola do século 15. Procura o naco da sociedade que acha que homossexualidade é transmissível e que homofobia é um ato de amor a Deus.

O problema (para nós) é que ele tem concorrência.

Por conta de três páginas que traziam uma visão sobre identidade de gênero e diversidade sexual que o desagradou, o governador de São Paulo, João Doria Jr., mandou os funcionários da educação recolherem as cartilhas dos alunos. E por causa de três páginas inofensivas, estudantes ficaram sem as outras 141 com conteúdos de arte, ciências, educação física, geografia, história, inglês, matemática e português.

Detalhe: os alunos eram do 8o ano, com capacidade de discernimento o suficiente para saber que esse tipo de anacronismo é coisa de gente que não tem muito o que fazer. Ou de político atrás de voto, querendo agradar.

O presidenciável Doria também aproveita, dessa forma, o momento em que Bolsonaro perde aprovação (o último Datafolha apontou para 29% de ótimo e bom) e é questionado por seus seguidores fiéis ("Eu peço a vocês. No Facebook, você fez um comentário pesado, retira, dá uma chance para mim", solicitou, nesta quinta) para tentar acolher os desiludidos com o capitão.

Dado o absurdo da situação, também ganhou mídia. Enquanto o governador luta contra Moinhos de Vento, há trabalho infantil nas ruas centrais da capital paulista. E crianças se tornando soldados do tráfico na periferia.

Vale lembrar que o primeiro a usar, neste ano, a perseguição ideológica a publicações com o objetivo de se promover politicamente junto ao públicos ultraconservador foi o próprio Bolsonaro. Em março, ele criticou um material do Ministério da Saúde com imagens que mostravam como prevenir gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, que tinha como público-alvo jovens de dez a 19 anos. Sugeriu que os pais rasgassem as páginas onde estavam ilustrações que ensinam a colocação correta de camisinhas masculina e feminina e como fazer a limpeza dos genitais. E prometeu que a caderneta seria recolhida e uma nova produzida, sem as imagens.

Rio, São Paulo, Brasil. Vamos rifando a dignidade com políticos que parecem estar em um campeonato para ver quem vai mais fundo a fim de agradar o naco de extrema direita da sociedade – que é minoria – e mantê-lo perto para seus interesses políticos e eleitoais. A dúvida é: e o resto? Vai aceitar calado essa escalada medieval?

No dia 10 de maio de 1933, montanhas de livros foram criadas nas praças de diversas cidades da Alemanha. O regime nazista queria fazer uma limpeza da literatura e de todos os escritos que desviassem dos padrões impostos. Centenas de milhares queimaram até as cinzas. Einstein, Mann, Marx, Freud, entre outros, foram perseguidos por ousarem pensar diferente. A opinião pública e parte dos intelectuais alemães se acovardaram ou acharam pertinente o fogaréu nazista, levado a cabo por estudantes que apoiavam o regime. Deu no que deu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.