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Queiroz virou problema? Relaxe! É só distrair com vídeo de leão com hiena

Leonardo Sakamoto

28/10/2019 23h00

O clã Bolsonaro se esforçou para desviar a atenção das redes sociais nesta segunda (28). Primeiro, o presidente deu declarações birrentas sobre a vitória do oposicionista Alberto Fernandéz na eleição presidencial argentina, comportando-se como um ser imaturo, cujo time – Maurício Macri Futebol Clube – não ganhou o campeonato. Mas a cereja do bolo foi um vídeo, que estava fazendo sucesso em listas da extrema-direita, ter sido postado em sua conta no Twitter. Nele, aparece como um leão (cansado e doente, diga-se de passagem), cercado por hienas que carregam as logomarcas do PSL (entre outros partidos), do STF, de veículos de imprensa, da ONU, da OAB e até da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O leão zoado é resgatado por um mais saudável, descrito como "conservador patriota", trocando afagos com ele.

Isso acontece logo após Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro e amigo de longa data do presidente da República, "reaparecer" através de áudios divulgados pela imprensa. Neles, dá consultoria para um interlocutor conseguir um cargo no Congresso Nacional, diz que o próprio Jair conversou com ele sobre a exoneração de uma funcionária, reclama que teria sido abandonado em meio às denúncias sobre as famosas "movimentações atípicas", afirma que poderia colocar o PSL no eixo se não estivesse enrolado e revela que o Ministério Público do Rio de Janeiro "tá com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente".

Em meio à repercussão dos áudios, que constrangia Bolsonaro em turnê pela Ásia, o vídeo estúpido foi divulgado, galvanizando a atenção da rede.

Ainda que tenha sido outro membro do clã, o vereador Carlos, o provável responsável pela postagem em nome do pai, o silêncio do patriarca é sinal de conivência. A comparação gerou insatisfação entre ministros do Supremo Tribunal Federal – lembrando que alguns deles estão segurando a barra da investigação que envolve seu outro filho, o senador Flávio, e Queiroz. Mas também entre correligionários do PSL e até entre bispos católicos que o apoiam.

Com intervenções como essa, os Bolsonaros alegram uma parte dos seguidores radicais com mais guerra política e jogam fumaça naquilo que é problemático em seu governo, como as denúncias de corrupção e de envolvimento com milícias, que pairam sobre Queiroz e seu filho.

O mesmo "Escritório do Crime" que teria executado o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes tinha laços com o gabinete do então deputado estadual, Flávio, graças a Queiroz. Apesar disso ser notório, a relação permanece pouco investigada, como se ignorássemos um elefante na sala. O ex-assessor é tão amigo do presidente que depositou R$ 24 mil diretamente na conta da primeira-dama. Segundo Jair Bolsonaro, foi a devolução de parte de um empréstimo que ele teria feito ao camarada. Mas não mostrou nenhum comprovante disso.

O clã não tem muita competência para liderar um país. E, pelo visto, tampouco para organizar um show de ilusionismo.

Pois o problema é que, como disse Queiroz, o que está por trás disso tudo é "pica do tamanho de um cometa". Não será um vídeo de leões e hienas, nem uma nova Golden Shower que irá fazer com que o debate público esqueça das travessuras do ex-assessor.

Em tempo: as desculpas de Bolsonaro ao STF, nesta terça (29), são apenas parte do show.  O vídeo já tinha cumprido sua função. Para ser sincero, o pedido deveria significar uma mudança de comportamento. O que, ao que tudo indica, não será o caso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.