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"É ação paramilitar", afirma deputado que está na Embaixada da Venezuela

Leonardo Sakamoto

13/11/2019 11h35

Embaixada da Venezuela em Brasília. Foto: Cristiano Mariz/Veja

"É uma ação paramilitar, com um grupo uniformizado, usando radiocomunicadores que obedecem a um comando centralizado. Tem característica de milícia. A maioria é de venezuelanos, mas também há brasileiros. Eles tomaram de assalto as instalações da embaixada e também a parte residencial, onde há crianças."

O relato é do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) que falou ao blog de dentro da Embaixada da Venezuela, em Brasília, que foi invadida por um grupo que diz representar o governo do autoproclamado presidente venezuelano Juan Guaidó.

"A postura do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, que alega não reconhecer os membros da missão diplomática porque não reconhece o governo de Nicolás Maduro acaba respaldando a acão dos criminosos dessa ação paramilitar", afirma Pimenta.

"Neste momento, um representante do Itamaraty está aqui  junto com a Polícia Militar e há um impasse porque os representantes da Embaixada da Venezuela não abrem mão de suas prerrogativas como legítimos representantes do governo venezuelano."

A embaixada foi ocupada, na manhã desta quarta (13), por um grupo de cerca de 20 pessoas. De acordo com Paulo Pimenta, eles pularam o muro e invadiram as instalações. O grupo nega e diz que entrou no local com a autorização de funcionários que teriam passado para o lado de Guaidó. Assim que o grupo chegou, representantes de Maduro na embaixada solicitaram que movimentos sociais e políticos viessem ajudar.

"Aqui, do lado de dentro, não vislumbramos nenhuma solução diplomática de curto prazo. A situação também está muito tensa do lado de fora."  

Do lado de fora

Paulo Teixeira (PT-SP) está do lado de fora, junto com outro parlamentares da oposição. Acusa o governo de estar envolvido.

"Bolsonaro se articulou nessa ação. Ele está deixando estender a invasão porque há a reunião dos Brics [grupo formado por Brasil, Rússia Índia, China e África do Sul, que estão se reunindo na capital federal]. Quer dar holofote, para o mundo inteiro, para a essa ação. E, com isso, desgastar o governo venezuelano."

Teixeira afirma que isso abre um precedente gravíssimo. "Houve uma invasão do território venezuelano. Se o Brasil não queria reconhecer a missão diplomática de Maduro deveria ter comunicado ao governo venezuelano que seu embaixador era persona non grata. Corpos diplomáticos são territórios estrangeiros, soberanos. A invasão e uma violação ao direito internacional sem precedentes por aqui."

A deputada federal Jandira Feghali (PC do B-RJ) disse ter conversado com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), buscando uma saída institucional.

"Temos que voltar minimamente ao bom senso e evitar uma loucura para o Brasil do ponto de vista internacional", afirmou. "Ele disse que ia tentar ajudar para repor o respeito a um território que não é nosso, é território venezuelano."

A Presidência da República negou que Bolsonaro tenha incentivado a "invasão" à embaixada. Em nota, o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) chama o episódio de "fatos desagradáveis" e afirma que há "indivíduos inescrupulosos e levianos que querem tirar proveito dos acontecimentos para gerar desordem e instabilidade".

Contudo, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, vem apoiando os correligionários de Guaidó nas redes sociais desde que o episódio começou. "Embaixada da Venezuela mudou porque funcionários reconheceram Guaidó como presidente legítimo. Invasão é o que ocorre agora com os brasileiros esquerdistas querendo se intrometer na questão", postou no Twitter, contradizendo a Presidência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.