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Paraisópolis: O PM que espanca rindo é a evolução do torturador da ditadura

Leonardo Sakamoto

03/12/2019 16h40

Um policial militar aparece, em um vídeo, agredindo jovens que saem de uma festa na favela de Paraisópolis com algo que pode ser um cano ou um pedaço de pau. Acerta muitos deles no rosto, agindo indiscriminadamente. Atinge até um rapaz que usa muletas para se locomover. Parece se divertir com o que está fazendo. A Ponte Jornalismo conseguiu o vídeo com um morador da comunidade.

A PM afirmou que as imagens são do dia 19 de outubro, que a cena "não tem relação com o ocorrido no último final de semana" e que o policial foi afastado, nesta terça (3), do policiamento de rua e um inquérito de abuso de autoridade foi instaurado.

Mas a polícia está duplamente enganada. Primeiro: há uma clara relação, pois é exatamente esse o contexto da repressão contínua e violenta em que está inserida a morte dos nove jovens que estavam no baile funk na madrugada deste domingo (1). Pouco importa se a gravação foi feita há dois dias ou dois meses. Temos um policial, em tese, treinado para proteger os cidadãos claramente sentindo prazer com a agressão de jovens desarmados em um espaço público.

Segundo: isso não é abuso de autoridade. É tortura.

Já fiz essa reflexão aqui antes, mas faço novamente. Durante as sessões de tortura realizadas no 36o Distrito Policial, local que abrigou a Oban (Operação Bandeirante) e, posteriormente, o DOI-Codi, na capital paulista, durante a ditadura, os vizinhos no bairro do Paraíso reclamavam dos gritos de dor e desespero que brotavam de lá. As reclamações cessavam com rajadas de metralhadora disparadas para o alto, no pátio, deixando claro que aquilo continuaria até que o sistema decidisse parar.

Mas o sistema não parava. O sistema nunca para por conta própria. Ele precisa ser freado pelo resto da sociedade.

A tortura firmava-se como arma da disputa ideológica. Era necessário "quebrar" a pessoa, mentalmente e fisicamente, pelo que ela era e pelo que representava. Não era apenas um ser humano que morria a cada pancada. Era também um lugar de fala, uma visão de mundo, uma ideia.

Entrevistei várias pessoas que foram torturadas no antigo DOI-Codi. Contam que havia algo mais além da justificativa ideológica, uma sensação de prazer no que faziam. Talvez esse prazer surja da sensação de poder. De fazer porque se pode fazer enquanto o outro nada pode.

O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) era integrado por membros do Exército, Marinha, Aeronáutica e policiais. A tortura não nasceu com eles no Brasil, mas a metodologia desenvolvida durante esse período e a certeza do "tudo pode" continua provocando vítimas em delegacias e batalhões policiais espalhados pelo país e nas periferias das grandes cidades, como em Paraisópolis – onde a vida vale muito menos que nos bairros ricos da cidade.

Dizem que os melhores carrascos são os psicopatas que gostam do que fazem. E se dedicam com afinco a descobrir novas formas de garantir o sofrimento humano. Muitos dos que fizeram o serviço sujo para a ditadura e passaram pelo prédio do DOI-Codi amavam isso. Pelo rosto do policial em Paraisópolis, podemos dizer o mesmo.

Não acreditavam simplesmente estar em uma guerra. Se assim fosse, haveria protocolos internacionais proibindo o que foi feito. Muito menos em uma missão divina porque Deus, se existir, nunca ouviu os gritos que saíram de lá. O que havia nas celas era, para eles, a representação do mal. E o mal precisa ser extirpado, tal qual ouvimos hoje: que há pessoas ou grupos que representam o mal e precisam ser eliminados ou contidos. Na superfície dessa afirmação, há ódio. Mas se escavarmos um pouco, chegaremos ao medo e, em seguida, à ignorância sobre o outro.

Protocolos de ação policiais em comunidades (que afirmam que a dignidade deve ser preservada) são rasgados hoje diante do discurso que transforma esses jovens no "mal". Afinal, juntam-se "ilegalmente" aos milhares para corromper os valores dos "homens e mulheres de bem" em "perversão" atrapalhando "quem paga imposto".

O golpe de 1964 e a ditadura ainda são temas que não fazem parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Por aqui, lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez.

O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia das periferias das grandes cidades, em manifestações, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando, reprimindo e torturando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica).

Os torturados do passado são torturados novamente e todos os dias, no Brasil, sob outros nomes. Normalmente, jovens, negros e pobres.

Policiais e militares não são monstros alterados por radiação para serem insensíveis ao ser humano. Não é da natureza da maioria das pessoas que decide vestir farda tornar-se violenta. Elas aprendem a agir assim. No cotidiano da instituição a que pertencem (e sua natureza mal resolvida), na formação profissional que tiveram, na exploração diária como trabalhadores e na internalização de sua principal missão: manter a ordem a qualquer preço.

Não há ordens diretas para matar negros e pobres da periferia dados pelo comando do poder público. Mas nem precisaria. As forças de segurança em grandes metrópoles, como o Rio ou São Paulo, são treinadas para, primeiro, garantir a qualidade de vida e o patrimônio de quem vive na parte "cartão postal" das cidades, atuando na "contenção" dos mais pobres. Segundo, com governos apoiando a letalidade policial como política de combate à violência, a percepção da impunidade ajuda a agir sem pensar nas consequências.

Nossa geração tem sido incompetente para garantir dignidade à próxima. Espero que os mais jovens nos perdoem e sejam mais capazes que nós em construir uma sociedade em que esse tipo de cena não aconteça. E, se acontecer, não venha com aplausos na forma de uma chuva de likes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.