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Para provar que manda, governador do Rio quer coito interrompido

Leonardo Sakamoto

19/09/2019 23h20

Foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil

O governador do Rio, Wilson Witzel, defendeu o fim da visita íntima de presos nesta quarta (18). "Perdeu a liberdade? Tem que perder a liberdade sexual. Onde é que nós estamos com a cabeça? Você tira a liberdade do sujeito, mas não tira a liberdade sexual dele", afirmou, em registro do jornal O Globo.

É impressionante… Com tanta coisa para ser feita no sentido de melhorar a segurança pública, Witzel gasta tempo buscando formas de ampliar a punição através de torturas. Talvez para fingir – a si mesmo e a seus seguidores mais fiéis – que é ele quem manda no sistema prisional. Sim, no Rio e em outros Estados, não são governos que mandam em muitos dos depósitos de gente, mas facções criminosas. 

Além do mais, a "punição extra" não serviria como fator de dissuasão. Pelo contrário, levaria ao aumento da tensão dentro dos muros de presídios, com mais rebeliões e mais violência. Um dos elementos que ajuda a reduzir a pressão é exatamente é visita íntima. Até porque isso mantém a conexão deles com o mundo exterior.

O governo quer o que com isso? Incendiar um barril de pólvora para poder ir lá e dar uma de bombeiro? Desculpe informar, mas o governador não precisa brincar de Nero porque já administra um Estado em chamas.

Enquanto isso, celerados celebram as palavras nas redes sociais. São representantes do naco da sociedade que se sente  mais seguro com o poder público declarando guerra à violência – como se isso não fosse, em si, um contrassenso. Esses cidadãos acreditam em placebos, como cercas elétricas, muros altos e seguranças particulares. Apaixonados por um autoengano, creem que a questão da violência urbana pode ser resolvida com mais presos apanhando na cadeia. 

Não estou defendendo bandido ou a impunidade, ao contrário do que os celerados podem crer diante de sua leitura superficial da vida, mas sim o cumprimento do pacto que os membros da sociedade fizeram entre si para poderem conviver e não se matarem uns aos outros. Uma resposta efetiva passa pela presença ostensiva do Estado não apenas na vigilância, mas através de serviços básicos como educação, saúde e lazer para os pobres. E na garantia de uma perspectiva de futuro à juventude que, hoje, acaba empurrada para o tráfico.

Em meio às trevas de uma crise de segurança pública, com o Estado matando mais e mais, disparando rajadas a partir de helicópteros, promovendo o terror em escolas e creches, enterrando inocentes em nome de sua guerra, cresce a força de discursos autoritários e violentos que prometem resolver tudo isso que está aí com mão de ferro, botando ordem na base da porrada.

Witzel tem sido um dos defensores do uso de snipers em comunidades pobres com o objetivo de abater suspeitos de forma preventiva. Considerando que, não raro, a polícia acerta indiscriminadamente bandidos e inocentes, adultos e crianças, homens e mulheres, todos quase sempre negros, a adoção dessa política traz apenas mais mortes sem reduzir necessariamente a criminalidade. Difícil imaginar que ele vai priorizar a entrada de um Estado que garanta dignidade e oportunidades aos mais pobres ao invés de um Estado que só aparece para matar, como tem acontecido sob o seu governo.

Ao invés de dar carta branca para a polícia matar, deveria aumentar salários, fornecer melhores condições de trabalho, mais treinamento e formação especializados e bons equipamentos aos agentes – que são obrigados a morrer em nome de uma sociedade que nem sempre reconhece os serviços de uma maioria de servidores honestos. Desenvolver os setores de inteligência da polícia e integrá-los aos do sistema federal. Combater a impunidade policial. Enfrentar milícias.

Boa parte da população, apavorada pelo discurso do medo, mais do que pela violência em si, tem adotado a triste opção de ver o Estado de direito com nojo. O que anos de políticos imbecis, apresentadores de TV exagerados e estruturas ultraconservadoras de igrejas têm pavimentado dificilmente será desconstruído.

Mexer com uma estrutura montada para que tudo fique como está fará com que muita gente perca dinheiro, afinal, a falência do sistema de segurança pública é um grande negócio. Mas, ao final, se formos capazes de reagir, o morro estará em pé de igualdade com a orla, em direitos e em paz. E a orla vai sentir menos medo. Melhor: não terá mais medo de deixar de sentir medo.

Resta saber se é isso o que Witzel quer. Ou se está aí só para empatar a foda alheia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.