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Bolsonaro culpa PT, terceiriza obrigação e foge para não falar da Amazônia

Leonardo Sakamoto

19/11/2019 16h23

Bolsonaro defende sua política ambiental nas Nações Unidas, sem explicar o que ela é

O presidente da República, um dia após a divulgação dos dados que apontaram um salto no desmatamento na Amazônia, preferiu desviar do assunto. Não fez como seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que saiu em disparada pelos corredores da Câmara despistando jornalistas, mas culpou o PT, terceirizou responsabilidades e encerrou a entrevista.

Questionado sobre o aumento de 29,5% na área destruída, entre agosto de 2018 e julho de 2019, em comparação ao período anterior, de acordo com dados do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, primeiro – básico – culpou as administrações passadas e seus picos de desmatamento, ignorando que elas tomaram medidas concretas após esses aumentos. Coisa que ele não fez ainda.

Depois, com a insistência dos colegas que tentavam tirar dele uma avaliação sobre a situação, apontou para o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e mandou perguntarem a ele. Disse que havia falado com seu subordinado sobre o assunto, mas que a "conversa foi reservada", no registro de Talita Fernandes, da Folha de S.Paulo. "Eu não posso conversar reservadamente com o ministro e abrir para vocês aqui. Seria antiético da minha parte", afirmou.

A menos que os dois tenham tramado algo ilegal, como uma maneira de continuar enrolando a sociedade e o mercado, dizendo que estão fazendo tudo o que podem contra o desmatamento, enquanto seguem implementando uma política de desmonte dos órgão de monitoramento e controle, não existe motivo algum para Bolsonaro não falar à imprensa. Outra possibilidade é que ele não quer falar nada que possa melindrar seus apoiadores, como garimpeiros, madeireiros, grileiros e o naco de pecuaristas que atua de forma irregular, para quem prometeu que a fiscalização não incomodaria.

Bolsonaro disse também que não quer publicidade, mas solução. Mas não explicou o que essa platitude significa, encerrando a entrevista e saindo andando.

Em setembro, durante seu discurso na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, ele não corou quando disse que o seu "governo tem compromisso solene com o meio ambiente" – também sem dizer o que isso quer dizer. Escondeu a responsabilidade do agronegócio e no extrativismo nas queimadas e culpou populações indígenas e pequenos produtores rurais. Creditou a "ataques sensacionalistas da mídia" a repercussão negativa e afirmou que o debate sobre a Amazônia despertou "nosso sentimento patriótico".

O problema é que, enquanto ele não falar sobre soluções, vamos ficar com suas respostas anteriores para a questão. Como, por exemplo: "é só cagar menos." O presidente afirmou, em agosto, que a saída para os problemas ambientais do país é "fazer cocô dia sim, dia não".

Imagina, então, qual seria a solução dele para o desemprego, outra área em que segue devendo? Comer menos? Andar nu? Dar os filhos de presente?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.