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Bolsonaro troca Amazônia por Alemanha e mostra a falta que um amigo faz

Leonardo Sakamoto

26/09/2019 17h37

"Um cara me disse, lá na imprensa, não sou eu que estou dizendo, um cara me disse: assim, como no passado, as Malvinas estavam para a Argentina, hoje a Alemanha está para o Brasil. Tirem as suas conclusões, não fui eu quem disse isso! Ninguém disse ainda, estou dizendo pela primeira vez aqui." Esse angu em forma de texto foi proferido por Jair Bolsonaro, nesta quinta, na porta do Palácio da Alvorada. Ele queria fazer um alerta para supostos interesses estrangeiros sobre a Amazônia. Acabou fazendo uma alerta sobre a importância do aprendizado da língua portuguesa.

As Malvinas passaram para o controle da Inglaterra no século 19 e os argentinos perderam feio ao tentar retomá-las em 1982. O presidente soltou "Alemanha", quando – provavelmente – queria falar "Amazônia", alimentando as teorias conspiracionistas de que o mundo está de olho gordo em nosso território.

Bolsonaro consegue se comunicar com setores da sociedade de forma direta e carismática, é reconhecido por muitos como "gente como a gente" – o que lhe garantiu popularidade. Contudo, ao falar de improviso comete lapsos e "gases", sistematicamente. Seria apenas constrangedor se fosse o "tiozão" no almoço de domingo da família. Mas ele é o presidente da República.

Isso pode parecer bobagem diante de tantos problemas, mas o que diz alguém em sua posição é de interesse público. Pode derrubar o dólar ou a Bolsa de Valores, atrapalhar o comércio internacional, criar cizânias com os vizinhos, mostrar que somos governados por alguém que não reflete antes de se expressar.

O ideal – para ele, para a economia, para o país, para o futuro do planeta – seria Bolsonaro falar menos. Como o presidente acredita que o segredo do seu sucesso junto aos fãs é estar o tempo inteiro falando algo (normalmente, de forma beligerante, contra alguém), recomendar isso a ele seria pregar no deserto.

O pior é que, ao invés de reconhecer que soltou bobagem e pedir desculpas, ele prefere acusar a imprensa de distorcer suas palavras. Isso quando elas são realmente uma gafe e não são propositadamente distorcidas para encobrir algo. Não é papel da imprensa tentar descobrir o que está por trás de falas confusas de um adulto antes de publicá-las, trocando "aquilo que ele disse" por "aquilo que ele talvez quis dizer".

A fé cega dos fãs chega a tal ponto que já circulam pela rede tentativas de provar que ele está certo e que era a Alemanha mesmo. Ou seja, o problema é Bolsonaro tomar gosto pela coisa e entrar na loucura. 

Portanto, na impossibilidade técnica, política ou psíquica do presidente mudar seu comportamento, talvez seja prudente arranjar um assessor com coragem para dar um toque nele. Do tipo que chegasse ao ouvido e dissesse: "presidente, o senhor errou, seria bom se corrigir" – para que não se irrite com terceiros pelas bobagens que ele mesmo produz.

Por fim, valeria a pena investigar se o lapso não foi um ato falho, o que mostraria que a Alemanha ronda os pensamentos do presidente – e, certamente, não é por conta do fatídico 7 a 1. Vale lembrar que a primeira-ministra Angela Merkel bateu de frente com ele por conta do aumento no desmatamento da floresta por aqui. A Alemanha contribuía com o Fundo Amazônia e foi alvo de ataques de Bolsonaro ao lado da França.

"Para a psicanálise, ato falho acontece porque há uma cadeia de pensamentos, inconsciente, que se encontra suprimida e emerge revelando um fragmento da verdade queremos suprimir a nós mesmos", afirma Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. 

"Um processo típico aos atos falhos é que eles tendem a se repetir enquanto seu sentido não for aceito ou negado de modo ainda mais intenso."

O psicanalista explica que atos falhos são muitas vezes incompreensíveis aos outros, pois dependem de fantasias e recalques de cada um. Mas Freud dá exemplos de atos falhos "transparentes" que são, por assim dizer, sua própria interpretação. Dunker usa como exemplo um diretor que vai dar início a uma sessão, na qual se tratarão de assuntos contrários aos seus interesses, e anuncia: "Declaro encerrada a sessão" ao invés de "Declaro aberta a sessão".

Incomodado com o que avalia sendo interferência externa, Bolsonaro pode estar manifestando isso em sua fala. Ou seja, encarando realmente um teoria conspiratória como realidade.

 

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

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