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Com Lula, esquerda ganha "fábrica de memes" contra Guedes e Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

09/11/2019 17h51

Lula é carregado por apoiadores em São Bernardo do Campo neste sábado (9). Foto: Ricardo Stuckert

Ao ordenar a libertação de Lula, a Justiça entregou uma fábrica de memes e frases de efeito para a oposição. Isso pode ajudar na disputa digital que tem sido travada com bolsonaristas nas redes sociais.

Apesar de não ser conhecido por ser um bom orador, o presidente Jair Bolsonaro conta com um rosário de grupos que gerenciam perfis nas redes sociais e produzem memes – tanto os que funcionam dentro do Palácio do Planalto quanto os que operam de forma orgânica, como apoiadores, seguidores e fãs – para qualificar positivamente suas ações e atacar as dos adversários. E até aliados do próprio partido, quando necessário. Agora, os grupos de esquerda passam a contar com alguém capaz não só de produzir frases de efeito, mas também de bombá-las na imprensa e nas redes.

O ex-presidente Lula fez um discurso voltado à militância, neste sábado (9), em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo (SP). Foi um tom um pouco diferente daquele realizado, um dia antes, logo após deixar a Polícia Federal, em Curitiba – onde permaneceu preso por 580 dias. Neste sábado, criticou duramente a política econômica do governo, atacando diretamente seu autor, o ministro Paulo Guedes.

Não apenas Lula chamou Bolsonaro de "miliciano", no discurso, em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, como também afirmou que o presidente "tem que entender que foi eleito para governar para o povo brasileiro, não para os milicianos do Rio de Janeiro". Pediu para ele dizer onde está o amigo Fabrício Queiroz e contar sobre o patrimônio imobiliário da família. Perguntou quem mandou matar a vereadora Marielle Franco. Chamou Paulo Guedes de "ministro demolidor de sonhos, destruidor de empregos". Pediu à própria militância que parasse de entoar um coro de xingamento ao atual presidente (sendo que já tinha chamado o ministro Sérgio Moro de "canalha"), apenas para ser irônico: "Não pode falar palavrão para o Bolsonaro, porque ele já é um palavrão".

Como já disse em análise neste sábado, é difícil precisar como o debate público ficará polarizado entre Lula e Bolsonaro. A intensidade disso vai depender de muitos fatores, como a pressão sobre O presidente e Guedes por crescimento econômico e  empregos de qualidade. Lula, neste sábado, por exemplo, já criticou a proposta do governo de congelamento do aumento real do salário mínimo enquanto houver crise.

Esse discurso, de atacar as políticas econômicas, vai ser mais bem recebido à medida que o tempo passar e não houver criação de postos formais de trabalho. Lula aproveitou para pedir gente na rua, como no Chile. Não que seu desejo será atendido, mas isso bota ainda mais pressão em Brasília.

Mais do que Bolsonaro, é Guedes – que, por não ter sido eleito, é mais substituível – que será o grande alvo dos "memes" de Lula, cobrado cotidianamente pelas medidas que propõe e pelas que não propõe. Resta saber se o crescimento do PIB não chegar a 2,5% no ano que vem e o emprego formal não deslanchar, o próprio Bolsonaro não soltará ele próprio memes contra Guedes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.