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Ataques racistas mostram que licença para o ódio está em alta sob Bolsonaro

Leonardo Sakamoto

21/11/2019 12h45

Após um deputado federal quebrar, nesta terça (19), uma placa com uma charge que criticava a morte de jovens negros por policiais, parte de uma exposição sobre o Dia da Consciência Negra, na Câmara de Deputados, um professor de jornalismo da Unesp, em Bauru (SP), foi chamado de "macaco" e esfaqueado no ombro e no tórax e um grupo de católicos conservadores tentou impedir a realização de uma tradicional missa com atabaques e cantos afro, em celebração à data, em uma igreja na Glória, no Rio. Não conseguindo, criou uma confusão ao final.

Há uma relação de causa e efeito entre o ato tresloucado de Brasília e a violência no interior de São Paulo e na capital fluminense? Não. Mas há entre a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República e o fato de grupos intolerantes, que antes reprimiam-se pela percepção de falta de respaldo do Estado, sentirem-se empoderados através dos discursos dele e virem à luz do dia, lambuzados de chorume.

O mesmo processo está presente quando um deputado tenta homenagear o ditador chileno Augusto Pinochet na Assembleia Legislativa de São Paulo – comenda que o presidente da casa prometeu barrar. Qual a diferença entre isso e as homenagens que o presidente da República sistematicamente faz a Brilhante Ustra, um dos maiores açougueiros da última ditadura brasileira?

Durante as eleições do ano passado, enquanto uma parte do debate público insistia em dizer que as instituições iriam limitar o ímpeto violento do bolsonarismo, repeti exaustivamente que caso freios legais não fossem efetivamente colocados, veríamos grupos historicamente vulneráveis, adversários ideológicos e opositores políticos sendo calados e punidos. E é o que está acontecendo, apesar da parte protegida da sociedade dizer que tudo continua igual. Se as ações citadas no início deste texto não forem devidamente encaminhadas, surgirão outras e mais outras. Pois o Primeiro de Janeiro não trouxe apenas um novo ano e um novo governo, mas a sensação é de "liberou geral" para muita gente.

A questão não é apenas casos em que a vítima tinha a "cor errada". Jovens rapazes se juntam para dar "corretivos" nas colegas feministas e mostrar quem manda junto às outras mulheres. Fazendeiros se juntam para atacar movimentos de sem-terra, indígenas, quilombolas, ignorando decisões judiciais. Empresários recriam grupos de extermínio para remover a população em situação de rua e os sem-teto de seu entorno, outros não têm pudor em executá-los à luz do dia. Grupos homofóbicos se unem para atacar o público LGBTQ+. Intolerantes vão atrás de jornalistas e de opositores políticos, que insistem em dizer o contrário do que o grupo de WhatsApp os ensinou.

Torturadores, como Brilhante Ustra, não acreditavam simplesmente estarem em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito, como as Convenções de Genebra. Os torturados eram, para eles, a representação do mal. E o mal precisava ser extirpado. Tal qual ouvimos hoje: que há ideologias, cores, etnias, credos, identidades que precisam ser extirpados. Tal como disse e, desde então, não desdisse Bolsonaro, no dia 21 de outubro de 2018, ao prometer "uma limpeza nunca vista na história" após eleito. "Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil", afirmou. "Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria."

O grosso da população, incendiada no período eleitoral, voltou ao "normal" após a apuração dos votos da mesma forma que houve uma descompressão após a votação do impeachment. Outra permanece em "guerra santa", por ver em Bolsonaro não apenas a certeza de impunidade como a permissão para tudo isso.

Familiares de Evaldo Rosa dos Santos se desesperam no enterro do músico morto no Rio. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Ao afirmar, por exemplo, que o desmatamento na Amazônia não vai acabar porque é "cultural", o presidente da República passa a mão na cabeça de madeireiros, garimpeiros, pecuaristas, grileiros de terra. O argumento, que normaliza um comportamento humano bizarro como se fosse parte de nossa natureza, foi sistematicamente utilizado para defender a escravidão no século 19. Ao ler os discursos anti-abolicionistas que circulavam nos debates da época, no Senado e nas ruas, constatamos que Bolsonaro não foi criativo em sua resposta à imprensa, apenas anacrônico, concedendo essa permissão.

Nenhum dos casos de racismo explícito relacionados ao Dia da Consciência Negra brotou diretamente de um chamamento do presidente. Mas munidos com o ódio que fermentaram ao longo do tempo com base em seus discursos e com a sensação de estarem fazendo um serviço público, agem para "limpar o país da escória". E, agora, muitos deles estão armados devido à incansável dedicação de Bolsonaro para ampliar o porte e a posse.

Sem contar que o presidente luta pelo "excludente de ilicitude" a policiais caso matem civis em ações de Garantia da Lei e da Ordem. Como a ocupação das Forças Armadas sobre o Rio de Janeiro, que causou baixas entre pessoas inocentes. O músico Evaldo Rosa dos Santos foi executado quando o carro em que estava com a família indo para um chá de bebê foi cravado de balas por militares ao ser confundido com outro, em abril deste ano, em Guadalupe, Zona Norte do Rio de Janeiro. Já o catador de materiais recicláveis Luciano Macedo foi atingido quando tentava ajudar a família do músico que estava no veículo, morrendo 11 dias depois.

Um líder político como ele não pode afirmar que não tem responsabilidade pela violência que agora brota. Não são suas mãos que agridem, mas é a sobreposição de seus argumentos e a escolha que fez das palavras ao longo do tempo que distorcem a visão de mundo de seus seguidores e tornam o ato da violência banal. Suas ações e regras redefinem, lentamente, o que é ética e esteticamente aceitável, visão que depois é consumida e praticada por terceiros. Estes acreditarão estarem fazendo o certo, quase em uma missão civilizatória ou divina, e irão para a guerra.

Se as instituições fossem sólidas, como muitos gostam de alardear, casos como esse não ficariam impunes. Mas em um país em que o deputado federal filho do presidente da República pode sugerir um novo AI-5, o que daria autorização ao poder executivo para cassar direitos e liberdades, e continuar com seu mandato, as instituições não estão sólidas.

Pelo contrário, a democracia está doente. A impressão é que, para muita gente, não importam exposições sendo depredadas, professores universitários atacados, missas invadidas por conta de racismo. Não importa nem se, no curso de sua enfermidade, a democracia passar desta para a melhor. O que importa é o índice da Bolsa de Valores continuar subindo.

Em tempo: O Brasil do racismo estrutural

A audácia para cometer atos violentos como esses em público anda em alta. Isso não significa, contudo, que a violência contra a população negra no Brasil começou agora, mas esteve sempre presente desde que seus antepassados foram forçados a vir trabalhar aqui.

Um jovem negro foi despido, amordaçado e chicoteado por dois capatazes após tentar um furto de valor irrisório em um comércio em São Paulo, no início de setembro. A história, que poderia relatar o violento cotidiano do século 17, na verdade refere-se ao violento cotidiano do século 21. Na periferia da capital paulista, um rapaz de 17 anos, sem residência e catador de materiais recicláveis, foi torturado por dois seguranças após tentar furtar barras de chocolate de uma unidade do supermercado Ricoy. Isso não é novidade diante do genocídio da juventude negra em curso. Mas o chicote é cinismo puro.

Em julho de 2015, um homem negro de 29 anos foi linchado por moradores do Jardim São Cristóvão, em São Luís (MA). Segundo a Polícia Civil, ele havia tentado assaltar um bar, quando foi rendido, amarrado nu em um poste e agredido até a morte com socos, chutes, pedradas e garrafadas. O rapaz poderia ser entregue à polícia para ser devidamente processado e pagar pelo seu crime. Mas o pelourinho, que canta alto na alma de muitos brasileiros, falou mais alto.

Um rapaz foi linchado por moradores em São Luís (MA). Foto: Biné Morais

No dia 14 fevereiro deste ano, Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga, 19 anos, foi morto por Davi Ricardo Moreira Amâncio, segurança do supermercado Extra, do Grupo Pão de Açúcar, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Ao "conter" o jovem negro, ele deu uma gravata e jogou seu peso sobre ele. No vídeo, que circulou pelas redes sociais, testemunhas alertaram que Pedro estava "sufocando" e ficando "roxo", mas a sessão de tortura continuou. Com parada cardiorrespiratória, foi socorrido pelos bombeiros e não resistiu. A mãe do rapaz presenciou a cena. Pedia para o segurança parar.

Em agosto de 2009, Januário Alves de Santana foi acusado de estar roubando um automóvel em uma loja do Carrefour, em Osasco (SP), em agosto de 2009. Por isso, foi submetido a uma sessão de tortura de cerca de 20 minutos. "O que você fazia dentro do EcoSport, ladrão?", perguntaram, enquanto cinco pessoas davam chutes, murros, coronhadas, na sua cabeça, na sua boca. O carro era dele, comprado em suadas 72 vezes de R$ 789,44. Na cabeça dos seguranças do supermercado, um negro não poderia ter carro de bacana branco.

Domingos Conceição dos Santos foi baleado ao tentar entrar em uma agência do Bradesco em São Paulo, em maio de 2010. Ele usava um marca-passo e apresentou um documento comprovando isso, o que explicaria porque o detector de metais da porta giratória apitaria quando passasse por ela. Após uma discussão com o cliente, o segurança sacou a arma e atirou na cabeça do aposentado. Ele entrou em coma e teve morte cerebral constatada quatro dias depois. O funcionário do banco foi preso. Na época, a família afirmou que Santos foi vítima de racismo por ser negro.

As histórias poderiam ser diferentes se a cor da pele também fosse. Mas preferimos dizer que não, até para dormirmos mais tranquilos à noite, negando o preconceito que nos impregna da epiderme até os ossos. Daí, quando professores decidem discutir, na sala de aula, a razão pela qual jovens negros são as principais vítimas entre milhares de mortes violentas anuais, defensores de uma Escola Sem Tutano ameaçam denunciar ao governo Bolsonaro, dizendo que isso é ser "ideológico". Na opinião de uma parte considerável do Brasil, não há racismo por aqui. Apenas "coincidência" e "azar".

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.