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Bolsonaro, que afrontou democracia argentina, reclama de afronta ao Brasil

Leonardo Sakamoto

28/10/2019 09h40

Alberto Fernandez faz gesto de Lula Livre com correligionários. Imagem: Reprodução/Twitter

O excelentíssimo senhor presidente da República, Jair Bolsonaro, demonstrou que óleo de peroba continua sendo importante produto de nossa pauta de exportação ao reclamar, nesta segunda (28), que o recém-eleito próximo mandatário argentino afrontou a democracia brasileira por ter publicado uma foto apoiando o movimento pela liberdade do ex-presidente Lula.

"É uma afronta à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro. Ele está afrontando o Brasil de graça", afirmou Bolsonaro sobre uma fotografia de Alberto Fernandéz, fazendo o gesto de apoio, com seus apoiadores, neste domingo (27) – mesmo dia em que ganhou as eleições de seu país em primeiro turno e na qual Lula celebrou 74 anos.

Relações internacionais são regidas por princípios, como o da reciprocidade. Como é que um presidente que interferiu várias vezes no processo eleitoral de um país vizinho, fazendo ameaças veladas caso o resultado não fosse a reeleição de seu preferido, o hoje presidente Maurício Macri, tem a pachorra de reclamar de afronta à democracia?

Bolsonaro chegou a promover "terrorismo eleitoral", afirmando que o caos se instalaria na Argentina com a vitória da oposição e indicando que cidadãos desse país viriam para o Brasil como "refugiados" e não com o turistas. Logo após as primárias das eleições, disse aos gaúchos que o Rio Grande do Sul poderia se tornar "um novo Estado de Roraima" – o que repercutiu, negativamente, em Roraima e na Argentina. Pediu para empresários brasileiros "colaborassem" a fim de que a "velha esquerda" não voltasse à Presidência por lá. Fez ameaças quanto à permanência do Brasil no Mercosul, para tentar influenciar o voto por lá, como se o bloco fosse comercialmente útil apenas para os argentinos e não aos brasileiros.

Sem citar o vizinho, chegou a declarar que estava trabalhado contra a vitória de Fernandéz e sua vice, Christina Kirchner: "Ernesto Araújo quando chegou, muito criticado, era diferente daqueles que ocuparam sua cadeira anteriormente, tem aberto portas. Tem sido um herói na questão de busca de solução para a Venezuela. Como também temos trabalhado para que outro país, mais ao sul, não volte para as mãos daquelas pessoas que no passado botaram esse país numa situação bastante complicada", afirmou no dia 10 de outubro.

A democracia argentina, que conta, historicamente, com um povo mais politizado e que enfrentava mais tensões no debate público, prova-se muito mais saudável que a brasileira. Mesmo tendo flertado em sua campanha com elementos da extrema-direita, não se tem notícia que Maurício Macri fez uma ameaça velada como a de Bolsonaro no ano passado: "não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição". E, ao contrário do que aconteceu aqui, com Fernando Haddad se negando a ligar para reconhecer o resultado após sua derrota, Macri telefonou a seu sucessor. E convidou-o para um café da manhã para dar início à transição de governo.

Bolsonaro não é o primeiro presidente brasileiro a tentar interferir de forma tosca na eleição de outros países sul-americanos. A diferença é que, além de ficar "afrontado" com um misto de solidariedade e provocação, é ele quem se mete na política de outro país, de forma escrachada e com muita cara de pau.

Em tempo: O presidente, emburrado, disse que não vai falar com Alberto Fernandéz para parabenizá-lo pela vitória. Mas, acha normal falar com Queiroz, a fim de discutir exoneração de funcionários, mesmo após ter sido eleito.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.