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Por covardia, Bolsonaro culpa DiCaprio, imprensa, cientistas, índios, ONGs

Leonardo Sakamoto

30/11/2019 13h58

Bolsonaro age como a criança mimada que, quando colocada contra a parede por ter feito algo errado, não tem coragem de assumir e transfere a responsabilidade a terceiros. Agora, acrescentou a essa lista o ator Leonardo DiCaprio.

O governo federal estimulou o desmatamento e as queimadas na Amazônia, ao longo de 2019, com seus discursos a madeireiros, grileiros garimpeiros e pecuaristas, prometendo botar um cabresto na fiscalização.

A parte irresponsável do agronegócio celebrou a sensação de liberdade para derrubar e queimar vegetação nativa, expulsar e aterrorizar indígenas e outras populações tradicionais, manter o ciclo da grilagem de terras e da zorra fundiária e cometer concorrência desleal e dumping socioambiental, dando uma rasteira nos empresários que agem dentro da lei. Sem contar o uso de trabalho escravo.

Garimpeiros e madeireiros fecharam rodovias para chamar a atenção de Jair e ouviram palavras de carinho do presidente da República, enquanto os fiscais foram criticados e deixados à própria sorte. Pior: ele chegou a dizer que "quem quer atrapalhar o progresso, vai atrapalhar na Ponta da Praia" – referência à base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio, usada como centro de tortura durante a ditadura.

Quando os números mostraram um salto na perda de cobertura florestal, alertando o Brasil e o mundo, primeiro, Bolsonaro disse que era mentira dos cientistas. Conseguiu derrubar o chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que cuida do monitoramento por satélite do desmatamento. Provou que não acredita em fatos, apenas em convicções.

Depois culpou indígenas e ribeirinhos, tentando fazer crer que o fogo era causado por formas de plantios tradicionais que usam queimadas. Foi como responsabilizar a azeitona da empada pela azia de alguém que deu perda total em um churrasco.

Daí, culpou a "imprensa sensacionalista" por estar causando estragos à imagem do país no exterior. Ou seja, a responsabilidade pelas bobagens que ele diz e faz é do mensageiro.

Sem contar que, diante das críticas, ele falou grosso com mandatários estrangeiros e abusou do conspiracionismo e da paranoia, onde seus seguidores mais fiéis se sentem bem. Disse que as críticas ao desmatamento na Amazônia eram um ataque à nossa soberania.

Então, quando uma investigação bizarra, com mais furos que um formigueiro, apontou de forma irresponsável e sem evidências concretas, que membros de uma brigada de incêndio estaria recebendo recursos financeiros de ONGs conhecidas e respeitadas para botar fogo na floresta, ir lá apagar e ganhar fama, o presidente resolve pegar carona na história. Acusou, sem provas, o ator Leonardo DiCaprio de cumplicidade, pois estaria financiando as organizações.

Detalhe: os jovens brigadistas que haviam sido presos foram soltos e o Ministério Público Federal questionou a investigação, pois os indícios estariam apontando o envolvimento de grileiros e outros empresários.

O ator Leonardo DiCaprio negou, nesta sexta (29), que tenha feito doações, mas afirmou que as organizações as mereceriam, pois estão atuando para proteger a floresta.

Não dá para dizer que Bolsonaro virou piada global porque uma piada é engraçada. Já as consequências das mudanças climáticas, não.

O medo de perder mercados e investimentos, fez com que ele passasse a mentir descaradamente para encobrir todo o apoio que deu à construção do caos que vivemos hoje na área ambiental. Jura que o país continua protegendo o meio ambiente e caminhando na direção de um desenvolvimento sustentável. Dá para apostar um copo de petróleo com areia de praia que isso não procede.

Uma coisa é conviver com um governo anacrônico e retrógrado, que põe em risco as populações da Amazônia, a qualidade de vida desta e das futuras gerações e o nosso comércio internacional. O outro é conviver com um governo que, além disso tudo, também é covarde e não suporta as consequências de seus atos.

O primeiro causa desespero, o segundo, contudo, acrescenta uma boa dose de vergonha alheia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.