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Queiroz e o clã Bolsonaro tratam o Brasil como uma nação de idiotas

Leonardo Sakamoto

24/10/2019 14h11

Em foto publicada no Instagram, o senador Flavio Bolsonaro posa com Fabricio Queiroz, ex-assessor parlamentar

Fabrício Queiroz, com a ajuda do clã Bolsonaro, vem tratando o Brasil como uma nação de idiotas. Alegando problemas de saúde, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) se negou a prestar depoimento pessoalmente ao Ministério Público, mandando uma carta que traz mais dúvidas do que respostas. Os mesmos problemas de saúde, contudo, não o impediram de continuar articulando politicamente no Poder Legislativo. E usando seu ex-chefe – ou sendo usado por ele.

Desde dezembro do ano passado, quando suas "movimentações atípicas" foram reveladas, o país espera uma explicação do ex-faz-tudo do clã. Surgiram denúncias de que receberia recursos de funcionários da Assembleia Legislativa, repassando-os ao seu chefe, então deputado estadual. Apareceu um depósito estranho de R$ 24 mil feito por ele na conta da, hoje, primeira-dama, que o presidente afirma ser a devolução de um empréstimo, apesar de não ter divulgado comprovantes. Ficamos sabendo que Queiroz estabeleceu elos entre o gabinete de Flávio, na Alerj, e o "Escritório do Crime", contratando familiares de líderes milicianos. Mas nada de prestar esclarecimentos.

Não é possível dizer que Queiroz "reapareceu" com o furo de reportagem de Juliana Dal Piva, no jornal O Globo, desta quinta (24), mostrando o ex-assessor de Flávio sendo consultado sobre nomeações no Poder Legislativo. Ao que tudo indica, ele desapareceu para o MP e para a maioria da sociedade brasileira. Mas continuou bem ativo nos subterrâneos das instituições, onde transita bem. E, segundo ele próprio, com "capital político".

Em julho, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, atendeu a um pedido da defesa de Flávio e suspendeu os inquéritos na Justiça contra ele que tenham partido de órgãos como o Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras), sem autorização judicial prévia. Com isso, as investigações em curso no Ministério Público do Rio de Janeiro sobre ele e Queiroz ficaram paralisadas. Talvez se essa decisão não tivesse sido tomada, o faz-tudo teria mais dificuldade de usar seu "capital político" para articular no Congresso Nacional, pois estaria radioativo. Mas se isso acontecesse, talvez o país fosse outro e não precisaríamos nos preocupar com um Queiroz.

"Tem mais de 500 cargos lá, cara, na Câmara, no Senado… Pode indicar para qualquer comissão, alguma coisa, sem vincular a eles [família Bolsonaro] em nada. Vinte continho pra gente caía bem, pra c…, caía bem pra c… Não precisa vincular a um nome", diz Queiroz, em áudio de junho deste ano revelado por O Globo, tratando a coisa pública como feira livre.

Tem mais de 500 cargos lá", diz Queiroz

UOL Notícias

O senador Flávio Bolsonaro, em nota, questionou a veracidade do áudio (tática de negação que foi lapidada pela força-tarefa da Lava Jato e por Sérgio Moro diante das revelações do site The Intercept Brasil), mas negou vínculo e influência de Queiroz com o seu gabinete. Disse que, se as declarações forem verdade, seu ex-assessor estaria mentindo.

"Pô, cara, o gabinete do Flávio faz fila de deputados e senadores lá, pessoal pra conversar com ele. Faz fila. P…, é só chegar, meu irmão: 'Nomeia fulano aí, para trabalhar contigo'. Salariozinho bom desse aí cara, pra gente que é pai de família, p…, cai como uma uva (sic)", afirma Queiroz.

Enquanto ele segue livre para atuar politicamente, perguntas continuam sem respostas:

Qual a origem da movimentação de R$ 1,2 milhão nas contas de Fabrício Queiroz, que deu origem a todo esse caso? Por que não há registros de compra e venda de carros, atividade que Queiroz usou para justificar o dinheiro? Por que funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro depositaram recursos nas contas de Queiroz? Todos os funcionários que trabalhavam nos gabinetes de Flávio e de Jair cumpriam suas atribuições diárias? Aliás, todos eles existiam como funcionários? Como foi o empréstimo que Bolsonaro diz ter feito a Queiroz, que justificaria o depósito de R$ 24 mil na conta da hoje primeira-dama e quando foram devolvidos os outros R$ 16 mil do total de R$ 40 mil citados pelo presidente? Qual as origens das outras movimentações milionárias identificadas cuja explicação dada pelo senador deixou mais dúvidas do que respostas? Por que o ministro Sérgio Moro, com larga experiência em investigações, denúncias e julgamentos de "movimentações atípicas", não tem nada a dizer sobre o caso? Onde está a lista de assessores informais na base eleitoral de Flávio pagos com o dinheiro que Queiroz afirmava recolher dos funcionários na Alerj? Recursos públicos desviados da Assembleia beneficiaram milícias? Por que Flávio não abriu um imobiliária ao invés de uma loja de chocolates, uma vez que sabe "fazer dinheiro" com compra e venda de imóveis? Por que a laranja dá tão bem em solo brasileiro? E, claro, por que Queiroz pode fazer política sobre o Congresso Nacional e não pode depor no MP?

Por mais que tenha ficado 28 anos no Congresso, o presidente nunca fez parte do centro do poder e usou isso em sua campanha eleitoral para convencer de que representaria o "novo" na política e nadaria em transparência. O problema é que a "nova política" de Bolsonaro nunca pediu ao filho que fosse depor no MP-RJ, independentemente de convite da instituição, para se antecipar e esclarecer tudo. Da mesma forma, a "nova política", que se vendia como ilibada, comprou votos através de emendas milionárias e cargos no governo a fim de garantir a aprovação da Reforma da Previdência.

Queiroz e suas ações são um lembrete da falta de transparência de uma família com quatro homens públicos que influenciam os destinos do país pelo fato do presidente governar como um chefe de clã. Não adianta exigir que o BNDES divulgue dados sobre empréstimos, reclamando de uma suposta "caixa preta" do Estado, se Bolsonaro fica irritado toda vez que repórteres lhe perguntam sobre Queiroz. Para um governo que acredita no poder transformador da "verdade", é incompreensível que ela seja jogada sistematicamente para baixo do tapete.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.